Biblioteca: modos de usar
A Patrícia deu um Kindle de presente para mim em agosto de 2018. O Kindle é um dispositivo eletrônico capaz de armazenar centenas de livros. Foi uma jogada arriscada da Patrícia. Eu nunca havia me interessado por coisas desse tipo. Sempre estou alguns passos atrás quando o assunto é tecnologia.
Para minha surpresa, adaptei-me bem ao Kindle. Não me considero um traidor da causa dos livros tradicionais ao dizer isso. Posso explicar.
Aqui em casa os livros ocupam parte da sala e um quarto inteiro. As prateleiras estão lotadas. Poderíamos recorrer ao expediente de empilhar os livros em alguns cantos. Aí a Patrícia me mataria, com razão. O Kindle foi fundamental para a manutenção da paz matrimonial.
Houve também, de 2018 para cá, um aumento significativo no preço do livro. As editoras concluíram que os valores praticados até então não contribuíam para o aumento de exemplares vendidos. Por exemplo, um livro de 35 reais poderia ser reajustado para 55 reais sem alteração dramática nas vendas.
Essa mudança na conjuntura editorial afetou bastante quem comprava livros regularmente, como é o meu caso. Passei a ir menos às livrarias. Fui engordando meu Kindle com títulos comprados na Amazon.
Existem relatos de como a Amazon alterou negativamente o ecossistema editorial brasileiro com políticas mais agressivas de preço, mas não tenho para onde correr. Os títulos que fui baixando no Kindle ao longo dos últimos anos são a única maneira que encontrei para continuar em contato com lançamentos que me interessam.
Não sou muito de ir a restaurantes. Assim, se houver um aumento robusto no preço dos serviços, não sentirei tanto assim. Se eu fosse um frequentador assíduo, provavelmente buscaria alternativas para lidar com o desafio. Se alguém disser que estou reclamando de uma singela entidade chamada "inflação", respondo que estudei um tantinho de economia no final dos anos 90 e outro tantinho de matemática na educação básica para saber que o que aconteceu com os livros não foi inflação.
Assim, o Kindle também foi de grande valia na cruzada para a manutenção da saúde do orçamento doméstico.
Recentemente, descobri que dá para ver no Kindle a quantidade de livros baixados. No meu aparelho aparece o seguinte número: 904 livros. Foi uma surpresa. Nessas horas a gente fica apalermado com o mundo contemporâneo. Carrego mais de novecentos livros num aparelho fininho! Evidente que não é bem isso, os livros estão na nuvem, mas de vez em quando a gente deve se permitir certos prazeres ingênuos. Quero continuar acreditando nos novecentos livros guardadinhos, em prateleirinhas, num quartinho do meu Kindle.
Junto com o deslumbramento dos tais novecentos livros veio a melancolia. Novecentos títulos formam uma boa biblioteca. No mundo analógico, fariam bonito numa prateleira grande na sala. Estariam perto de uma poltrona e de um abajur. A maneira como estariam organizados dependeria muito do gosto das pessoas da casa. Há quem separe os livros por assunto, há quem prefira a ordem alfabética de autor ou de título, há quem recorra a divisões por cor de lombada. A única certeza: a disposição dos livros teria a marca do temperamento das pessoas que usam a biblioteca.
Com o Kindle não temos isso. Meus novecentos livros eletrônicos não dão trabalho, não juntam poeira, não são viveiros de ácaros. Eles são a utopia da ordem, mas não têm cara. Parece bobagem, mas não é.
Faz quase trinta anos que frequento sebos. Minha biblioteca física deve muito a esses estabelecimentos. Vários dos livros aqui de casa têm trechos grifados ou dedicatórias. Há quem evite comprar livros nessas condições. Eu não vejo problemas. Até me entretenho imaginando o momento em que a dedicatória foi escrita ou a empolgação na hora de grifar determinado trecho.
Nessa minha vivência no mundo dos sebos também há episódios amargos. Um dia, muito tempo atrás, percebi que um dos sebos aos quais eu ia estava diferente, com muitas novidades na parte de literatura brasileira. Fui conversar com o proprietário para entender o porquê daquilo. Antes tivesse evitado a curiosidade.
Ele disse ter comprado a biblioteca de um professor que havia falecido. A família queria se livrar dos livros. O coração da gente fica pequeno nessas horas. Pensei na história daquela biblioteca, na empolgação do professor ao comprar o livro tão desejado, a euforia ao se deparar com uma frase cintilante. A biblioteca do professor estava órfã.
Minha mãe faleceu em julho do ano passado. Meu pai, em fevereiro deste ano. Estamos na horrível fase de desmontar o apartamento deles porque decidimos colocá-lo à venda. Meus pais, como eu já disse algumas vezes aqui, tinham uma senhora biblioteca. Só tem livro bom ali. Nessas horas o orgulho se junta à tristeza.
Olhando para aqueles livros na prateleira que vai do chão ao teto, constato que o arranjo é perfeito. Perfeito porque tem a cara deles. Perfeito porque foi desfrutado por muitos anos. Perfeito porque está no coração da casa. Perfeito porque traz meus pais de volta um pouquinho. Mexer naquilo equivale a despertar de um sonho bom. A biblioteca deles ficou órfã.
Mas as coisas precisam avançar. Deixar ambientes congelados no tempo parece cena mórbida de Dickens. Nem em sonho venderemos a biblioteca deles a um sebo. Ficaremos com os livros, "haja o que hajar", como diria o poeta. Deus me livre passar pela situação de lidar com alguém oferecendo uma merreca por aqueles livros. Eu entraria em forte entrevero com o sujeito que pegasse um dos livros da Nova Aguilar, com os grifos do meu pai, e dissesse "olha, esse livro vale pouco, dou dez reais por ele". Sai, chulé!
Tem coisas que o Kindle não faz por você.
NelsonFonseca Neto