Street Fighter chega aos cinemas como golpe rápido e divertido

Adaptação dirigida por Kitao Sakurai troca profundidade de roteiro por ritmo, cores e referências aos games

Por Tom Rocha

Street Fighter (2026) Ken e Ryu

As cores, o design, os sons e as ambientações de Street Fighter (2026), a mais nova adaptação para os cinemas do videogame de luta mais famoso de todos os tempos, entregam tudo que o espectador precisa saber sobre a obra. Esperta e rápida, sem compromisso com o roteiro nem com a realidade, o longa-metragem é um divertido passeio entre as figurinhas mais conhecidas dos gamers que batem em botões para jogar o game desde 1987, quando o primeiro título da franquia foi lançado.

A Capcom, a softhouse que o desenvolveu, demorou a encontrar a jogabilidade e os gráficos que fariam a mágica dar certo no mundo das lutas 2D, mas a fórmula veio rápido, logo na sequência, em 1991, com Street Fighter II. Foi um arrasa-quarteirão, levando uma multidão às casas de arcade, com os consoles domésticos Super Nintendo (da Nintendo) e Mega Drive (da Sega) rodando o jogo criou-se uma legião que deu a popularidade que os videogames consolidariam, nos anos 90, na cultura pop para sempre.

Traduzir isso para uma obra cinematográfica é uma tarefa ingrata se não se entender que parte da narrativa dos videogames é apenas se divertir apertando botões. E não há nada mais divertido nos games da Capcom do que a sua mecânica simples de luta e jogabilidade precisa.

O cineasta Kitao Sakurai, que também escreveu parte do roteiro, conduz o filme apresentando os personagens clássicos do game, como Ryu (Andrew Koji) e Ken (Noah Centineo), em um fiapo de trama sobre um torneio de luta que eles disputam em 1987, chamado Street Fighter, e que é retomado em 1993, sob pretextos escusos de um vilão megalomaníaco em busca de fortalecer o seu poder, M. Bison (David Dastmalchian).

Os jovens Ryu e Ken são lutadores de uma arte marcial chamada ansatsuken, ensinada pelo mestre Gouken (mostrado apenas nas cenas em anime, termo que designa os desenhos animados japoneses, e que permeia o filme, em um aceno às raízes orientais da obra — a Capcom é japonesa e produziu uma série e um filme no estilo nos anos 90). Mas tudo muda quando o irmão desse mentor, Akuma (Joe Anoa'i), surge para embaralhar os destinos dos rapazes, que acabam por tomar caminhos distintos até se reunirem novamente para o segundo torneio.

Bison quer mais poder e identifica que Ryu possui algo mais que apenas suas habilidades marciais, o que também atrai Akuma novamente. Em meio a isso, outros lutadores têm suas agendas próprias na competição, como Chun-Li (Callina Liang), infiltrada na organização de Bison em busca de vingança.

O filme de Sakurai presta reverência aos jogos e a seus movimentos de controle, como golpes especiais e magias, às animações japonesas dos anos 90 e até à primeira adaptação cinematográfica de Hollywood do game, Street Fighter - O Filme (1994), que trouxe o talentoso e saudoso Raul Julia como Bison — e Dastmalchian não se furta a compor o vilão tomando trejeitos do falecido ator porto-riquenho.

O elenco traz ainda nomes de fora do cinema tradicional, como Cody Rhodes, vindo do Wrestling (luta livre americana) como Guile, o rapper 50 Cent como o boxeador Balrog, o cantor Orville Peck como o ninja espanhol mascarado Vega, o comediante Andrew Schulz como Dan Hibiki (em cenas hilárias) e uma grata surpresa, Jason Momoa interpretando Blanka, a fera verde amazônica — vendido como brasileiro, mas na verdade um americano desmemoriado chamado Jimmy. Essas incongruências e mix de linguagem imprecisa em produto pop rasteiro, é o que faz o escapismo de um bom videogame, e que funciona aqui também.

Tom Rocha é jornalista e editor no Cruzeiro do Sul