Artigo
Tive, lá pelo meio dos anos 90, uma tara por histórias distópicas. A distopia é o pesadelo na terra e está colada na ficção científica. É a catástrofe causada pela humanidade que acelera para além do razoável. São as máquinas assumindo o controle. São as máquinas pensando "opa, o mundo seria melhor sem os humanos". Vai lá ver "O exterminador do futuro".
Ou aparece o ciborgue bonzinho que mostra as garras lá pelas tantas. Aí você vai ter que ler ou ver "Blade Runner". O cenário lembra São Paulo num dia de chuva. Aquela chuvinha chata, encruada, céu baixo. O pessoal dando umas trombadas nas calçadas. Uns carros voando.
Ou dá a louca no sujeito e ele aperta o botão das ogivas nucleares e bau-bau para 99% da humanidade. Dica para o fim de semana" "Doutor Fantástico", de Stanley Kubrick. De quebra, você ganha a atuação de Peter Sellers, uma das mais impressionantes de todos os tempos.
Ou a humanidade vai degradando o meio ambiente com uma voracidade ímpar, vai fazendo umas guerrinhas e pimba: "Mad Max". Aquele desertão, aqueles caras meio esquisitos arrumando briga com uns maçaricos.
Já deu pra perceber que não falta distopia pra entreter a gente. Pra piorar, não vivemos numa época das mais aprazíveis. Vai ver o problema está no meu entorno, porque só ouço a turma reclamando da vida, achando que os anos 80 eram sensacionais, essas coisas. Dureza ver/ler essas distopias e constatar: "eita, já está rolando". Já tem uma moçada querendo botar um freio na IA.
Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, você sabe o que é uma distopia, mas já ouviu falar de ucronia? Se já ouviu, parabéns. Se não, senta que lá vem história. Vamos começar com o cenário.
Você está na sala de espera do dentista. Você bobeou de manhã e esqueceu de recarregar o celular. Nem tem mais revista na mesinha de centro, uma vez que a turma do consultório julga que os pacientes cuidam adequadamente de seus smartphones.
Você não está muito sociável. Chance zero de engrenar uma conversa com outras pessoas que estão ali aguardando. Você já gastou uns minutos contando azulejos. Você já imaginou enredos para a turma que está por perto. Aí o seu cérebro engata a quinta marcha e você pensa isto aqui: "o que seria do Brasil se o Tancredo Neves não tivesse morrido?"
(Naquela época eu tinha oito anos, mas acompanhava com aflição os boletins médicos do Tancredo Neves. Uma imagem que me atormenta: o Tancredo Neves naquela salinha do hospital, reunido com uns caras, forçando o sorriso, e a enfermeira escondida atrás dele segurando o soro.)
E se Tancredo Neves não tivesse morrido? Não teríamos Sarney. Aí você, que tem mais de quarenta anos, vai me responder se a diferença seria ou não brutal.
Você acabou de ler um tosco exemplo de ucronia. A palavra vem de grego e significa "tempo que não existiu". A ucronia trabalha com o que poderia ter sido. No meu caso, o resultado é uma fonte inesgotável de abobrinhas. E se a bala tivesse passado dois centímetros acima da cabeça do Kennedy? E se o Zico tivesse convertido o pênalti contra a França, na Copa de 86? E se eu tivesse ficado em casa numa noite de domingo de 2008? Eu não começaria o namoro com a Patrícia. Como eu seria sem ela? Alguém na sarjeta, roendo o pão da amargura, sassaricando ridiculamente na balada.
Mas para os caras bons a ucronia rende obras maravilhosas.
Um cracaço dessa vertente foi o Philip K. Dick. Qualquer dia desses escrevo mais sobre ele, mas, por ora (é sem "H" mesmo, viu?), é legal a gente saber que "O homem do castelo alto", ao mostrar como seria o mundo se os nazistas tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial, é uma aula de ucronia.
Outro exemplo que merece ser mencionado: "Complô contra a América", de Philip Roth. EUA, década de 30. Você sabe que Franklin Delano Roosevelt foi o presidente do período. No livro de Roth, num momento crucial, Charles Lindbergh, aviador e herói nacional, concorre com Roosevelt e ganha as eleições. Até aí, beleza. Mais ou menos. Lindbergh não via o nazismo como algo tão ruim assim, para recorrermos ao eufemismo. Vai lá conferir na monumental biografia escrita por Scott Berg.
Dias desses eu li a biografia de Carlos Lacerda, ótima, escrita pelo Mario Magalhães. Que figura o Lacerda! Quando cheguei ao mês de agosto de 54, bateu o siricutico de imaginar umas bobagens. E se o atentado da rua Tonelero tivesse apanhado o alvo principal? Lacerda, no caso. E se Getúlio Vargas não tivesse cometido suicídio?
Depois gastei um tempo anotando os apelidos que o Lacerda ia dando pros inimigos. Vai na minha: diversão garantida.