Fred Caiçara chega com seu ‘Goove rural’

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“Tem forró, baião e elementos afros. É um disco que mergulha nesse ambiente dançante”, diz Fred Caiçara. Crédito da foto: Hebert C. Silva / Divulgação

“Tem forró, baião e elementos afros. É um disco que mergulha nesse ambiente dançante”, diz Fred Caiçara. Crédito da foto: Hebert C. Silva / Divulgação

Uma trilha do litoral para o interior é desbravada no EP (extended play) “Groove rural”, do cantor e compositor pernambucano Fred Caiçara, que terá show de lançamento hoje, às 20h, na área de convivência do Sesc Sorocaba, com entrada gratuita.

O artista, que adotou como nome artístico o termo que faz alusão a quem é nativo do litoral, cresceu nas areias das praias de Recife. Filho de pai e mãe do agreste pernambucano, área de transição entre a Zona da Mata e o Sertão, ele admite ser uma espécie de rio Capibarbe, que flui do interior e vai crescendo até desaguar no oceano.

Em Sorocaba, Caiçara apresentará ao vivo, em primeira mão, músicas do EP “Groove rural”, recentemente lançado nas principais plataformas de música digital. O novo trabalho é considerado pelo próprio artista o “mais dançante ” e “mais político” da carreira. Características, segundo ele, inevitáveis e indivisíveis em seus trabalhos. “Nesse momento duro, a coisa da diversão, da dança, é um jeito de trazer um pouquinho de esperança e de alegria”, afirma.

Caiçara estará acompanhado por uma banda formada pelos mesmos músicos que participaram das gravações: Feiticeiro Julião (violas e guitarras), Abhul Júnior (percussão), Filipe Gomes (bateria) Gabriel Catanzaro (baixo) e Ricardo Sá Reston (teclados). No show, Caiçara contará, ainda, com participação especial do multi-insturmentista Júnior Caboclo, da Banda de Pífano de Caruaru.

“Groove rural” fecha a trilogia “Efeito in casa”, como é chamada a série autoral produzida e gravada em seu estúdio caseiro, “uma espécie de laboratório onde experimento as coisas”, descreve o artista. Somente quando os limites técnicos ficam pequenos para tanta criatividade ele se transfere para um estúdio com todos os recursos disponíveis.

O primeiro EP da trilogia, lançado em julho de 2015, foi “Afrika” que, como o próprio nome sugere, destaca a grande influência da música africana, especialmente da percussão, na construção da música pernambucana. O segundo foi “Folguedo urbano”, lançado em 2017, em que Caiçara expõe a “liga” de elementos estéticos urbanos com suas raízes pernambucanas. Agora, em “Groove rural”, com produção musical de Janja Gomes, além de radicalizar a diversidade da música pernambucana -- da percussão de matriz africana ao Mangue Beat --, Caiçara rende homenagem a um Brasil profundo, de violas e roças, e sua intersecção entre o campo e a cidade. “Ele [Grove Rural] tem essa coisa do interior, da forte presença das violas. Não é propriamente de rock rural [como o gênero consagrado por Tavito e a dupla Sá e Guarabira], por isso veio a ideia de groove. Tem forró, baião e elementos afros. É um disco que mergulha nesse ambiente dançante”, comenta.

Se na música “Verdejou”, que fecha o EP, o artista traz à tona temas áridos como a seca, a caatinga, a reza, a chuva, liberdade e a renovação, a transição do segundo para o terceiro trabalho é prenunciada em “Entediado na Dr. Arnaldo”, um xote que como cenário o tom acinzentado da cidade de São Paulo. O xote sucede “Lenda”, faixa de abertura que tem atmosfera de psicodelia com efeitos sonoros e personagens regionais que fazem alusão à famosa lenda do boi voador da ponte Maurício de Nassau, em Recife.

Radicado em São Paulo desde 2016, Caiçara convive com questões ligadas ao saudosismo de sua terra natal e sua afirmação identitária. O artista pernambucano comenta que, em comum, nos três trabalhos da trilogia, está o obcecado desejo de jamais se repetir. “Eu gosto muito de trabalhar com desafio de fazer uma coisa totalmente diferente da outra, de ser camaleão, de migrar para outros caminhos”, comenta o artista, com a cabeça já aberta para novas criações. (Felipe Shikama)