Brasil

Sob protesto de deputado, Lula é recebido por papa Francisco

Conversa foi particular e papa não soltará nota oficial sobre o assunto. Crédito da foto: Ricardo Stuckert / lula.com.br / AFP

Apesar do protesto contrário do deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança, o papa Francisco recebeu no Vaticano, nesta quinta-feira (13), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um encontro privado. Lula chegou ao Vaticano por volta de 15h30 no horário local a bordo de um automóvel com vidro fumê. A reunião durou cerca de uma hora. A Santa Sé não vai divulgar um comunicado oficial devido a seu caráter privado.

Em carta enviada ao papa Luiz Philippe refere-se a Lula como “condenado” e destaca as condenações judiciais existentes contra o ex-presidente. O deputado cita ainda o adiamento de um interrogatório para que Lula pudesse viajar e indaga sobre o que chama “efeitos negativos” que o encontro poderia acarretar ao povo e às instituições brasileiras. Apesar do protesto do deputado, o encontro aconteceu e Lula concedeu entrevista coletiva ao deixar o compromisso.

“O motivo da minha visita é falar com o papa sobre a questão da desigualdade e a defesa de uma boa política para o meio ambiente”, explicou Lula em declarações à imprensa na sede romana do maior sindicato italiano, o CGIL, onde foi recebido por um grande grupo de representantes e líderes sindicais italianos.

“Todo mundo sabe que o mundo é cada vez mais afetado pelas desigualdades. Na maioria dos países, os trabalhadores estão perdendo seus direitos. As conquistas alcançadas estão sendo perdidas por causa de interesses financeiros”, afirmou Lula.

Interrogatório adiado

O ex-presidente solicitou o adiamento de um interrogatório previsto para 11 de fevereiro em Brasília para poder viajar à Itália e ao Vaticano entre os dias 12 e 15. A Justiça adiou o interrogatório, ligado à Operação Zelotes, para dia 19 de fevereiro.

Lula espera em liberdade o julgamento de todos os recursos do processo em que foi condenado em segunda instância pelo caso do tríplex no Guarujá. “Não falamos com o papa do presidente (Jair) Bolsonaro nem da Amazônia”, disse Lula à margem da coletiva de imprensa.

Em sua primeira viagem ao exterior após deixar a prisão, Lula elogiou a “garra” do pontífice, caracterizando-o como um “gigante”.

O ex-presidente é bem quisto na Itália, onde houve diversas manifestações de solidariedade durante seus 580 dias de prisão, pedindo sua liberdade. Lula se reuniu com dirigentes do governista Partido Democrático, entre eles seu secretário-geral, Nicola Zingaretti.

Modelo político trava o Brasil, afirma deputado
Deputado Luiz Philippe enviou carta ao Vaticano criticando o encontro. Crédito da foto: Fábio Rogério (29/11/2019)

A carta

O protesto do deputado Luiz Philippe ficou registrado na carta enviada ao Vaticano. Leia a seguir a íntegra do documento:

Reverendíssimo Senhor Arcebispo,

Cumprimentando-o respeitosamente, solicito a atenção de V. Exa. Rma. no sentido de esclarecer recente declaração de Sua Santidade, Papa Francisco, veiculada pela imprensa internacional quanto à possibilidade de receber no Estado da Cidade do Vaticano, o ex-presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, já condenado em três instâncias por corrupção e respondendo ao todo a nove processos na Justiça brasileira por corrupção, peculato e outros tantos crimes que sacrificaram sobretudo os mais pobres.
A saída do condenado do país apresenta um retardo no cumprimento de processos judiciais dos quais é réu. Sem querer especular se há qualquer obrigação que a Santa Sé tenha contraído com o condenado no passado, quando ocupava a presidência do Brasil, ao recebê-lo, representará impunidade e desrespeito às instituições brasileiras. Essa é prática reiterada pelo condenado e pela organização criminosa que ele dirige, como apontado judicialmente pelo Ministério Público Federal. Nesse ponto, o partido assim como o condenado promovem ideologia socialista e objetivos comunistas abertamente há várias décadas.

Nas últimas décadas, a sociedade brasileira tem sofrido os efeitos de sua gestão criminosa e da influência ideológica que seu partido e aliados têm propagado no Brasil.

Além desse aspecto seus atos de corrupção das instituições, criou todo um sistema de perpetuação da pobreza de milhões de pessoas. Os resultados de seus atos têm sido difíceis de serem corrigidos em várias áreas da vida dos cidadãos brasileiros: na economia; na conduta das práticas políticas viciadas; na organização do Estado; na burocracia que a envolve; e, sobretudo, nos costumes e valores da sociedade.

Valores esses que estão distantes de qualquer coisa relacionada aos valores que a Santa Sé tradicionalmente representou. No Brasil, é público que a Igreja Católica tem sistematicamente apoiado politicamente o condenado e seus aliados em eleições. Fica a dúvida da missão da Igreja como braço político militante de qualquer ideologia. Fica também a dúvida se houve uma mudança nos valores tradicionalmente defendidos pela Igreja ou se esses foram redefinidos lentamente pela ideologia comunista. Lembrando que essa ideologia não é corroborada pela Sé Apostólica em documentos como na Carta Encíclica Divinis Redemptoris (1937) e no Decreto do Santo Ofício contra o Comunismo (1949). Estariam válidos tais documentos doutrinários e, consequentemente, corretos ao exortarem seus bispos e fiéis a estarem atentos a “sofismas de falsidade e ilusão que comprometem a luminosa doutrina da Igreja”?

Diante do exposto, indago, respeitosamente, se Sua Santidade não teme pela imagem da Santa Igreja ao apoiar abertamente notórios comunistas brasileiros que comprovadamente cometeram graves crimes. Questiono, ainda, quanto à legitimidade dessa visita e os efeitos negativos que poderão acarretar ao povo e às instituições brasileiras.

(Da Redação com AFP)

Comentários