Cultura

Memórias são inspiração em ‘Aquilo que foge’, na Fama, em Itu

Para conceber o espetáculo, Babi Fontana teve como referência sua avó, Maria do Carmo Bauer
Memórias são inspiração em ‘Aquilo que foge’
Em ‘Aquilo que foge’, o espaço cênico é transformado em uma instalação, com caixas de sons ligadas por um emaranhado de fios. Crédito da foto: Renato Mangolin / Divulgação

Memórias da avó paterna — a atriz e preparadora vocal Maria do Carmo Bauer, falecida em 2010 — inspiraram a criação do espetáculo de dança “Aquilo que foge”, da bailarina e coreógrafa portofelicense Babi Fontana. A performance será apresentada nesta sexta (4), às 19h, e no sábado (5), às 18h, na Fábrica de Arte Marcos Amaro (Fama), em Itu, com entrada gratuita.

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A obra, contemplada em 2018 no edital do Programa de Ação Cultural (ProAC) de apoio a espetáculo inédito e temporada de dança no estado de São Paulo, já passou pela capital e, além de Itu, será apresentado em Porto Feliz nos dias 25 e 26, às 19h, na Estação das Artes, refazendo o roteiro de cidades onde Maia do Carmo morou ao longo da vida.

Babi Fontana conta que a ideia do solo nasceu em 2012, dois anos após o falecimento de sua avó, considerada pioneira no ensino das artes cênicas, com ênfase na interpretação vocal em diversas instituições, como a Eca-USP, onde lecionou por dez anos.

“Aquilo que foge”, afirma a artista, tem o desejo de “investigar o gesto da fala e criar um inventário de vozes”. Para isso, o espaço cênico é transformado em uma instalação, com o chão branco e dezenas de caixas de sons de variados formatos, ligadas por um emaranhado de fios.

Dessas caixas são emitidos sons de depoimentos de diferentes pessoas, que contam sobre vozes que sentem saudades. “A ideia é experimentar o discurso e o não-discurso através de diferentes linguagens, movimentos, sons e gestos. Mais precisamente: a ideia de identidade como construção narrativa”, explica Babi, que transita livremente entre diferentes linguagens das artes.

Além de bailarina, também trabalha com audiovisual e foi idealizadora e diretora do documentário “Outras derivas”, inteiramente rodado em Porto Feliz, lançado no final de 2017 e exibido recentemente no 13º Festival de Cinema Latino Americano.

Pesquisa

Com colaboração artística da coreógrafa carioca Dani Lima e paisagem sonora do DJ Dallanoras, a dramaturgia de “Aquilo que foge” foi construída em colaboração de Victor Costa, e também se apropria de fragmentos da obra “Eu não”, do dramaturgo irlandês Samuel Beckett. Babi comenta que encontrou uma série de estudos sobre o texto do dramaturgo nos pertences de sua avó. ]

“Esses estudos já sugeriam que ela estava se especializando em preparação vocal e curiosamente, uns dois anos antes de morrer, se tornou uma mulher afásica e a gente só se comunicava através de cadernos e gestos”, comenta.

Além das apresentações do espetáculo, Babi Fontana está organizando, ao lado do escritor Victor Costa, um e-book acessível que pretende reunir um relato sobre a vida e o percurso artístico de Maria do Carmo Bauer, uma das pioneiras de preparação vocal para atores e bailarinos do Brasil — e também contar narrativas sobre o processo da criação do espetáculo.

O e-book terá depoimentos de artistas que trabalharam diretamente com ela, como Cacá Carvalho, Antônio Araújo (Tó), Fausto Fuser, Raquel Araújo Fuser, Emílio Fontana Filho, Alexandre Mate, Graça de Andrade e Anamaria Barreto.

“Com essa pesquisa nosso empenho é lançar um olhar atento sobre os artistas, suas falas, seus territórios e suas memórias. Para mim, fazer esse mapeamento através da dança é uma forma de afirmar o corpo como ponto de partida para a criação, valorizando a experiência cotidiana, a memória afetiva e da história do território que vivemos como potência poética e política”, complementa Babi Fontana.

A Fábrica de Artes Marcos Amaro (Fama) fica na rua Padre Bartolomeu Tadeu, 9, na Vila São Francisco, em Itu. (Felipe Shikama)

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