Grafite se consolida como linguagem artística e ganha espaço em Sorocaba

De expressão urbana ligada ao hip-hop à presença em museus, prática avança com reconhecimento e políticas públicas

Por Cruzeiro do Sul

Arte contemporânea em muro de hospital localizado na zona oeste da cidade: manifestação cultural e conscientização sobre os impactos da pichação

Maria Clara Campos
programa de estágio

O grafite se consolidou como uma das principais expressões da arte urbana contemporânea, transformando paisagens e ocupando túneis, muros, fachadas e prédios. As intervenções modificam o espaço urbano e influenciam a relação da população com a cidade.

No Brasil, o grafite surgiu no fim da década de 1970, em São Paulo, ligado ao movimento hip-hop, do qual é uma das formas de expressão cultural. Desde então, a prática se expandiu por diferentes regiões do país, ganhando identidade própria e reconhecimento social e institucional.

Paralelamente, o grafite também ampliou sua presença fora das ruas. Nos últimos anos, passou a ocupar galerias e museus, se consolidando no circuito cultural formal. Instituições como o Museu de Arte de São Paulo (Masp), o Museu de Arte do Rio (MAR) e o Instituto Tomie Ohtake já receberam exposições de artistas ligados à arte urbana.

Esse processo também impulsionou o mercado, com obras sendo comercializadas e artistas conquistando espaço no circuito nacional e internacional. Antes associado à marginalidade, o grafite hoje se estabelece como linguagem artística reconhecida, com impacto cultural, social e econômico.

Em Sorocaba, o grafite passou a ser incentivado e regulamentado como política pública em 22 de setembro de 2023, por meio de legislação municipal voltada à promoção da arte urbana. Segundo a Câmara de Vereadores, a proposta busca valorizar os espaços públicos, incentivar o uso social da cidade, reconhecer o grafite como manifestação cultural e conscientizar sobre os impactos da pichação.

Viver da arte

Um dos nomes em destaque no município é o arquiteto e artista plástico Guaen Lee, conhecido por trabalhos que dialogam com o espaço urbano e a identidade da cidade. O artista afirma que sua relação com o grafite começou na adolescência, quando passou a enxergar a cidade como uma “tela aberta”. Segundo ele, foi na rua que percebeu o potencial da arte de dialogar diretamente com as pessoas.

“Minha relação com o grafite começou muito cedo, ainda na adolescência, quando percebi que a cidade podia ser uma espécie de tela aberta. Sempre desenhei, mas foi na rua que entendi que a arte podia dialogar diretamente com as pessoas. O grafite acontece no cotidiano. Com o tempo, essa prática se conectou com minha formação em arquitetura e com a forma como penso o espaço urbano. Hoje, pintar um muro também é uma maneira de redesenhar a experiência da cidade”, conta.

Sobre a percepção do público, o artista avalia que ainda há resistência, mas que o cenário vem mudando. “Muitas pessoas ainda confundem grafite com pichação. Ao mesmo tempo, essa visão vem se transformando. Hoje vemos grafite em projetos culturais, fachadas e marcas. A sociedade começa a entender que a arte urbana pode transformar paisagens e gerar identidade. Ainda existe resistência, mas há mais reconhecimento”, ressalta.

Guaen Lee também destaca que suas obras funcionam como narrativas visuais. “Gosto de pensar minhas obras como narrativas. Muitas falam sobre transformação e sobre as camadas das cidades e das pessoas. A rua é um espaço de encontros e histórias. Tento traduzir isso em imagens que provoquem reflexão. Prefiro que cada pessoa interprete a obra de forma diferente”, explica.

Ao comentar o cenário local, o artista avalia que Sorocaba vive um momento de crescimento. “Existe uma nova geração produzindo trabalhos relevantes e uma abertura maior para projetos culturais. A cidade permite experimentação e diálogo entre artistas, público e instituições. Ainda há espaço para avançar em políticas públicas, mas já existe uma cena ativa”, pontua.

Sobre oportunidades, ele acrescenta que ainda são limitadas e dependem de iniciativas próprias. “Muitos projetos partem dos próprios artistas ou de parcerias. As dificuldades são estruturais, como financiamento e burocracia. O artista urbano muitas vezes precisa atuar em várias frentes. Ao mesmo tempo, isso faz parte da essência da arte de rua.”

Para ele, viver da arte urbana é possível, mas exige diversificação. “O artista precisa entender de projetos, parcerias, editais e comunicação. A arte urbana hoje está em diferentes campos, como murais, intervenções, exposições e até arquitetura. Com essa visão, é possível construir uma carreira sustentável”, opina.

O artista também aponta mudanças recentes na prática, impulsionadas pelas redes sociais. “O grafite ganhou alcance global. Uma obra pode ser vista em poucos minutos em diferentes lugares. Isso ampliou o diálogo entre artistas e trouxe novas linguagens, que misturam arte, design e tecnologia.”

Sobre o processo criativo, Guaen destaca a observação do espaço. “Tudo começa com o contexto do lugar, sua história e as pessoas que circulam ali. A partir disso surgem ideias e esboços. Quando vou para o muro, já existe um conceito, mas deixo espaço para improviso. A obra final carrega essa interação com o ambiente.”

Ele também ressalta o valor simbólico de alguns trabalhos. “Alguns projetos se tornam mais especiais quando estão ligados a histórias ou memórias. Quando a obra dialoga com a vida das pessoas, ela ganha um significado que vai além da estética”, observa.

Por fim, o artista destaca os aprendizados da rua e projeta o futuro da arte urbana. “A rua ensina adaptação e escuta. Quando você pinta na cidade, a obra passa a fazer parte do cotidiano das pessoas. Acredito que a arte urbana continuará se expandindo e dialogando com áreas como arquitetura, tecnologia e urbanismo. As cidades começam a perceber seu papel na construção de identidade cultural”, conclui.