Virando gente
Na semana passada eu estava conversando sobre Clarice Lispector com meus alunos do terceiro ano do ensino médio. Mais que uma aula, aquilo foi tietagem. Eu me empolguei e acabei falando de um monte de coisas. Vou escrever aqui o que rolou naquele dia, mais ou menos. (Não tenham medo; não será a transcrição da aula.)
Todo mundo diz por aí que Guimarães Rosa é difícil pra caramba. E é mesmo. Está mentindo quem diz que engrenou rápido na leitura de “Grande Sertão: Veredas”. Aos dezenove anos fui todo empolgado encarar aquilo. Travei nos primeiros parágrafos, insisti por umas dez páginas. Meu erro: achar que deveria entender tudo logo de cara. Alguém falou pra desencanar e deixar a coisa fluir. É clichê demais, mas deu certo pra mim. Fui tranquilão e consegui mergulhar naquela maravilha. Virei leitor maníaco do Guimarães Rosa.
Qualquer pessoa minimamente atenta vai notar que o trabalho estilístico do Guimarães Rosa exige mesmo. É uma mistureba de português arcaico, com oralidade sertaneja, com estruturas emprestadas de outros idiomas, com prosa poética. Faz parte do jogo achar aquilo estranho.
Com Clarice Lispector a parada é outra. Pegue a primeira página do conto “Feliz Aniversário”, por exemplo. Não tem uma palavra difícil ali. Você não vai precisar recorrer ao dicionário. Eu diria que isso acontece o tempo todo com a obra de Clarice Lispector: estamos sob o domínio do prosaico. Isso não é uma crítica. Não é mesmo.
Agora eu tenho de confessar um negócio pra vocês: venho lutando com a obra da Clarice Lispector faz um tempão. Algumas décadas, eu diria. Não foi a mesma coisa do que aconteceu com Guimarães Rosa. Com ele, bastou desfazer um equívoco, respirar fundo e meter o pé. Com a Clarice, não. Eu lia aquelas páginas e entendia o que ela estava dizendo. Compreendi quem fez o quê. Mas, sei lá, ficava faltando algo. Não tenho vergonha de reconhecer: ao longo de vários anos, não achava Clarice Lispector aquilo tudo.
Eu ouvia leitores e leitoras falando empolgados da obra dela. Eu li caras que admiro, como Otto Resende, elogiando seus contos e romances. E eu, na miúda, pensando: que exagero! E também pensando: um dia a ficha cai.
E caiu uns anos atrás, do nada, como as coisas decisivas costumam acontecer. Eu estava em casa, de bobeira, olhando pras prateleiras da biblioteca. Eu tinha acabado de ler um livro uma antologia de contos de Isaac Bashevis Singer e estava em busca de algo que fosse bem diferente daquilo. (Não que Singer não tenha me agradado. É o contrário: ele é um dos meus autores favoritos.) Topei com os contos completos da Clarice Lispector. Abri a esmo, mais pro final. Comecei a ler o conto de uma moça estrábica que ria com os olhos. Soltei uma gargalhada. Pronto. Já era. A partir dali eu aprendi a gostar da Clarice Lispector com o coração, e não mais apenas com a fria razão.
De lá pra cá, meu espanto com ela só cresceu. Isso só acontece com os grandes escritores. Só que, sei lá, a Clarice Lispector odiaria ouvir que ela é uma grande escritora. Ela escrevia porque tinha que escrever. Zero de firula. Essas coisas comovem a gente. Até porque, pessoal, pensem numa pessoa que sofreu na vida.
Eu queria muito que vocês passassem pela experiência de ler um conto da Clarice Lispector e ouvir aquele estalo que envolve coração e cérebro. É o estalo que nos diz: opa, estou diante de algo profundo, humano, comovente. Eu queria muito que vocês passassem a encarar a vida de outro modo depois de ler um conto da Clarice Lispector. O nome disso é epifania.
Olha só: não vamos fingir que a nossa vida é sempre super legal. Não é, e cada um sabe onde o sapato aperta. Eu poderia dizer aqui que a Clarice Lispector mostrará a vocês que a vida é leve; eu poderia dizer aqui que a Clarice Lispector vai mostrar a vocês como driblar os perrengues do cotidiano; eu poderia dizer aqui que a Clarice Lispector trará a vocês a voz da doçura; eu poderia dizer essas coisas todas a vocês, mas seria uma baita mentira.
Clarice Lispector não mostrará a leveza da vida. Ela não sabe como driblar os perrengues da vida, até porque ela foi a campeã dos perrengues. A voz dela não é doce. (Tire a prova assistindo à última entrevista que ela deu pra TV Cultura, no final dos anos 70. É fácil de achar no YouTube.) E ainda assim ela vai salvar suas vidas.
Vai salvar suas vidas porque ela mostra que as pessoas pra quem a gente não dá a menor pelota são interiormente ricas, engraçadas, patéticas, contraditórias, ridículas, sublimes. Pois é, querido, não é só você que é assim, todo complexo, todo rico, todo cheio de ideias. Tem um mundo instigante assim que você vira a esquina, e a Clarice Lispector mostra isso melhor que ninguém.
Depois dessas coisas, fica mais difícil a gente bancar o mala por aí, maltratando aquela pessoa que você acha que só esta ali para compor cenário. A gente sofre, saber das coisas é sofrido mesmo, mas a gente aprende a virar gente.