Escolas de teatro de Sorocaba resistem ao tempo e oferecem opções culturais

Grupos, escolas e artistas mantêm a cena ativa apesar das mudanças no setor

Por Da Redação

Atriz Beth Pinn conta que encontrou na sala de aula uma forma de sustento, mas manteve a conexão com o palco


Vernihu Oswaldo

No teatro, as máscaras não escondem, revelam. Em Sorocaba, diversas escolas e espaços dedicados ao teatro resistem ao tempo e oferecem opções culturais aos sorocabanos.

Na zona norte, o ator e diretor Júlio Carrara mantém o Teatro de Bolso Tatina Belinky desde 2019 no atual endereço. Já no Centro, o tradicional Teatro Escola de Mário Pérsico, fundado em 2013, ensaia para abrir sua nova sede.

Também na região central, próximo à catedral, a Escola Sorocabana de Comunicação e Arte (Esca) nasceu em agosto de 2025, fundada por Felipe Barbosa. Já na Vila Assis, a atriz Beth Pinn mantém sua escola desde 2021 no atual endereço.

Primeiro ato
Assim como no teatro, as vidas também podem ser divididas em atos. E os primeiros, quase sempre, são marcados pelo encontro, pelo deslumbramento, pela paixão.

Beth conta que a primeira vez em que assistiu a uma peça de teatro foi suficiente para despertar esse interesse. Era um espetáculo encenado no teatro do Sesi, adaptado de um texto do escritor norte-americano Charles Bukowski.

A paixão de Mário começou no cinema, com os filmes que a mãe o levava para assistir. Com brilho nos olhos, relembra Casablanca. Um curso gratuito oferecido pela prefeitura foi o pontapé que o levou ao tablado. Dali não sairia mais: a primeira peça da qual participou foi o clássico Romeu e Julieta, de William Shakespeare.

A história de Felipe começa por outro caminho. Foi a tentativa de vencer a timidez que o motivou. “Eu comecei a fazer teatro com 15 anos, na escola, porque vi uma oportunidade de me expressar melhor”.

Júlio Carrara construiu sua trajetória como aluno de escola de teatro em 1992. Depois de diversas peças e cursos, fundou seu próprio grupo na segunda metade da década de 1990.

Segundo ato
Se o primeiro ato é o encontro, o segundo quase sempre é a prova. No teatro, como na vida, ela vem em forma de falta: de recursos, de público, de tempo, de fôlego.

Beth encontrou na sala de aula uma forma de sustento, mas manteve a conexão com o palco. Lecionou a disciplina de arte por mais de 18 anos em escolas públicas e passou a montar espetáculos com os alunos. “Lá fiz projetos de teatro com os alunos e, a partir desse trabalho, comecei a gostar muito dessa parte da montagem, de trabalhar essa linguagem com adolescentes e crianças. Os desafios passam pela permanência”. Alguns alunos migraram das escolas para as aulas de teatro na companhia de Beth.

No caso de Mário Pérsico, o desafio se confunde com a própria história do teatro local. À frente do Teatro Escola que leva seu nome, fundado em 2013, ele acompanhou transformações no fazer teatral, desde a mudança de hábitos do público até a redução de políticas públicas voltadas à área. A reabertura de uma nova sede, atualmente em preparação, carrega expectativa e a responsabilidade de sustentar uma trajetória.

Júlio Carrara viveu o afastamento de forma literal. Após décadas de atuação, formação e direção, precisou interromper as atividades presenciais com a chegada da pandemia. O Teatro de Bolso Tatina Belinky, inaugurado em 2019, fechou as portas por quatro anos.

Nesse período, Carrara manteve o teatro ativo à distância, com leituras dramáticas on-line, encontros virtuais e a criação de redes que ultrapassaram Sorocaba e reuniram autores e atores de diferentes gerações.

Júlio também enfrentou questões pessoais. Voltou para Sorocaba para cuidar da tia e relembra que, no dia seguinte à perda da mãe, estava em cena, atuando em uma peça.

Felipe Barbosa também se afastou, ainda que por outros caminhos. Mesmo com registro de artista e premiações em festivais estudantis, seguiu carreira no direito. O teatro permaneceu como ferramenta silenciosa, moldando sua oratória e presença profissional. O retorno, em 2023, não foi apenas ao palco, mas ao desejo antigo de criar um espaço próprio.

Terceiro ato
Se o segundo ato é marcado pelo conflito, o terceiro é o da permanência. Da insistência.

Hoje, os quatro espaços seguem ativos, cada um à sua maneira. Na zona norte, o teatro de bolso de Carrara aposta na proximidade com o público, em espetáculos gratuitos e em linguagens que dialogam com temas contemporâneos, como saúde mental, tecnologia e envelhecimento.

No Centro, o Teatro Escola de Mário Pérsico se prepara para um novo endereço, reafirmando seu papel na formação de atores e atrizes da cidade. A mudança sinaliza continuidade e renovação. O novo espaço, com mais acessibilidade, reforça a ideia de que, no teatro, todos têm lugar.

Também no Centro, a Esca, fundada em agosto de 2025, ainda dá seus primeiros passos. Com cerca de 20 alunos e investimento totalmente privado, o espaço funciona como escola, sala de ensaio e ponto de encontro para diferentes linguagens artísticas. A proposta é reunir teatro, canto, oratória e outras artes sob o mesmo teto.

Na Vila Assis, a escola de Beth Pinn segue formando alunos e mantendo viva uma tradição que atravessa décadas do teatro sorocabano, conectando memória e prática cotidiana.

Epílogo
Entre veteranos e novos nomes, Sorocaba sustenta um teatro que resiste. Em salas pequenas, cadeiras próximas, luzes. Às vezes, entre o cenário, um foco de luz que insiste em acender.

No fim, como no palco, o que mantém a cena viva não é o tamanho do espaço, mas o gesto repetido: abrir a porta, montar o cenário, esperar o público chegar. E, mesmo quando ele demora, entrar em cena.