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À PGR, Alckmin confirma reunião com delator que negou publicamente

Em março de 2018, questionado por jornalistas sobre a reunião, o então governador de São Paulo negou-a
Em depoimento em julho de 2017, o advogado de Alckmin confirmou a reunião – Foto: Carl de Souza/AFP

Embora tenha negado publicamente uma reunião com um delator da Odebrecht que o acusa de ter recebido caixa dois, o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) confirmou o encontro em depoimento sigiloso à Procuradoria Geral da República. Em depoimento prestado por escrito, em julho de 2017, e obtido pela reportagem, seu advogado e primo José Eduardo Alckmin mencionou a reunião do tucano, em 2010, com Aluizio Araujo, então membro do Conselho de Administração da Odebrecht, e Carlos Armando Paschoal, à época diretor-superintendente da construtora em São Paulo.

“Parece evidente que houve uma visita protocolar, em que Aluizio levou o diretor Carlos Armando para apresentá-lo ao candidato, com vistas a uma futura contribuição de campanha”, disse o advogado. “Certamente, naquele momento, não se tratou de valores ou de como a doação se operacionalizaria.” A conversa ainda foi mencionada algumas vezes pelo advogado.

Em 2010, Alckmin disputou com sucesso o governo de São Paulo. Paschoal, em delação homologada em 2017, afirmou que no encontro foi acertada uma doação por meio de caixa dois de R$ 2 milhões. Alckmin diz que não recebeu qualquer doação que não tenha sido declarada à Justiça, conforme manda a lei.

Em março de 2018, questionado por jornalistas sobre a reunião, na abertura do Fórum Econômico Mundial da América Latina, o então governador de São Paulo negou-a. “Não. Não teve nenhum encontro. Eu recebo muita gente, aliás, permanentemente. Mas não me lembro de nenhum encontro. Aliás, o doutor Aluízio é da família da minha sogra há 30 anos. Nada a ver com questão de natureza eleitoral”, declarou o tucano.

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O depoimento prestado pelo advogado à PGR foi reiterado em janeiro de 2018 à Polícia Federal no mesmo inquérito, que corre na esfera eleitoral e hoje está em um limbo. Depois de o tucano renunciar ao governo para disputar a Presidência, em abril, e portanto perder o foro especial, o caso desceu à primeira instância. A promotoria eleitoral em São Paulo diz ainda não ter recebido os autos do caso da PGR.

O tucano costuma minimizar a participação de seu cunhado Adhemar Cesar Ribeiro, irmão de sua mulher, Maria Lúcia, em suas campanhas. Em maio de 2018, por exemplo, disse que ele é “casado com banqueira e simpatizante do PSDB. Só isso”. Entretanto, sua defesa, no depoimento à PGR, apontou atuação de Ribeiro como arrecadador de doações.

“Foi mesmo Aluízio Araujo que deve ter repassado ao colaborador Carlos Armando os dados de seu amigo Adhemar Ribeiro, para que esse oportunamente indicasse o contato do futuro tesoureiro de campanha para realizar as doações”, escreveu o advogado. Alckmin diz que Ribeiro tinha amizade de longa data com Aluízio, que morreu em 2014. O cunhado confirma a informação e admite ter tido papel na campanha.

Em depoimento prestado por escrito no mesmo inquérito, seu advogado diz que Ribeiro “atuou em sua campanha a governador em 2010 como seu assessor”. “Nessa condição”, diz, além de ter cedido um conjunto comercial para ser usado como comitê de campanha política, “agendou reuniões entre o candidato e empresários”. “Quando havia a concordância de algum em se proceder a uma doação, encaminhava-se a formalização para o tesoureiro”, disse Ribeiro.

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Em sua delação, Paschoal afirmou que o encontro ocorreu entre abril e maio de 2010. O executivo da Odebrecht disse ter ido à reunião a convite de Aluízio, que ainda no carro teria antecipado o objetivo da conversa. No escritório, Paschoal foi orientado a aguardar na antessala enquanto Aluízio e Alckmin falavam a sós. Segundo o delator, depois de cerca de 20 minutos, foi convidado a entrar e não falaram da campanha.

“Quando eles ficaram de pé, como quem diz ‘acabou’, o dr. Alckmin pediu para a secretária um cartão. Ele disse: ‘Esse aqui é o meu cunhado. O que a gente combinou aqui com o dr. Araujo, você pode…'”. Na petição, José Eduardo Alckmin disse que “o episódio do cartão não corresponde à realidade e à lógica dos fatos”. Sustentou que Ribeiro e Aluizio combinariam entre si eventuais doações — sempre dentro da legalidade, frisou — já que “tinham amizade de longo tempo. Eram vizinhos de porta, frequentavam-se com assiduidade e tinham apreço um pelo outro”.

Para o advogado do tucano, Aluizio teria tomado a iniciativa de oferecer a doação, “pelos valores do candidato”, e não em resposta a um pedido de Alckmin.

Outro lado

A campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) afirmou em nota que o advogado do tucano não confirmou o encontro. “Na defesa, aludindo às afirmações de Carlos Armando Paschoal, procurou-se demonstrar que ele próprio descrevera somente um encontro protocolar, em que nenhuma solicitação fora feita”, disse Alckmin, em nota. “Isso para demonstrar a inconsistência da versão acusatória. Não significou nenhuma confirmação do encontro, do qual o candidato afirma não se recordar.”

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Alckmin diz que foi uma “ilação lógica” a menção de que seu cunhado Adhemar Ribeiro intermediou o contato entre a Odebrecht e o tesoureiro da campanha para doações. “Trata-se de ilação lógica que se pode extrair do episódio, pois Aluizio possuía o número de seu telefone”, afirmou a assessoria. O tucano negou que Ribeiro tenha tido qualquer papel oficial na campanha, mesmo que tenha atuado informalmente.

“Adhemar Ribeiro não exerceu qualquer função oficial na campanha. Não foi tesoureiro, membro do comitê financeiro, não atuou na prestação de contas”, afirmou o ex-governador. Ao atribuir ao cunhado o papel de indicar o contato do tesoureiro de sua campanha para recebimento de doações, o advogado de Alckmin “também fez mera ilação decorrente da narrativa do colaborador”. “Se houve a consulta de Aluizio de como proceder a doação, imagina-se que Adhemar tenha indicado que o doador entrasse em contato com o tesoureiro”, afirmou a campanha. (Thais Bilenky  – Folhapress)

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