Exposição ‘Todo Vermelho Possível’ traz 15 anos de criação de artista sorocabana
Apresentação destaca o vermelho como fio condutor de obras que dialogam com corpo, memória e natureza
A artista visual e performer, Silvana Sarti, 62 anos, nascida em Sorocaba, retorna à cidade com a exposição “Todo Vermelho Possível”, no Jardim Botânico Irmãos Villas Boas, em Sorocaba. O evento reúne 15 anos de sua produção artística em diferentes linguagens: pintura, desenho, fotografia, vídeo e performance. A mostra é gratuita e pode ser visitada de 1º a 30 de novembro.
Segundo Sarti, o objetivo é compartilhar com o público uma visão geral de sua criação artística. “Olhando para minha produção tão diversificada, entendi que deveria apresentá-la em conjunto, para que as pessoas pudessem ter um panorama do que venho construindo. Para essa exposição, escolhi trabalhar com o vermelho porque é o fio condutor, quase um cordão umbilical, que me liga com o passado familiar e com a cidade”, afirma.
“Outro ponto importante para essa escolha foi minha relação conturbada com minha mãe. Ela adorava o vermelho, e eu, para contrapô-la, dizia detestar. Apesar disso, é a cor predominante em minha obra. Para falar de meus temas, não tenho como negar o vermelho, ele representa aquilo que é possível suportar e assumir em sua força”.
A profissional, ainda, utiliza o corpo como linguagem simbólica. “Conheci o conceito da cosmovisão indígena, que entende que todos os seres — animais, vegetais ou minerais — têm alma. A partir disso, passei à performance para demonstrar que não estamos separados do ambiente. Assim, meu corpo assume o significado de terra, de vida selvagem ou vegetação. Já fui árvore, rocha, onça, caju e oceano”, descreve.
A artista iniciou sua formação em Sorocaba, na antiga Escola Arquimedes. Estudou Letras na Uniso e, posteriormente, Desenho na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo. Viveu dez anos na Itália, onde se especializou em restauro de pintura mural, e voltou ao Brasil, com 50 anos, para dedicar-se integralmente à arte. “Sorocaba é uma cidade com rica produção artística. Aqui encontrei espaço para desenvolver não só as artes visuais, mas também o teatro, o vídeo e o trabalho com grupos locais. Pontos como o antigo Matadouro e a Casa de Brigadeiro Tobias foram incorporados ao meu trabalho por seu valor simbólico”, relata.
Além das artes visuais, Sarti tem trajetória na literatura e integrou a Academia Sorocabana de Letras. “A literatura é fonte de inspiração. Poetas como Álvaro de Campos, Alfonsus de Guimarães, Ferreira Gullar e Leminski trazem o desassossego necessário para questionar o pensamento atual e gerar incômodos que se transformam em arte”, comenta. Entre suas referências, ela cita ainda o cinema de Pasolini e Peter Greenaway, e a música de Arvo Pärt.
A exposição também traz colaborações com outros artistas, como a atriz Maria Helena Barbosa e o músico Mauro Tanaka, que participam da performance de abertura, além de uma instalação de Esdras de Oliveira Nuño com o grupo têxtil “As mãos e o pensar”. A curadoria é de Raquel Fayad e o texto crítico de Marcos Reigota, pesquisador reconhecido por seus estudos sobre arte e ecologia. O evento tem início às 10h, no dia da abertura. O Jardim Botânico Irmãos Villas Boas fica na rua Miguel Montoro Lozano, 340, jardim Iguatemi, em Sorocaba. (Valéria Amoris)