Rondando

Por Cruzeiro do Sul

Você é daqueles que fazem promessas na virada do ano? Eu, não. Não agora. Já fiz em outras épocas. Nunca deu certo. Culpa minha. Não eram promessas grandiosas. Eu até que ia bem nos primeiros dias de janeiro. Mais para o final do mês, eu já havia esquecido das palavras solenes do dia 31 de dezembro.

Dias atrás, na última semana de dezembro, eu até tive um desejo: escrever de forma mais refletida. Não seria pedir muito. Bastaria fazer o seguinte: pensar no tema da semana, escrever a primeira versão, usar os dias seguintes para burilar o texto. Ou seja: evitar o atropelo e as frases duras. Mas foi apenas um pensamento sem grandes consequências. Nada de palavras grandiosas. Importante aprender com as cabeçadas.

Sem solenidade, parecia que as coisas estavam a meu favor. Eu já sabia sobre o que escrever logo no primeiro dia deste ano: sobrelojas. Como estou de recesso na escola, eu teria algumas horas para pentear as frases, jogar com sinônimos, essas firulas. Pra variar, eu estava equivocado.

Hoje de manhã fui com o João Pedro ao parque. A Patrícia estava lutando com um texto do mestrado dela. Saí de casa com a convicção de que ninguém me faria abrir mão da coluna que trataria das sobrelojas. Bastou chegar ao parque para a minha convicção ser aniquilada.

Foi engraçado. Deu pra notar, entre aquelas pessoas que caminhavam ou trotavam, as que estavam acostumadas a uma vida de atividades físicas e as que estavam dando os primeiros passos para concretizar as resoluções da virada de ano. Eu poderia mencionar alguns sinais que me permitiram diferenciar um grupo do outro, mas fiquemos com o mais importante: a turma do segundo grupo tinha o rosto mesclando determinação com sofrimento atroz.

Voltei pra casa, perto da hora do almoço, com a ideia de usar as observações do parque na crônica da semana. As sobrelojas ficariam pra uma outra oportunidade. Seria uma crônica engraçadinha, e nela eu mostraria que sou venenoso. O leitor pode ficar sossegado: não continuarei tratando do parque.

É que, mas pro final da tarde, fui bater perna pelo centro da cidade e cercanias. A academia estava fechada, e eu não consigo mais ficar parado. (Olha só: vai ver é promessa antiga de virada de ano se concretizando.)

Então eu estava andando. Topei com uma frase na fachada de um lugar que vende comida. Mais detalhes não dou. Não quero destroçar reputações. A frase era daquelas insuportavelmente motivacionais. Várias lojas estão com essa mania meio besta de vender palavras edificantes junto com os produtos. É a famosa lição de moral. Triste reconhecer: não só as lojas estão com essa mania.

Há quem diga que a atividade física melhora o humor do sujeito. Na maior parte do tempo, é verdade. Mas não na caminhada na qual me deparei com a frase da loja. Aquilo azedou o meu ânimo. Aí foi um pulinho para eu me lembrar das propagandas mais recentes de alguns bancos. Um estrangeiro jamais diria que aqueles filminhos estão ali para divulgar um banco.

Voltei pra casa pensando numa coluna incendiária contra essa besteira de transformar tudo em historinha. Sorte que a vida me distraiu, e outras coisas foram aparecendo para adiar a escrita da coluna perfeita. Saiu um texto bagunçado? Sim, como sempre. O bom propósito é uma ilusão.