Folia de Reis transforma praça no centro de Sorocaba em território de fé e memória
Apresentação da Companhia de Santos Reis de Vila Formosa reuniu devoção, música e emoção reafirmando tradição mantida há mais de três décadas
Quem passou pela praça Coronel Fernando Prestes, no Centro de Sorocaba, na tarde desta terça-feira (6), encontrou uma das manifestações populares mais tradicionais do Brasil: a Folia de Reis. Em Sorocaba, a celebração é realizada desde 1989 pela Companhia de Santos Reis de Vila Formosa.
Durante a apresentação, músicas do repertório tradicional do reisado foram entoadas pela trupe. Na plateia, cerca de 50 pessoas, de diferentes idades, acompanharam o canto. Algumas crianças dançavam ao redor do palhaço. Na Folia de Reis, essa figura ocupa um papel de fronteira: dança entre o sagrado e o profano, abrindo caminho para o avanço do cortejo. Sua função não se restringe ao divertimento. Cabe a ele proteger a folia, afastar o mal e distrair possíveis perigos enquanto os Reis seguem adiante. Com máscara, roupas coloridas e movimentos marcados, o palhaço assume um papel simbólico tão relevante quanto o dos cantadores e músicos.
A Folia de Reis é uma manifestação popular de origem cristã que celebra a visita dos Reis Magos — Gaspar, Melchior e Baltazar — ao Menino Jesus. Segundo a tradição, eles vieram do Oriente guiados por uma estrela, levando ouro, incenso e mirra, presentes que simbolizam a realeza, a divindade e a humanidade de Cristo. A celebração ocorre entre o Natal e o dia 6 de janeiro, data da Epifania. Cada visita segue um ritual: pede-se licença para entrar, canta-se a jornada dos Reis, oferece-se a bênção ao lar e reafirma-se uma fé vivida de forma coletiva, transmitida de geração em geração.
O casal José e Eva Coppi são os fundadores do grupo em Sorocaba e permanecem, até hoje, como embaixadores da companhia. José afirmou que “a gente prepara tudo com muita fé. Nosso Santo Rei tem nos abençoado e nos protegido, e seguimos sempre reunidos e prontos para fazer a caminhada”.
Entre o público, a frase mais ouvida é “não pode deixar essa tradição acabar”. Enquanto a música atravessava a praça, muitos olhos se enchiam de lágrimas. No momento da bênção com a bandeira, diversos fiéis se aproximaram e usaram o tecido como apoio para o choro. Há na Folia de Reis uma poesia construída pelo improviso e pela repetição, pelo verso que se renova a cada ano e pelo refrão que insiste em permanecer.
Os músicos lembraram companheiros que já não estão presentes. Parte do público, formada por pessoas vindas do Norte e do Nordeste, comentava em voz baixa sobre a terra natal e sobre como a folia marcou suas histórias. Quando o cortejo passa, não deixa apenas música no ar, mas a sensação de que o sagrado ainda caminha entre as pessoas, de porta em porta, pedindo licença para entrar.
Com o violão sempre à mão, José fez um convite às novas gerações: “chamar as pessoas mais novas, um rapazinho, uma mocinha, quem se interessar em seguir essa tradição, que é muito boa, muito bonita, muito religiosa. Então, será bem-vindo junto com nós”.
Beni dos Santos, de 71 anos, integra a companhia e conta que os netos também participam do grupo, tocando instrumentos, cantando e atuando como palhaços. Ele ensina jovens a tocar violão e outros instrumentos como forma de manter viva não apenas a tradição dos Reis, mas também a música e a viola.
Uma das interpretações mais difundidas aponta que o palhaço representa os soldados do rei Herodes que teriam perseguido o Menino Jesus e que, ao final da jornada, se arrependem. Por isso, usa máscara: não pode mostrar o rosto, carrega a culpa e a busca pela redenção.
No próximo sábado (10), a companhia realiza a festa de encerramento da manifestação deste ano, na rua Nelson Hardy de Barbosa, 200, na Vila Formosa, também em Sorocaba.
José Coppi explica como será a celebração: “quem chega lá desde cedo já toma café, já come com nós, tem comida o dia inteiro, ninguém paga nada, nenhum tostão”. Durante a tarde ocorre o cordão até a chegada dos Reis à manjedoura. Após o encerramento, “aí sim, aí tem de novo. Outra remessa de comida para quem quiser comer e beber. Só bebida alcoólica que não tem. Nunca teve. Só refrigerante”.
Entre fitas, flores e lágrimas, um dos ensinamentos centrais do cristianismo se materializou no gesto coletivo. Todos, sem exceção, puderam se benzer com a bandeira, levada até idosos, moradores de rua, crianças e demais participantes do cortejo. Enquanto houver quem cante, quem caminhe e quem abra a porta para receber a folia, o rito seguirá encontrando caminho para voltar.