Vida impressa
Um bom marcador para avaliar a saúde do mercado editorial: quantidade – e qualidade - de biografias publicadas. Por esse critério, levando em conta 2026, estamos tinindo. Exemplos: a ótima biografia de Guimarães Rosa, escrita por Leonencio Nossa; a aguardada biografia de Carlos Lacerda, escrita por Mario Magalhães; a biografia de Leonel Brizola, escrita por Karla Monteiro.
Os últimos anos foram de lançamentos de peso: a trilogia de Lira Neto sobre Getúlio Vargas, o catatau de Karla Monteiro sobre Samuel Wainer, o belíssimo livro de Benjamin Moser sobre Clarice Lispector. A lista é longa. Ainda bem.
Por que a biografia é bom marcador para se avaliar o mercado editorial? A resposta, na lata: dá um trabalho danado escrever biografias de fôlego. Anos de pesquisa, checagem, viagens do biógrafo, entrevistas. E o trabalho com a qualidade do texto. E a editora se dispondo a bancar tudo isso. As peças precisam estar bem azeitadas. É um processo caríssimo.
O biógrafo é figura admirável. Faz trabalho exaustivo de bastidores. Reúne material gigantesco.
Transforma a montanha de informações em narrativa envolvente. Nos melhores casos, a biografia é o casamento do documentário com a arte narrativa. É o repórter dando a mão ao romancista.
(Algumas das melhores aberturas de todos os tempos estão em biografias: “Hitler”, de Ian Kershaw; “Van Gogh”, de Stephen Naifeh e Gregory White Smith; “Last train to Memphis”, de Peter Guralnick. O júbilo se equipara ao que sentimos quando lemos Tolstói. Na literatura, em termos de abertura, Tolstói é o campeão dos campeões.)
O cenário de hoje deve muito a Fernando Morais e Ruy Castro. O que eles fizeram com as vidas de Assis Chateubriand e Garrincha sempre servirá de referência aos que se aventurarem no ofício de escrever biografias. Basta visitar a abertura de “Chatô: o rei do Brasil” (Fernando Morais).
A boa biografia traz um elenco fascinante de coadjuvantes. Impossível ler “Chatô” e não se encantar com figuras da estirpe de um David Nasser. A vantagem de ser apanhado pelo vício da biografia é que nunca vai faltar leitura para nos ocupar. Por exemplo, a figura secundária de uma pode ser a estrela de outra. A dobradinha Chateaubriand-Nasser é um bom exemplo.
Chateaubriand, nos anos 40, 50 e 60, ergueu um império jornalístico: os Diários Associados. Conglomerado de jornais, revistas, rádios e emissoras de televisão. Influência gigantesca nos rumos da nação. Histórias de arrepiar mostrando a cozinha do poder. No meio desse rolo, David Nasser, repórter da revista “O Cruzeiro”, um dos xodós de Chateaubriand.
David Nasser: repórter. O que se espera de um repórter? Compromisso com a verdade, observação atenta, desconfiança sadia, zero de rabo preso, economia no uso de adjetivos e advérbios. Opinião o leitor encontra no editorial, por exemplo.
David Nasser foi a grande estrela do jornalismo brasileiro nos anos 50. Estrela mesmo, com altas doses de vedetismo. Ganhava bem, era paparicado por poderosos. Chateaubriand, que não era dado a gentilezas, não deixava ninguém mexer com Nasser. Quem não conhece Nasser deve pensar: colheu merecidamente os louros, pois devia escrever reportagens exemplares.
Aqui a coisa fica bastante problemática. Relembrando sobre o bom repórter: compromisso com a verdade, observação atenta, desconfiança sadia, zero de rabo preso, economia no uso de adjetivos e advérbios. Jogue fora tudo isso quando for falar de David Nasser, que era cascateiro (suas reportagens tinham um percentual altíssimo de invenção), hiperbólico (em alguns momentos o leitor se prepara para a página entrar em combustão), mutreteiro (bajulava e chantageava os caras que mexiam nas alavancas do país e enriqueceu com isso, e muito).
Décadas depois, levamos tudo isso em conta, olhamos com misericórdia para a época que produziu um David Nasser e seguimos nossas vidas de paladinos do bom jornalismo. Mas se formos a um sebo e nos depararmos com “O velho Capitão”, um tijolo de mais de 700 páginas que reúne algumas das reportagens de David Nasser, seremos arrebatados por sua prosa incandescente. E aí nos resta dizer: o cara escrevia bem pra caramba. O sábio já dizia: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
David Nasser foi coadjuvante em “Chatô: o rei do Brasil”, de Fernando Morais, e protagonista em “Cobras criadas”, preciosidade que pede urgentemente uma nova edição, escrita por Luiz Maklouf Carvalho. É um livrão que prioriza a relação de Nasser com a revista “O Cruzeiro”. O leitor conhece os bastidores das maravilhosas reportagens de Nasser em parceria com o fotógrafo francês Jean Manson e vai conhecendo figuraças do jornalismo e da política no Brasil.
O leitor fecha o livro de Maklouf e pergunta: será que tem biografia de Jean Manson?