Entre o tempo e a palavra

Dois escritores, dois caminhos e um ponto em comum: transformar o cotidiano em leitura no retorno às páginas do jornal

Por Vernihu Oswaldo

Vanderlei Testa é jornalista, e Nelson Fonseca é professor

Quando começa um texto? Na primeira palavra escrita? Na primeira ideia concebida? No toque da caneta no papel? No deslizar dos dedos no teclado? No trajeto de carro, no silêncio de um ninar?

Escrever, afinal, é isso: decidir o que merece sair do pensamento e ocupar o espaço da página. Em um mundo em que cada caractere é contado, escolher qual pedaço do cotidiano será descrito também é uma forma de arte.

Entre idas e vindas, o Cruzeiro do Sul volta a receber em suas páginas dois escritores, dois observadores do mundo. Vanderlei Testa e Nelson Fonseca Neto retomam a publicação de artigos no periódico e, cada um à sua maneira — o jornalista e o professor —, registram suas formas de ver o mundo.

Um tempo que parece exigir pressa, mas que ainda depende de quem decide parar para escolher as palavras. E, sobretudo, de quem dedica alguns minutos do dia para lê-las.

No começo, o verbo

A década de 1970 marcou o início da trajetória do jornalista Vanderlei Testa. Trabalhando na Metalúrgica Nossa Senhora Aparecida, percebeu a dificuldade de comunicação interna e propôs a criação de um jornal da empresa. Após anos editando o periódico e acumulando experiências na imprensa, estreou no Cruzeiro do Sul com uma coluna sobre segurança do trabalho. Testa aprendeu, na prática: a escrever, apurar, montar.

Nelson Fonseca Neto fez o caminho inverso: aprendeu a ler. Não apenas no sentido pedagógico, mas no metalinguístico, aprendeu a enxergar o mundo pelas lentes da literatura. Professor há mais de duas décadas, transita entre a gramática, a literatura e a redação.

Desde 2011, quando passou a assinar uma coluna no jornal, transformou o cotidiano em matéria-prima e consolidou uma escrita que nasce menos do impulso e mais da elaboração, muitas vezes pensada antes mesmo de chegar ao papel.

Antes, o leitor

Processos criativos raramente são lineares. Passam por subidas e descidas, lembranças e esquecimentos. Os caminhos de Vanderlei e Nelson, por vezes, se confundem e se encontram, como em uma dança. Cada um imprime sua personalidade — e seu ofício — no que escreve.

Neto só se senta diante do computador quando o texto já está completamente estruturado na cabeça. Costuma falar do cotidiano: da esposa, do filho, dos pais, do irmão, da família. Em outras ocasiões, parte de observações aparentemente simples, como no texto sobre donos de carros grandes, que gerou ampla repercussão.

“Eu não imaginei que fosse gerar isso. Escrevi a crônica sem pensar nessa repercussão toda. Teve gente que gostou, gente que entendeu e gente que levou para um lado que não era o meu. Mas a gente não controla isso. Quem lê tem todo o direito de interpretar.”

Ele se define assim: “Eu me vejo como cronista, não como colunista. A coluna parece algo mais sério, mais opinativo. A crônica é mais solta, mais livre, permite muito mais coisas.”

Vanderlei segue outro caminho: “Eu penso muito no leitor. Acredito que ele merece, acima de tudo, respeito. Aquilo que escrevo precisa servir para que ele reflita, aprenda e leve algo para a vida.”

Em seus textos, costuma recorrer a grandes comparações. Em um dos mais recentes, relacionou a missão Artemis ao ventre materno e relembrou Carrol, esposa do comandante, falecida em 2020 e homenageada com o nome de uma cratera lunar.

Neto parte do detalhe para alcançar o universal. Vanderlei parte do universal para torná-lo íntimo.

Anteriormente, o jornalismo

Há um ponto em comum entre os dois: o jornal. O jornalismo. O Cruzeiro do Sul. Sempre presente na infância de Nelson, e também na rotina de Vanderlei, que, aos 79 anos, mantém o hábito de se sentar no fundo de casa com um café, ler o jornal e observar os pássaros que se aproximam dos pedaços de pão que espalha.

Vanderlei guarda seus artigos em pastas e mantém livros sobre a mesa. Já publicou mais de 127 textos no jornal. Neto acredita ter ultrapassado os 700.

Aos 48 anos, Nelson revisita memórias: da mãe, do pai, do irmão, da casa de infância e da presença constante do jornal. Antes de escrever, lia clássicos e notícias.

O tempo corria diferente. Entre guerras e histórias de amor impressas nas páginas diárias, ambos construíram suas trajetórias. Casados, seguem caminhos distintos: Vanderlei tem uma filha e uma neta; Nelson, um filho e muitos alunos. Vanderlei tem na fé católica um dos eixos de sua vida; Nelson, o apego aos clássicos.

Depois, o tempo

Fica o gesto repetido: o jornal aberto sobre a mesa, o café ao lado, o tempo desacelerado por alguns minutos que insistem em sobreviver à pressa.

Fica Vanderlei, no fundo de casa, entre páginas e pássaros, transformando o cotidiano em contemplação. A máquina de escrever permanece por perto, como quem não esquece de onde veio.

Fica Nelson, entre lembranças e palavras que nascem antes do papel, construindo textos enquanto nina o filho.

Fica o jornal como um fio invisível, presente na infância, nas casas, nas rotinas. Antes da escrita, a leitura. Antes da opinião, o olhar. Antes do texto, o mundo.

Agora, a volta às páginas. Ficam também as diferenças, que não afastam, aproximam. Um aprende fazendo; o outro lapida pensando. Um expande o mundo para torná-lo íntimo; o outro parte do íntimo para alcançar o mundo.

Dois caminhos que se cruzam no mesmo ponto: o compromisso com quem lê. E, no fim, fica isso: alguém escrevendo de um lado, alguém lendo do outro. No meio, o tempo e a palavra tentando, ainda, fazer com que ele dure um pouco mais.