Últimas curvas
A rua da Penha é camaleônica, uma espécie de David Bowie do mundo do asfalto. Ela tem várias personalidades
Vejam que coisa mais maluca. Estou sentado diante do Word para escrever esta coluna. É manhã de quinta-feira. Quase sete horas. Reta final do mês de dezembro. Liguei o computador já sabendo bonitinho o que escrever. Nem sempre é assim. Já teve vez em que as coisas foram aparecendo de improviso. Muito bem.
Sou previsível, e por conta disso os leitores que me acompanham sabem que escreverei sobre os sempre turbulentos dias finais do mês de dezembro. Sim, turbulentos: confraternizações da firma, revelações de amigo secreto, correria das compras dos presentes, ceias, almoços, viagens. Esses dias turbulentos, a depender da pessoa, são empolgantes ou problemáticos. Difícil ficar indiferente.
Falo por mim: já frequentei os dois extremos. Deve acontecer com muitos de vocês: os dias de dezembro são empolgantes na infância e problemáticos na vida adulta. Claro que estou simplificando. Explico melhor.
Começando com a empolgação da infância: é óbvio que, num mundo ideal, a criançada aproveita ferozmente os dias de dezembro. Ganha presentes, é paparicada, come pra caramba, mal se envolve com os bastidores, não lida com a arrumação, essas coisas. Como se a farra fosse obra de duendes benevolentes.
Para além disso, tive a sorte de passar os anos da infância no centrão de Sorocaba. Eu ficava pensando no glorioso dia em que as lojas abririam até às 22h da noite. Vai ver que é a memória pregando uma peça: as ruas e calçadas ficavam entupidas de carros e de pessoas. Eram noites com cara de manhãs de sábado. Sempre gostei dessa bagunça. É por isso que moro perto do centrão até hoje.
Naqueles dias e naquelas noites empolgantes, parecia que a chuva chegava com hora marcada. E como chovia! Era sempre no fim da tarde. Tudo levava a crer que o passeio da noite teria de ser cancelado. Caía aquela chuvona apocalíptica, eu olhava angustiado pela janela e pensava em alternativas, afinal, impossível bater perna naquelas condições. Ainda bem que o temporal ia embora logo.
Semana passada, perto das 20h da noite, resolvi andar pelo centrão. As lojas já estavam abertas até mais tarde. Comecei pelo número 1.300 da rua da Penha e fui descendo. As ruas também são dotadas de temperamento. Acredito nisso com todas as minhas forças. Como dizer que uma rua compridona e uma rua curtinha se comportam da mesma forma? Vocês sabem que a rua da
Penha é das mais esticadas, e isso tem consequências. A rua da Penha é camaleônica, uma espécie de David Bowie do mundo do asfalto. Ela tem várias personalidades.
Na noite da semana passada, os quarteirões dos números mais altos da Penha estavam vazios. Poucas pessoas dividindo a calçada comigo. Bateu uma tristeza. Cogitei voltar pra casa. Mas insisti. Desci mais um pouco. Perto da ACM, as calçadas estavam mais cheias e o trânsito andava mais arrastado. Depois da Padre Luiz, eu estava nas noites de dezembro da infância. Barulho, pessoas se acotovelando nas calçadas, cheiros de doces e de salgados. Respirei aliviado. Ainda temos salvação. Voltei de alma leve pra casa.
O texto está chegando ao seu final. Preciso revelar um bastidor: levei 38 minutos entre a frase inicial até aqui. Acabei me empolgando. O plano era escrever algo que mostrasse, com equilíbrio, a fase empolgada e a fase problemática da minha história com o mês de dezembro. Eu até ia usar a loteria esportiva como gancho. Só que a Rua da Penha entrou na jogada e bagunçou tudo. Entrou na jogada e usou a arma da nostalgia. Aí é covardia. Tentarei, na próxima oportunidade, retomar o fio da meada.