Cultura

Idosa realiza sonho de publicar um livro

Semianalfabeta, Bene, de 81 anos, superou dificuldades e hoje comemora a obra “Espelho da vida”, com 78 textos
Idosa realiza sonho de publicar um livro
Benigna Santana conta que sempre encontrou no cotidiano a inspiração necessária para escrever cada página de seu livro. Crédito da foto: Emidio Marques / Arquivo JCS (3/11/2019)

“Espelho de vida”. Esse foi o nome escolhido por Benigna Santana Silva, conhecida como Bene, de 81 anos, para seu livro, publicado este ano por seus filhos como um presente para a idosa, que é semianalfabeta, mas sonhava em se tornar uma autora. Nascida em Sergipe e moradora de Sorocaba desde os 10 anos de idade, Bene estudou somente até a quarta série, mas as dificuldades com a escola nunca a impediram de se expressar da forma que mais gosta: através da escrita.

Sempre com seu caderno ao lado, a idosa conta que encontrava no cotidiano a inspiração necessária para mais uma página de seu livro, que há anos foi planejado. “Eu sempre quis fazer um livro. Às vezes ficava até três meses sem escrever nenhuma página, mas quando batia a inspiração eu escrevia no meu caderno. Era assim, eu pegava o ônibus e via uma coisa e escrevia. De repente, eu estava na cozinha e vinha uma ideia, eu largava tudo e pegava meu caderno… Era aquela hora, senão depois eu não me lembrava”, afirma Bene.

Mas nem sempre Benigna teve tempo para se dedicar à sua escrita. Durante os anos em que passou criando seus onze filhos, a idosa afirma que deixou de lado o passatempo. Foi só quando as crianças cresceram que a idosa voltou a escrever — e dessa vez usando das experiências que viveu para dar conselhos a outras pessoas. “Eu me casei com 14 anos, com 17 tive meu primeiro neném. Nesse tempo eu parei de escrever, porque não tinha como e com o marido do lado eu tinha que me dedicar”, conta Benigna, que não deixou que as dificuldades com a falta de estudo a impedissem de continuar. “Eu trabalhava na roça e não terminei a quinta série, mas de tanto ler, os erros de português que eu tinha, consertei ‘tudo’. E aí eu escrevia e pedia para alguém ficar corrigindo, porque eu sentia que estava errado”, diz.

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“Espelho de Vida” nasceu como a reunião de 78 textos que levam títulos como “Destino”, “O dinheiro”, “Bom dia”, “Ser feliz”, “Saudades”, “O ditador”, entre outros. Todos eles tem forma de conselhos positivos, sobre como encarar as situações do dia a dia. “Uma vez eu estava no ônibus e vi uma moça muito bonita, bem arrumada e com a irmã, que não enxergava. Eu percebi que a bonita e bem arrumada estava de mau humor, mas que a que não enxergava estava cantando, toda feliz. Aí eu cheguei em casa e escrevi a página: só é feliz quem quer”, relembra.

Para Benigna, o objetivo do livro sempre foi claro: compartilhar com outras pessoas a simplicidade de se viver. “Minha intenção é ajudar. Eu nunca pensei em nada, somente tinha isso na cabeça. Acho que se você não puder passar uma coisa boa você não passa nada para os outros, se for para passar, tem que ser uma coisa boa. Não era minha intenção sair assim, na mídia, mas a minha intenção em fazer esse livro era fazer bem para quem ler”, conta Bene, ainda tímida com a repercussão de sua história.

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O lançamento

Idosa realiza sonho de publicar um livro
“Espelho de vida” é a obra de Bene. Crédito da foto: Emidio Marques / Arquivo JCS (3/11/2019)

É justamente a lembrança da mãe escrevendo nesse caderno que Ana Lucia Souza Pimentel afirma possuir da infância. Ela também conta que ouviu sobre o sonho de Bene por muitos anos e que o processo para realizá-lo envolveu toda a família e a idosa à frente de tudo, escolhendo desde os textos que seriam publicados até a capa do livro.

“Me lembro da minha mãe escrevendo em um caderno desde a minha infância, mas nós éramos pequenos e ela não nos deixava ver. Ela começou a nos mostrar quando todos nós havíamos crescido, mas não era tudo. Nós começávamos a ler mais e ela dizia ‘não, me dá aqui meu caderno’. Era um ciúme com aquele caderno… como se fosse o diário dela”, conta. “Minha tia, irmã dela, diz que desde quando ela era nova [se referindo a Benigna] já queria fazer um livro. Acho que era uma ideia que ela tinha fixa”, afirma Ana Lucia.

Ana conta que quando o livro ficou pronto, Benigna chorou de emoção e que a primeira edição foi feita em uma gráfica, com exemplares para poucas pessoas e que como surpresa a família toda foi convidada para o lançamento. “Nós mandamos fazer um banner com uma foto dela e todos nós assinamos. No dia 15 de novembro foi o lançamento e foram convidadas umas 50 pessoas. Ela autografou todos os livros. Foi simples, mas foi emocionante. Muita gente chorou”, reafirma a filha.

Segundo livro

Ainda curtindo a realização do sonho, Bene diz que ainda não sabe se continuará escrevendo. Questionada sobre uma continuação para “Espelho de Vida”, ela afirma que está aproveitando o presente, sem pensar no depois. “Eu estou curtindo primeiro. Por esse livro me sinto realizada porque se Deus me deu esse dom eu tinha que colocar em prática. Eu parei de escrever e não sei se vou continuar. Porque o primeiro é fácil, mas agora não quero voltar a repetir nada, e aí que está difícil. Eu posso até tentar, mas estou com 81 anos… é muito ano, né?”, pergunta sorrindo.
“Minha intenção não era mostrar pra ninguém, era só ter o livro. Eu pensava ‘já que eu vim aqui para a Terra, vou deixar a minha marca’, aí fiz para dar de presente. Algumas pessoas falam que eu sou boba, mas eu não sou, não! Eu quero é ser feliz e passar coisas boas”, garante. (Nicole Bonentti – programa de estágio / Supervisão: Regina Helena Santos)

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