Cultura

‘A minha voz precisa contar a minha história’

Elementos de uma cultura carregam muito mais significados além deles mesmos
‘A minha voz precisa contar a minha história’
A apropriação ocorre quando um grupo toma elementos de outra cultura e os ressignifica, esvaziando seu significado real. Crédito da foto: Aldo V. Silva / Arquivo JCS (20/11/2015)

A temática da apropriação cultural foi uma das pautas presentes no último dia 13 de maio, quando a abolição da escravidão no Brasil completou 132 anos (a partir da assinatura da Lei Áurea, em 1888). O uso de elementos culturais da origem negra hoje é frequente no ambiente das pessoas de diferentes raças, mas esse assunto vai muito além da estética dos turbantes, tranças e dreadlocks. Trata-se de esvaziar significados mais próximos da realidade para criar novos, conforme os pesquisadores.

Quando os elementos da cultura negra ganham destaque com outros protagonistas, essa discussão sempre vem à tona. Principalmente ao envolverem celebridades — como a atriz Cleo Pires, que usou dreadlocks para interpretar uma personagem. De acordo com a professora e pesquisadora sorocabana Thifani Postali, 37 anos, a apropriação cultural ocorre “quando um grupo dominante se apropria de elementos de uma cultura que é ‘inferiorizada’ e ressignifica esses elementos, esvaziando os significados mais próximos da realidade”.

A explicação de Thifani, de uma perspectiva acadêmica, é vivida na prática por Tamires Dagnes, de 21 anos, que mora em Salto de Pirapora. Estudante de jornalismo e influenciadora digital há dois anos, ela tem o objetivo de inserir a imagem da mulher negra na área da beleza e de servir de inspiração para o público negro. A jovem faz tutoriais de maquiagem, cuidados com a pele e compartilha experiências com seus seguidores.

‘A minha voz precisa contar a minha história’
A estudante de jornalismo e influenciadora digital Tamires Dagnes: “era muito frustrante procurar inspirações e não encontrar”. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

A motivação de Tamires para criar conteúdo no Instagram foi gerada por uma insatisfação. “Era muito frustrante procurar inspirações e não encontrar”, explica a estudante sobre, de início, não haver mulheres negras que faziam parte desse espaço. Ampliando a discussão para outros horizontes, ela acredita que a apropriação cultural, no mundo digital, vai além dos penteados e produções artísticas. “É nítida a tentativa de apropriação a qualquer sinal de protagonismo negro. Isso vai muito além da área da beleza”, conclui.

Outro mundo

Do mundo digital para o da música, a atriz, educadora e pesquisadora sorocabana Daiana de Moura Bernardes Coelho, 34, vê diferença nos olhares quando são os negros quem fazem, produzem e compõem. “O samba dentro da favela é marginal e não presta, mas o samba fora da favela é bossa nova”, afirma. Para ela, a música se entrelaça com os locais geográficos e o lugar estabelecido às pessoas negras foi à margem.

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“Tudo que não está no centro, de fácil acesso, à margem, a distância, é o que não é bonito”, diz Daiana. Sobre isso, Thifani complementa que “a associação do negro com a marginalização é uma ideia dominante”, e se deve a fatores históricos. “Depois do período escravagista, há um número muito grande de pessoas negras se mudando pras cidades em busca de trabalho e educação. Porém, elas se deparam com uma sociedade totalmente preconceituosa e excludente”, ressalta a pesquisadora, ao contextualizar a ausência do negro nos centros. Portanto, sem conseguir se encontrar nos centros urbanos, essas pessoas se aglomeraram nas periferias, nas margens das cidades grandes. De acordo com Thifani, nesses locais houve um aumento grave na desigualdade social, já que esses grupo precisavam arrumar formas de sobreviver, sem acesso à infraestrutura, educação e saúde.

O poder e a apropriação

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Rebbeka Millena acredita que os elementos da identidade cultural de um grupo são perdidos quando são apropriados. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

A produtora cultural de multimídias Rebbeka Millena de Oliveira, de 19 anos, enfatiza que os elementos da identidade cultural de um grupo são perdidos no caminho quando são apropriados. “Determinado grupo passa a cultura de geração em geração, pra não perder o significado. Um elemento carrega muitas outras coisas além desse elemento”, destaca.

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Em um episódio no ambiente de trabalho, Rebbeka, que tem cabelos cacheados e volumosos, decidiu trançar as mechas, mas os olhares dos colegas não a receberam tão bem. Em outras situações, a jovem explicou que já foi questionada sobre a higiene do penteado, com perguntas preconceituosas em tons pejorativos. No entanto, no mesmo local de trabalho, uma mulher também optou pelas tranças — e segundo Rebbeka, foi bem recebida e elogiada por sua cor de pele.

Para Daiana, falar sobre a apropriação cultural é falar de poder e de vida. É entender quem “pode” usar certos elementos sem passar por preconceitos ou situações constrangedoras. “As pessoas brancas podem usar as coisas de outras culturas, porque em você a minha cultura pode existir. A gente está falando de poder e de vida, de quem pode viver e não pode viver certas coisas”. Sobre a experiência de Rebbeka com as tranças, Daiana define: “Nunca uma pessoa branca deixou de fazer alguma coisa ou passou por algum constrangimento fazendo algo que é da cultura afrodescendente”.

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Daiana de Moura vê diferença nos olhares quando são os negros quem fazem, produzem ou compõem músicas. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

Transformação da existência

Na discussão sobre a apropriação da cultura afrodescendente, a estética é a mais simples. Porém, como já citado, a apropriação acontece em vários sentidos e tem a ver com a determinação de vidas e poderes. Quem pode ou não pode fazer algo. Quem pode ou não pode viver algo.

Como não é possível manter intacta uma cultura — que, segundo Thifani, “é algo flexível, que muda de acordo com o tempo” –, dentro dos grupos culturais há uma reinvenção e restruturação, de acordo com os questionamentos que surgem. A questão, porém, é que “ninguém de fora precisa determinar algo”, como defende Daiana.

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Em muitas situações, não são os negros que contam a própria história, experiência e sofrimento. “Nós não precisamos dar voz a ninguém, porque as pessoas já têm as próprias vozes. Nós precisamos ouvi-las”, conclui Thifani. “A minha voz precisa contar a minha história”, enfatiza Daiana. Para ela, todas as vezes em que algum elemento da cultura é apropriado, acontece o apagamento da existência negra. As pessoas passam a usar, viver e sentir esses elementos, que nem sempre são características físicas, com outros significados, esvaziando o sentido original.

Sobre as tranças, Rebbeka explica que são muito mais do que acessórios de beleza. “Tem todo um contexto histórico, porque é a minha cultura, eu via as minhas tias trançando os cabelos”. Por isso, conforme Daiana, “o racismo estrutural acaba separando as pessoas negras dos próprios elementos”, que são ocupados por pessoas de outras raças sem necessariamente carregar consigo os seus significados.

Os pesquisadores e entrevistados pontuam que, enquanto a sociedade se manter racista e não assumir o preconceito, não é possível discutir profundamente a apropriação cultural. Para mudar isso, Thifani ressalta a importância das pessoas assumirem postura de “resistência”, para que, em algum dia, seja possível olhar o outro como igual e não como inferior. “Não dá para a gente, como mulheres negras, escolhermos se vamos nos posicionar ou não. Temos de fazer, porque faz parte de nós”, complementa Tamires. (Bruna Deroldo – programa de estágio / Supervisão: Eric Mantuan)

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