Artista transforma a história de Sorocaba em memória viva
Reconhecido pelas maquetes de patrimônio histórico, Santiago Ribeiro prepara romance inédito sobre a fundação de Sorocaba
Caroline Mendes
Sorocaba é uma cidade construída sobre camadas sucessivas de tempo. Muitas delas já não são visíveis no cotidiano urbano, apagadas pela demolição de casarões, pelo crescimento desordenado e pela perda gradual da memória coletiva. É nesse território invisível que Santiago Ribeiro atua há anos, recriando em maquetes fragmentos arquitetônicos que ajudaram a moldar a identidade do município.
Mais do que reproduções em escala reduzida, as obras funcionam como testemunhos de um passado que insiste em permanecer. Cada maquete nasce de um processo investigativo. “Antes de qualquer material, ela nasce na ideia, quase como uma imagem que retorna e pede forma”, explica. A partir desse impulso, o artista se dedica à pesquisa histórica e iconográfica, reunindo fotografias antigas, plantas arquitetônicas, relatos, pinturas e registros orais, buscando compreender não apenas a forma das edificações, mas o contexto social e humano em que existiram.
Esse método faz com que o trabalho vá além da precisão técnica. “A maquete que produzo não se limita à reprodução arquitetônica. Ela carrega memória afetiva. Um reboco gasto, uma janela deslocada, tudo isso conta uma história silenciosa”, afirma. O processo de construção é artesanal, feito camada por camada, com revisões constantes, até que a peça deixe de ser apenas um objeto e passe a representar, segundo ele, um fragmento materializado do tempo.
Recriar patrimônios históricos em escala reduzida impõe desafios específicos. Em edificações mais simples, como casas sertanistas, a dificuldade está na sutileza, já que qualquer exagero compromete a leitura histórica. Em estilos mais ornamentados -- como barroco, gótico ou art nouveau -- o desafio aumenta pela riqueza de detalhes, curvas e simbologias que precisam ser reinterpretadas com precisão.
Além da estética, há a preocupação com a integridade estrutural das peças. “É preciso reinventar técnicas e materiais para manter a delicadeza sem perder resistência”, explica. Para o artista, é nesse ponto que a maquete deixa de ser reprodução e se transforma em um exercício de tradução histórica e sensível do patrimônio.
A pesquisa histórica, segundo ele, orienta todas as decisões artísticas. É ela que define proporções, texturas, cores e até o grau de desgaste representado. “Ela não engessa o processo criativo, mas o aprofunda. A pesquisa garante fundamento, enquanto a arte dá alma”, resume.
Maquetes que provocam emoção
O impacto do trabalho vai além da contemplação estética. Em exposições realizadas em Sorocaba e em outras cidades, as maquetes despertaram reações emocionais no público. Em uma delas, uma senhora de 92 anos reconheceu, em uma casa de taipa em miniatura, a moradia onde havia nascido. A visita acabou se tornando uma despedida simbólica: poucos dias depois, ela faleceu. “Saber que o meu trabalho esteve presente naquele momento me marcou profundamente”, recorda.
Em outra ocasião, uma maquete que retratava uma favela levou um visitante às lágrimas ao remeter à infância vivida em comunidades do Rio de Janeiro. Para o artista, situações como essas demonstram que, ao tocar a memória, a obra deixa de ser objeto e se transforma em ponte entre passado e presente.
Arte como preservação e educação
Para o pesquisador, a arte desempenha papel central na preservação da memória urbana. Não se trata de se opor ao progresso, mas de questionar o apagamento provocado pelo crescimento das cidades. “As maquetes funcionam como testemunhos sensíveis de um passado que não deve ser esquecido”, afirma.
Esse entendimento se estende ao campo educativo. Recentemente, o trabalho inspirou um projeto pedagógico em uma escola de Osasco, no qual alunos recriaram espaços urbanos a partir de suas próprias vivências, com participação das famílias. A experiência ganhou repercussão e se transformou em pauta do programa Boas Práticas Escolares, da TV Cultura. Para o artista, o desdobramento evidencia o potencial da arte na formação de cidadãos atentos à história e ao espaço urbano.
Da arquitetura à literatura
O aprofundamento das pesquisas históricas levou Santiago Ribeiro a expandir sua atuação para a literatura. Durante o estudo sobre o antigo casarão de Baltazar Fernandes, demolido na década de 1950, surgiu a percepção de que a fundação de Sorocaba carecia de uma narrativa mais ampla, capaz de explorar conflitos humanos, familiares e simbólicos.
Desse processo nasceu o romance inédito ‘Quando marcha o coração’, com cerca de 690 páginas. A obra tem como pano de fundo a fundação da cidade, em 1654, e acompanha a chegada de Baltazar Fernandes à região, suas relações familiares, os vínculos com indígenas e sertanistas e os conflitos que antecederam a criação da vila.
Na narrativa, personagens históricos convivem com figuras ficcionais que conduzem a trama, como a feiticeira que induz Baltasar a confrontar a própria trajetória e aceitar a missão de fundar Sorocaba. A decisão provoca um racha familiar, especialmente com o filho mais velho, e desencadeia uma história dividida em múltiplos núcleos, envolvendo sertanistas, religiosos e integrantes das primeiras famílias da cidade.
O livro também retrata episódios como a doação das terras aos monges beneditinos, a origem do mosteiro e a primeira missa celebrada com a chegada da imagem de Nossa Senhora da Ponte, marco simbólico do compromisso de Baltazar com a vila nascente.
A obra ainda não tem data de lançamento. Inscrito no edital do Programa de Ação Cultural (ProAC), o romance aguarda avaliação. Paralelamente, o artista mantém outros projetos em andamento, entre eles a circulação de maquetes da Fazenda Ipanema e o desenvolvimento de um novo trabalho voltado a habitações e arquiteturas esquecidas da cidade.
Entre miniaturas e palavras, o trabalho se consolida como um esforço contínuo de preservação da memória sorocabana, fazendo com que a história local seja revisitada não como algo distante, mas como parte viva da identidade coletiva.