‘Caminhos e Memória’ propõe uma nova escuta da música instrumental brasileira

Projeto do PIG Orkestra Trio transforma o álbum físico em experiência expandida, unindo arte, pesquisa e tecnologia

Por Murilo Aguiar

Trio durante apresentação no Jardim Santa Rosália: sonoridade minimalista que privilegia o diálogo entre os instrumentos

O lançamento do álbum “Caminhos e Memória”, do PIG Orkestra Trio, transforma o tradicional vinil em uma experiência artística expandida e propõe um novo olhar sobre a música instrumental brasileira em plena era do streaming.

Apresentado no Castelo Cultural, na avenida São Francisco, Jardim Santa Rosália, em Sorocaba, na sexta-feira (24), o projeto idealizado por Paulo Godoi vai além do formato fonográfico ao reposicionar o disco físico como um objeto híbrido, capaz de integrar fruição estética, conteúdo educacional e recursos digitais.

Com uma abordagem avant-garde e influências que transitam entre o erudito, o jazz e a música popular brasileira, o álbum revisita nomes como Heitor Villa-Lobos, Pixinguinha, Tom Jobim, Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti. Os arranjos autorais exploram texturas, pausas e improvisações, criando uma escuta sensível e detalhada.

A proposta se concretiza na chamada “Edição Física Advanced”, que reúne, além dos fonogramas, partituras, backing tracks, videoclipes, making of, photobook exclusivo e acesso a conteúdos digitais expandidos. A iniciativa busca resgatar o caráter tátil e ritualístico do álbum físico, em contraponto à escuta fragmentada predominante nas plataformas digitais.

Inspirado em formações camerísticas e na estética experimental dos anos 1960, o trio — formado por saxofone/flauta, guitarra e contrabaixo acústico — constrói uma sonoridade minimalista que privilegia o diálogo entre os instrumentos.

Para o contrabaixista Sandro Alves, a participação no projeto representou uma imersão profunda no processo criativo. “Participar da gravação foi uma experiência enriquecedora, marcada pelo contato direto com todas as etapas da produção musical”, comenta.

Ainda conforme ele, “o ambiente colaborativo favoreceu a troca de conhecimentos e ampliou a compreensão sobre os processos que dão forma à obra”. Sobre o lançamento, Sandro complementa: “Ver o trabalho ganhar vida no palco consolidou uma vivência significativa, que reforça a motivação para novos desafios”.

A proposta também chamou a atenção do contrabaixista convidado Valgério Gianotto, que destaca o caráter estruturado do projeto. “Não se trata apenas de um álbum, mas da materialização de uma proposta consistente, que conecta arte e método de forma rara no cenário atual”, avalia. Segundo ele, a iniciativa, vinculada à pesquisa “Da Ideia ao Palco”, demonstra que “é possível alinhar criação e produção com clareza, intenção e resultado”.

Já a pianista convidada Giovanna Tardelli ressalta o rigor artístico da obra. “O álbum revela um trabalho de alta qualidade, fruto de pesquisa consistente e atenção aos detalhes. Da escolha do repertório à formação da equipe, tudo foi conduzido com precisão”, afirma. Ela também destaca o clima do lançamento: “Foi uma noite marcada não apenas pelo espetáculo, mas pelo encontro e pela troca entre os músicos”.

Além da dimensão artística, “Caminhos e Memória” integra uma pesquisa de mestrado que investiga a produção musical contemporânea, conectando prática criativa e metodologia aplicada. O resultado é um projeto que se posiciona tanto como obra estética quanto como modelo de produção dentro da economia criativa.

Ao apostar em tiragem especial e curadoria refinada, o álbum se consolida como item de coleção e propõe uma reflexão sobre o valor da experiência musical em tempos de consumo imediato — um convite, nas palavras de Paulo Godoi, para “ouvir devagar e deixar que a música permaneça, abrindo caminhos na memória”.