Artista de Sorocaba conquista espaço no exterior e transforma memórias em arte

Com mais de 30 anos de carreira, Cecília Rodrigues acumula exposições internacionais e defende a arte como ferramenta de conexão e transformação

Por Caroline Mendes

Com a morte da mãe, sorocabana enfrentou a depressão e chegou a questionar a continuidade na carreira

A trajetória da artista plástica Cecília Rodrigues começou cedo, ainda na infância, dentro de casa, observando a mãe dar aulas de pintura em tecido. Foi ali, aos 12 anos, que surgiram os primeiros traços de uma carreira que, décadas depois, ultrapassaria fronteiras e levaria o nome de Sorocaba a galerias e exposições internacionais. “Eu comecei incentivada pela minha mãe. Eu a via trabalhando, ensinando e aquilo foi chamando minha atenção”, relembra.

O interesse rapidamente se transformou em prática e, pouco tempo depois, também em renda. Ainda adolescente, passou a produzir peças sob encomenda e a ganhar o próprio dinheiro com a arte. O caminho, no entanto, esteve longe de ser simples. Sem recursos para investir em cursos, Cecília precisou buscar alternativas para se aperfeiçoar. “Minha mãe falou que não tinha condições de pagar um curso, então eu fui atrás sozinha. Ia a sebos, bibliotecas, comprava livros de arte. Era o que tinha na época”, conta.

A dedicação deu resultado. Após anos participando de exposições locais e regionais, a artista recebeu, em 2006, o primeiro convite para expor no exterior, feito por um curador que conheceu seu trabalho. A partir daí, novas oportunidades surgiram, consolidando sua presença no circuito internacional.

Mas a trajetória também foi marcada por momentos difíceis. Em 2008, com a morte da mãe, Cecília enfrentou um período de depressão e chegou a questionar a continuidade na carreira artística. “A arte fazia muito sentido com ela [se referindo à mãe] presente. Quando ela se foi, eu fiquei sem saber o que fazer”, diz. Com apoio e tratamento, conseguiu retomar o caminho e reafirmar sua escolha profissional.

Formada em ciências biológicas pela PUC de Sorocaba, ela afirma que, apesar da formação acadêmica, foi a arte que sempre falou mais alto. “Eu amei fazer a faculdade, mas a arte sempre prevaleceu na minha vida.”

Hoje, com mais de três décadas de atuação, Cecília construiu uma rede de contatos que impulsiona sua carreira fora do país. Segundo ela, o reconhecimento não acontece de forma imediata, mas é resultado de anos de trabalho e visibilidade. “Não é só talento. É persistência, é exposição, é mostrar o trabalho. Um convite puxa o outro.”

Entre os momentos mais marcantes da carreira está a participação em uma exposição no Carrossel do Louvre, em Paris, em 2017. “Foi muito significativo. Eu estava ali representando o Brasil, o Estado de São Paulo e Sorocaba.”

A artista também chama atenção para as diferenças entre o mercado de arte no Brasil e no exterior. Para ela, o país ainda está em processo de desenvolvimento nesse setor. “Eu vejo o Brasil como um adolescente. Lá fora, a arte é incentivada desde a infância, as pessoas visitam museus, colecionam. Aqui, ainda estamos construindo esse olhar.”

Em suas obras, Cecília busca criar conexão com o público por meio das chamadas “memórias afetivas”. “A arte precisa falar alguma coisa, precisa contar uma história. Eu gosto de trazer emoção, lembranças, algo que toque quem está vendo.”

Além da produção artística, ela também se dedica ao ensino. A experiência começou cedo, aos 15 anos, quando passou a ajudar alunas da própria mãe. Desde então, nunca mais parou. “Eu gosto dessa troca, dessa interação. Ensinar também faz parte do que eu sou.”

Entre os próximos passos da carreira, Cecília se prepara para mais uma exposição internacional, desta vez em Las Vegas, Estados Unidos, em maio. Ao mesmo tempo, faz questão de manter o vínculo com Sorocaba, cidade onde nasceu e vive. “Eu faço questão de mostrar meu trabalho aqui também. É a cidade que eu amo.”

Para quem deseja seguir o mesmo caminho, a artista deixa um recado direto: talento não é o principal fator. “É 98% força de vontade e 2% talento. O mais importante é dar o primeiro passo.” Mais do que carreira, Cecília defende a arte como necessidade no cotidiano. “A arte tem um poder terapêutico. Em um mundo tão corrido, ela ajuda a desacelerar, a se conectar. É algo que deveria fazer parte da vida de todos”, conclui.