Artistas da região mostram a força artística da pintura com a boca

Integrantes da Associação dos Pintores com a Boca e os Pés, Leandro Portella e Leandro Oliveira têm obras reconhecidas no Brasil e no exterior

Por Da Redação

O desejo é que a obra venha antes da técnica

Caroline Mendes

A pintura com a boca, técnica desenvolvida por artistas que não utilizam as mãos para criar, vem ganhando espaço na Região Metropolitana de Sorocaba por meio do trabalho de Leandro Portella, de Araçoiaba da Serra, e Leandro Oliveira, de Itapetininga. Ambos integram a Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP) e defendem que suas obras sejam analisadas, antes de tudo, pelo valor artístico, e não apenas pela técnica ou pela condição física de quem as produz.

No caso de Portella, a arte surgiu em um período de reconstrução pessoal. Inicialmente apresentada como atividade de reabilitação, a pintura assumiu outro papel. “No começo, foi quase um exercício para manter a mente ativa e lidar com o trauma. Mas logo percebi que ali havia algo maior. Não era só reaprender movimentos, era continuar existindo como sujeito criativo”, relata.

Segundo o artista, o processo de pintar com a boca envolve desafios técnicos constantes, como controle do traço, estabilidade corporal, respiração e resistência muscular, além de dores cervicais. “É um equilíbrio permanente entre força e delicadeza. Com o tempo, o corpo encontra seus próprios atalhos e a técnica deixa de ser um obstáculo para se tornar linguagem. O estilo nasce justamente dessa adaptação”, afirma.

A experiência de viver com deficiência atravessa sua produção, mas não define os temas. “Não pinto a deficiência; pinto com tudo o que sou hoje. As cores, os vazios e as tensões das telas carregam emoções universais, mesmo que nasçam de um corpo específico”, diz.

Para Portella, um dos principais entraves ainda está na recepção do público. “Muitas pessoas se impressionam primeiro com o ‘como’ antes de olhar para o ‘o quê’. Meu desejo é que a obra venha antes da técnica. Quando isso acontece, a arte deixa de ser curiosidade e vira encontro”.

Com trabalhos exibidos no Brasil e no exterior, o artista vê a presença em galerias como confirmação de pertencimento ao circuito cultural. Entre os projetos em andamento está a série Timão, Minha Seleção, que utiliza o Corinthians como símbolo de identidade, memória afetiva e resistência popular, conectando arte e coletividade.

Já Oliveira teve a vida transformada após um acidente de moto, em fevereiro de 2000, que resultou em lesão medular completa na altura do pescoço, deixando-o tetraplégico. A pintura entrou em sua rotina por sugestão de uma amiga da família, inicialmente como terapia. O que parecia improvável tornou-se caminho profissional.

“Procurei professores de pintura, mas muitos desistiam ao saber que eu era tetraplégico. Achavam que eu só reclamava da vida. Encarei isso como um desafio”, conta. Com apoio da família, começou a pintar em guardanapos e, depois, em telas. Hoje, desenvolve principalmente paisagens e temas rurais, inspirados na infância e na vida no interior.

Para Oliveira, pintar com a boca não é tão difícil quanto muitos imaginam. “O pincel, seja na mão ou na boca, é apenas uma extensão do cérebro. Depois disso, é prática, estudo e persistência. Como tudo na vida, a repetição leva à evolução”, afirma. Ele também destaca a influência emocional no processo criativo: “Se estou bem, uso cores mais claras; se estou preocupado, tudo tende a ficar mais escuro. Quando não estou bem, prefiro nem começar a pintar”.

A entrada na APBP marcou um ponto decisivo em sua trajetória. “Foi talvez a melhor coisa da minha vida. Além do apoio e do suporte, me fez sentir útil novamente. Fazer parte de uma associação presente em dezenas de países é motivo de orgulho”, diz.

Tanto Portella quanto Oliveira reconhecem que a arte produzida por pessoas com deficiência ainda é, muitas vezes, lida pela ótica da superação. “Isso acaba tirando um pouco o foco da obra em si”, avalia Oliveira. Portella concorda e acrescenta que esse olhar vem mudando. “O debate está amadurecendo. Aos poucos, o valor estético, conceitual e técnico começa a ganhar mais espaço”.

Fundada na Europa a partir de um pequeno grupo de artistas, a APBP reúne hoje cerca de 800 artistas em mais de 70 países, oferecendo apoio financeiro, técnico e institucional para que seus integrantes possam viver da arte. No Brasil, a associação atua na promoção cultural e na valorização profissional desses artistas, ampliando o acesso a exposições e ao mercado artístico.

Ao apresentarem suas obras ao público, os artistas deixam uma mensagem comum: a de que a arte não deve ser reduzida à condição física de quem a produz. “Minha história não é sobre heroísmo, é sobre continuidade”, resume Portella. “A arte é a prova de que ainda há muito a dizer, sentir e compartilhar”.