Mais acidentes de trabalho são registrados, mas gravidade é menor
Comparação do MTE com o mesmo período do ano passado também mostra que maioria das vítimas é motoristas e entregadores
O número de acidentes de trabalho registrados pela regional do Setor de Inspeção do Trabalho (Seint) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) foi de 7.993, 48% a mais em comparação com o mesmo período de 2023, quando ocorreu 5.400 acidentes. Em contrapartida, houve redução no número de mortes ocasionadas por acidentes de trabalho. Até o momento, neste ano, 47 óbitos foram registrados. Em 2023 foram 55 mortes em mais de 80 cidades da área de abrangência da Regional de Sorocaba do Ministério do Trabalho e Emprego.
Conforme Ubiratan Vieira, chefe regional do Setor de Inspeção do Trabalho (Seint), grande parte das mortes ocorridas na região é de motoristas de ônibus e caminhões. Neste ano foram 16 somente em Sorocaba. Ubiratan observa que muitos desses trabalhadores realizam uma carga horária exaustiva, com curtos períodos de descanso. “Eles têm férias, no entanto, nesse período, a maior parte deles resolve fazer ‘bico’ e trabalham em empresas terceirizadas, normalmente sem registro, pois já estão registrados em outras transportadoras. A pessoa deixa de descansar para trabalhar mais e mais, 12 meses seguidos, 12 horas ou mais por dia; há casos de 18 horas por dia”.
O chefe da regional do Seint explica que nesses casos, quando ocorre a morte do trabalhador sem o registro, a empresa que contratou também é responsável. “O erro é da empresa também, porque oferece mais para o trabalhador. Ele vai receber mais dinheiro e, em compensação, na categoria dele, terá mais mortes”.
Ainda segundo Vieira, os motociclistas entregadores também fazem parte das estatísticas de mortes na região, principalmente aqueles que trabalham com aplicativos, pois tentam realizar uma grande quantidade de entregas em um curto período. Para Ubiratan, uma alternativa seria criar um corredor específico para motos em Sorocaba. “Em São Paulo ocorreu e a redução de acidentes foi substancial, principalmente para esses entregadores”, destacou Ubiratan.
O Cruzeiro do Sul questionou o Detran e a Prefeitura de Sorocaba sobre a possibilidade de implantação de um corredor de motocicletas na cidade. Em nota, o Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran-SP) informou que, conforme disposto no artigo 24 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), a sinalização viária é de competência dos órgãos municipais de trânsito. A prefeitura. por sua vez, informou que a “implantação de corredor exclusivo para motocicletas está em estudos pela Secretaria de Mobilidade (Semob).Uma das condições é encontrar espaço físico nas vias públicas para adotar tal dispositivo, sem comprometer o espaço destinado aos demais veículos, a mobilidade e a segurança”.
Campanha
Segundo o chefe da regional do Seint, o número de acidentes mais graves, com afastamentos, também caiu, em 30%. Em 2023 foram 2 mil ocorrências nesse sentido; este ano são 1.400. A maioria dos casos registrados ocorre por cortes, laceração e fraturas diversas.
Para Ubiratan Vieira, a queda no número de acidentes mais graves e mortes está relacionada à campanha promovida pelo Ministério do Trabalho e Emprego, Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Fundação Ubaldino do Amaral (FUA) e outras entidades. Em abril deste ano, um grupo de trabalho, com integrantes dessas instituições, se reuniu para debater ações de conscientização sobre segurança no trabalho.
“Foi uma campanha muito bem feita. Sei que o Ciesp trabalhou bastante junto às empresas, nós também trabalhamos, orientamos o máximo que podíamos. Em alguns casos não dá para orientar e precisamos realmente autuar”, finalizou.
Segurança do trabalhador temporário também deve ser prioridade
Nos últimos meses, as contratações temporárias ganharam força, impulsionadas principalmente pelas festas de dezembro. Esse pico de admissões apresenta desafios adicionais, especialmente para a integração desses trabalhadores nas empresas. Renan Moreno, médico do trabalho e diretor da Trabt Medicina e Segurança do Trabalho, ressalta que os contratantes devem redobrar a atenção com os funcionários temporários, uma vez que eles têm menos tempo para se familiarizar com o ambiente e concluir os treinamentos necessários.
De acordo com o médico, em setores como a indústria, por exemplo, em que existem atividades de risco, o trabalhador temporário pode se expor a perigos se não tiver o devido preparo. “O período curto de integração e treinamento, aliado ao desconhecimento de algumas atividades, pode tornar o trabalhador mais vulnerável a acidentes. É fundamental que as empresas forneçam os treinamentos necessários, mesmo para quem vai ficar pouco tempo na função. A falta de treinamento adequado pode aumentar a probabilidade de acidentes”, alerta.
Os funcionários também devem receber os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e orientações sobre como utilizá-los. “O uso correto dos EPIs e a conscientização sobre sua importância são cruciais para evitar acidentes. Não adianta fornecer os equipamentos se os trabalhadores não souberem utilizá-los corretamente”, enfatiza.
Outro ponto importante destacado pelo médico do trabalho é a responsabilidade das empresas. Conforme Renan Moreno, as empresas têm a mesma responsabilidade legal com o funcionário temporário. “Se um temporário sofrer um acidente, a empresa pode ser responsabilizada da mesma forma que se fosse um trabalhador efetivo. É essencial que os riscos sejam identificados e tratados com a mesma seriedade.” (V.F.)