Akira retorna em 4K e reafirma legado cyberpunk

Anime dirigido por Katsuhiro Otomo chega às salas de cinema de Sorocaba em versão remasterizada, com sessões legendadas e dubladas

Por Tom Rocha

Kaneda, personagem de Akira, animação que ajudou a popularizar temas complexos para o público adulto

Akira retorna aos cinemas hoje (27), agora em uma versão remasterizada em 4K, depois de 35 anos de sua estreia no Brasil. Distribuído pela Sato Company, o longa-metragem de Katsuhiro Otomo volta às salas nacionais em versões legendada e dublada em português, permitindo que uma nova geração tenha contato com uma das obras mais influentes da animação japonesa.

O retorno ocorre após uma trajetória que começou em 1988, quando o filme animado de Akira chegou aos cinemas no Japão. O longa é baseado no mangá homônimo criado por Otomo e publicado a partir de 1982. Além de escrever e desenhar a obra original, Otomo também assumiu a direção da adaptação cinematográfica, em seu primeiro trabalho dirigindo um anime.

A produção se tornou um dos principais representantes do cyberpunk na animação e ajudou a consolidar a ideia de que desenhos animados poderiam abordar temas complexos e destinados também ao público adulto. A história envolve questões como política, violência policial, drogas, juventude, paranormalidade, religião, armas, conspirações e conflitos entre grupos de jovens, ao mesmo tempo em que explora profundamente a amizade entre seus personagens.

Ambientado em uma sociedade marcada por tensões políticas e sociais, Akira acompanha especialmente Kaneda e Tetsuo, dois jovens envolvidos com uma gangue de motociclistas. A relação entre os amigos é colocada à prova quando acontecimentos ligados a poderes paranormais transformam completamente a trajetória de Tetsuo e fazem os personagens se envolverem em uma trama muito maior do que inicialmente poderiam imaginar.

35 anos atrás

O cuidado técnico empregado na produção também ajudou a transformar o longa em referência. Segundo as informações sobre a obra, a animação reúne mais de 2,2 mil tomadas e cerca de 160 mil imagens desenhadas. Foram utilizadas 327 cores diferentes nas ilustrações, sendo que 50 delas foram criadas especificamente para o filme. A produção também trabalhou com 24 quadros por segundo durante toda a animação, uma taxa considerada elevada para os padrões das animações da época — para efeitos de comparação, animações Disney da época só tinham 12 frames por segundo na maior parte do filme.

Outro destaque está nos cenários e no nível de detalhamento visual. A produção buscou transportar para a tela a riqueza gráfica do mangá, com fundos detalhados e movimentos mais realistas. O processo contou ainda com recursos como pré-dublagem dos atores, efeitos de iluminação e maior atenção aos movimentos dos olhos dos personagens. Otomo chegou a produzir um storyboard com quase 400 páginas para orientar a realização do filme.

Reflexo do autor

A influência de Otomo também pode ser percebida nas referências cinematográficas utilizadas na construção da obra. O diretor incorporou elementos de filmes como Juventude Transviada (1955), de Nicholas Ray, Videodrome (1982), de David Cronenberg, Blade Runner (1982), de Ridley Scott, e 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick. Essa combinação contribuiu para formar a identidade visual e temática de Akira.

Esse marco da cultura pop do século XX influenciou diferentes áreas do entretenimento, e sua estética e narrativa ajudaram a ampliar a projeção internacional da animação japonesa e deixaram marcas em produções posteriores de ficção científica e cyberpunk. A obra também recebeu homenagens e referências de artistas da música e de outras produções audiovisuais ao longo das décadas. Antes do lançamento nacional, a Sato Company promoveu uma sessão especial em São Paulo para marcar os 35 anos da chegada do filme ao Brasil. A exibição ocorreu no dia 9 de agosto, no Sato Cinema, na Liberdade, com a versão remasterizada em 4K apresentada antecipadamente ao público.