Cultura

Documentaristas registram o cotidiano do Hospital Emílio Ribas

Projeto, chamado ‘A curva’, mostrará fatores reais do hospital paulista
Documentaristas registram o cotidiano do Emílio Ribas
Gustavo Villanova e Cauê Ito já contabilizam 60 diárias de registros da atuação dos profissionais e pacientes na luta contra a doença. Crédito da foto: AFP / Miguel Schincariol

Sala de espera do Hospital Emílio Ribas, área nobre de São Paulo, primeiras semanas da pandemia no Brasil. Dois cinegrafistas abordam uma mulher, recém-saída da UTI, recuperada da Covid-19. Agora, quem está lá é seu marido, entubado. Ela ora por ele, ambos são pastores. Dias depois, a mesma dupla de cinegrafistas, com a ajuda de uma enfermeira e através do vidro de proteção, fala com o pastor, desentubado e ainda nos primeiros minutos de sua nova consciência. Ele então…

Na verdade, para o leitor saber o que acontece de fato nessa história — real — terá que aguardar a conclusão de um projeto cinematográfico em andamento. Desde o dia 6 de abril, a dupla de documentaristas Gustavo Laga Villanova e Cauê Ito registra imagens do dia a dia do Instituto de Infectologia, um dos principais pontos de tratamento da Covid-19 no Brasil, como parte de um documentário independente, ainda sem apoio fechado de produtoras ou empresas.

O título provisório é “A curva”. Pois foi essa palavra, adição ao vocabulário cotidiano geral neste mundo em pandemia, uma das motivações iniciais para o projeto.

Mesmo seguindo à risca protocolos de segurança, o trabalho envolve riscos pessoais. O Emílio Ribas apareceu como oportunidade por conta de uma ligação familiar do fotógrafo (Ito) com a médica Luiza Keiko, durante anos supervisora de equipe técnica em saúde do Instituto, reconhecida pelos pares como uma das melhores dermatologistas do País. Feita a ponte, a dupla decidiu agir rápido, utilizando equipamentos pessoais e emprestados para documentar aquele que é, agora vemos com mais clareza, o maior incidente de saúde pública dos últimos 100 anos.

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Quase com 60 diárias — entrevistando médicos, enfermeiras, residentes, pacientes de diferentes origens e profissões, captando imagens no vaivém do hospital mas também do dia a dia da cidade — a dupla conta que o projeto vai tomando forma. “O documentário começou de uma maneira, e vai aos poucos se transformando”, diz Villanova. “Estamos acompanhando personagens, dramas no dia a dia, e apesar de já termos alguns caminhos e imaginar o que o documentário vai comunicar, não sabemos o desfecho dessas histórias.”

O olhar sobre a situação do hospital e dos profissionais foi bem recebido por uma parte da equipe de funcionários e médicos, que viu no interesse dos cineastas uma ocasião favorável também para o Emílio Ribas, fundado há 140 anos e referência nacional no tratamento de outras epidemias históricas, como as de varíola, febre amarela, meningite (ocultada pela ditadura militar nos anos 1970) e Aids.

Apesar da abordagem pensada para o cinema, a dupla também pretende aproveitar parte do material em forma de pílulas para o projeto Solos, lançado esta semana nas redes (@projeto.solos), voltado para narrativas independentes para a web. “A gente brinca que tudo virou narrativa. Ficar em casa, ir trabalhar, até apenas existir. Claro que dá vontade de contar um monte de histórias dentro desse lugar. Mas, ao mesmo tempo, a pandemia afetou as produtoras. Estamos ainda buscando financiamento”, conta o diretor. Seja como for, as próximas semanas continuarão testemunhas do entusiasmo de dois cineastas, mergulhados num projeto de enorme relevância. (Guilherme Sobota — Estadão Conteúdo)

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