Entre lobos, potes e príncipes, livros infantis promovem acolhimento e inclusão
Autores da região de Sorocaba usam linguagem lúdica para ajudar crianças a compreender temas como asma, memórias afetivas e deficiência auditiva
Caroline Mendes
A literatura infantil tem se consolidado como aliada da educação emocional, da promoção da saúde e da inclusão desde a primeira infância. Em Sorocaba e região, autores transformam temas como doenças respiratórias, sentimentos e deficiência auditiva em histórias voltadas ao público infantil, contribuindo para a formação de leitores atentos às próprias emoções e às diferenças.
Um dos exemplos é um livro infantil sobre asma escrito pela fisioterapeuta respiratória Raissa Maciel, moradora de Sorocaba e especialista no atendimento a crianças. Voltada ao público de 2 a 8 anos, a obra utiliza o conto Os Três Porquinhos como referência para explicar, de forma lúdica, o que é a asma e a importância do tratamento. O personagem central é o Lobo Lobato, que, diferente da versão tradicional, não assume o papel de vilão e convive com a doença de maneira positiva.
“A ideia surgiu do contato diário com crianças asmáticas, que muitas vezes chegam ao consultório cheias de medo e dúvidas. Percebi que, quando elas entendem o que acontece com o próprio corpo, participam melhor do tratamento”, explica Raissa. Segundo a autora, o livro apresenta exercícios respiratórios e o uso de medicações comuns no cotidiano de muitas famílias, facilitando a identificação das crianças com a história.
A proposta, segundo a fisioterapeuta, é mostrar que a asma não precisa ser sinônimo de limitação. “Com acompanhamento adequado, a criança pode brincar, correr e viver a infância. O livro busca reduzir medos, desfazer mitos e fortalecer a confiança das famílias”, afirma.
Outro exemplo de literatura infantil com viés de acolhimento é Pote, Potinho, Potão, da autora Monisa Maciel. A obra utiliza objetos do cotidiano, como potes usados na organização da casa, como metáfora para guardar memórias afetivas, bons momentos e pessoas importantes. A narrativa é conduzida por um pássaro, que observa diferentes lares e convida o leitor a refletir sobre simplicidade, afeto e lembranças.
“É um convite para manter vivas as memórias que nos fazem bem. Em dias difíceis, acessar essas lembranças pode ser um grande afago”, explica Monisa. A autora destaca que a obra dialoga com leitores de diferentes idades e busca estimular conversas sobre sentimentos, vínculos e cuidado emocional.
Já O Príncipe Surdo, do autor Rogério Lamana, aposta na representatividade ao colocar a surdez no centro da narrativa infantil, sem estigmas. Inspirada em uma experiência vivida pelo autor na década de 1970, a história apresenta um protagonista surdo e reforça que a deficiência não define limites.
“A surdez faz parte da identidade do personagem, mas não o impede de sonhar, amar e ser protagonista da própria história”, afirma Lamana. A obra conta com versão em videolivro e tradução em Libras, ampliando o acesso à literatura desde a infância. “A acessibilidade não é um recurso extra, é um direito. Pensar livros inclusivos é educar para a empatia e para o respeito à diversidade”, completa.
Para os autores, a literatura infantil vai além do entretenimento. Ao tratar temas ligados à saúde, às emoções e à inclusão com linguagem adequada ao público infantil, essas obras contribuem para o diálogo em família e para a convivência com as diferenças desde cedo.