Meu pai
Eu devia ter nove anos de idade quando entrei numa manhã no quarto dos meus pais. Naquela época eu estudava no período da tarde. Certamente não era uma manhã de sábado ou domingo porque meu pai estava se arrumando para trabalhar.
Lembro que deitei na cama deles e senti uma felicidade imensa. Depois veio um pensamento angustiante: um dia eles irão morrer. Lembro muito bem da cena, da luminosidade do quarto, da televisão ligada, da minha vontade de chorar, do esforço que fiz para disfarçar.
De lá para cá, a possibilidade de perder meus pais foi disparadamente meu maior terror. Sempre pensei que não suportaria a morte deles. Aí a vida nos pregou uma terrível peça.
Meus pais descobriram que estavam doentes quase ao mesmo tempo, em novembro de 2024. Minha mãe morreu em julho do ano passado. Meu pai, em fevereiro deste ano. O paralelismo do que aconteceu com eles impressiona. A doença na mesma época, morreram no mesmo hospital, no mesmo andar, uma porta de frente para outra. Foram velados na mesma sala. Há quem ache comoventes essas coisas. Eu, não. Elas ainda doem muito.
Com o texto de hoje eu retomo a colaboração com o jornal. Foram quase 15 anos até o finzinho de julho do ano passado. O penúltimo texto publicado era uma homenagem a minha mãe. Quando meu pai morreu, eu tinha parado de escrever. Senti falta de escrever um texto sobre ele. Quando me chamaram para retomar a coluna, fiquei contente porque eu sabia que precisava falar sobre o meu pai, Luiz Roberto da Cunha Fonseca.
Enquanto estou escrevendo isto aqui, o João Pedro, meu filho, está vendo uns vídeos dos Beatles no YouTube. É uma linda coincidência escrever sobre o meu pai com os Beatles tocando ao fundo. Meu pai sabia todas as músicas dos Beatles de cor. Não estou forçando a barra. Todas, de fio a pavio. Eu acho que alguém assim tinha o coração do lado certo do peito.
Sou um homem de minguados talentos. Acho que só sei fazer uma coisa razoavelmente bem nesta vida: ler. Não falo isso para me gabar. Corrigindo: não que eu leia razoavelmente bem; eu apenas gosto de ler. Isso vem do meu pai. Morávamos num apartamento de três quartos e um deles era a biblioteca. Muitas das melhores horas da minha infância foram passadas ali.
Ver meu pai lendo foi crucial para eu me tornar um leitor fominha. Quando eu virei adulto, meu pai e eu passamos a trocar livros. Tem livro meu no apartamento deles e livros dele aqui. Nós dois amávamos a coleção da Nova Aguilar, que reunia a obra completa de escritores brasileiros e estrangeiros.
Meu pai lia os livros e fazia anotações, além de colocar datas ao longo da leitura. Agora mesmo, quando abro um dos livros do Guimarães Rosa, vejo um monte de grifos, de exclamações, de asteriscos. Os grifos eram para as palavras que precisavam da ajuda do dicionário. As exclamações e asteriscos eram as marcas da empolgação.
Ele leu empolgado Guimarães Rosa. A leitura de José Lins do Rego foi mais fria. Outra paixão dele: Eça de Queiroz.
Em 1997 eu estudava em São Paulo, e a literatura me ajudou a passar o tempo longe da família. Um dia meu pai veio com a informação de que a Nova Aguilar publicaria a obra completa do Eça de Queiroz. Eu fiquei alucinado e passei a ir diariamente à livraria perto da faculdade para saber se os livros tinham chegado. Foram algumas semanas de aporrinhação. Aqueles vendedores eram uns santos.
No final de outubro, os benditos livros apareceram. Foram meu presente de aniversário. O melhor que já ganhei na vida. (A gente fica comovido pra caramba escrevendo essas coisas. Recordar tem dessas coisas. “Recordar” = “passar de novo pelo coração”.)
Uma outra lembrança envolvendo leitura: meu pai lendo a biografia do James Joyce, escrita pelo Richard Ellman. Muita gente diz que é a melhor biografia já escrita. O livro tem quase mil páginas. Lá pelas tantas, Ellman fala de como Joyce amava a obra do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. Lembro do meu pai empolgado com aquelas páginas e lendo-as para mim. Como não gostar de ler com um cara desses por perto?
Há quem diga que “Graça Infinita”, de David Foster Wallace, de mais de mil páginas e incontáveis notas de rodapé, é o supremo desafio para o leitor. Naquela época eu ainda morava com meus pais e ouvia as gargalhadas que o meu pai dava lendo aquilo. Depois eu ri das mesmas coisas. Eu já perdi as contas das vezes que testemunhei meu pai rindo ao ler um livro.
Não exagero quando digo que conseguiria encher centenas de páginas com os casos envolvendo meu pai e os livros. Se ler é uma das coisas fundamentais da minha vida, vocês entendem o que o meu pai representa para mim.
Eu encheria centenas de páginas com os casos envolvendo meu pai e os livros, e encheria milhares com os casos, protagonizados por ele, de generosidade, de amor incondicional, de sensibilidade, de altruísmo, de humor fino, de excentricidades, de retidão, de companheirismo, de conversas impagáveis.
E me conforta pensar que agora ele está ao lado da minha mãe, vendo a gente dando trombadas, acertando e errando nesse treco maluco chamado vida.