Brasil Covid-19

A batalha de números que acompanha a corrida pela vacina

Os resultados anunciados recentemente por vários fabricantes se referem à fase 3 dos testes
Estudo com mais de 50 mil voluntários na China mostra segurança de vacina
Testes das vacinas contra covid-19 chegam na fase final. Crédito da foto: Governo do Estado de São Paulo (23/9/2020)

A corrida pela vacina contra a covid-19 também é uma batalha de números, como mostram os anúncios sobre a eficácia de cada projeto. No caso da AstraZeneca e da Universidade de Oxford, a eficácia varia em média de 70%. Já para a Pfizer/BioNTech, 95%.

Como a eficácia é medida?

Entre os voluntários em cada estudo, alguns recebem a vacina e outros um placebo, para que a comparação possa ser feita. Todos eles levam uma vida normal durante os testes. Com o tempo, alguns naturalmente são infectados pela covid-19.

Se a vacina for eficaz, o número de pacientes será menor entre os vacinados em comparação com o segundo grupo. Teoricamente, uma vacina é 100% eficaz se não houver nenhum paciente no primeiro.

Os resultados anunciados recentemente por vários fabricantes se referem à última etapa dos ensaios clínicos, a fase 3, com dezenas de milhares de voluntários.

Eles foram publicados quando um certo número de infectados foi alcançado: 95 no caso da farmacêutica americana Moderna, 170 para a aliança alemão-americana Pfizer/BioNTech e 131 para o projeto europeu AstraZeneca/Oxford.

 Quais são os resultados?

A dupla Pfizer/BioNTech anunciou uma eficácia de 95%, entre 170 doentes: oito pertenciam ao grupo vacinado e 162 ao grupo do placebo. Quase o mesmo da Moderna, que mostrou 94,5% de efetividade, com cinco pacientes no primeiro grupo e 90 no segundo.

A Pfizer mediu a eficácia de sua vacina uma semana após a segunda e última dose e a Moderna, duas semanas depois.

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Por sua vez, a AstraZeneca e a Universidade de Oxford anunciaram uma eficácia média de 70% nesta segunda-feira, com base nos resultados de dois protocolos diferentes.

A eficiência foi de 90% entre os voluntários que receberam meia dose primeiro e, um mês depois, uma dose completa. Já entre o grupo que recebeu duas doses completas, caiu para 62%.

“Todos esperávamos que as duas doses completas provocassem uma resposta melhor. (Mas) parece que uma dose inicial menos forte permite que o sistema imunológico se prepare” para agir de forma mais eficaz, explicou um dos pesquisadores responsáveis pelo projeto, Andrew Pollard, em coletiva de imprensa.

Isso pode ser porque meia dose “imita melhor o que acontece em uma infecção verdadeira”, de acordo com sua colega Sarah Gilbert.

Outra hipótese tem a ver com a tecnologia dessa vacina, chamada de “vetor viral”: consiste no uso de outro vírus, um adenovírus de chimpanzé, que é modificado para transportar até as células material genético capaz de combater a covid-19.

Segundo vários especialistas, uma primeira dose completa poderia pressionar o sistema imunológico a combater o vírus usado como veículo, causando efeito oposto ao que se busca.

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Por fim, o instituto russo Gamaleïa garantiu que sua vacina tinha eficácia de 92%, com base em um número muito pequeno de doentes (20).

Qual é a mais eficaz?

Como os resultados foram apresentados em um comunicado à imprensa, sem uma publicação científica detalhada, é impossível determinar qual vacina pode ser mais eficaz no geral.

Alguns especialistas, porém, apontam a da AstraZeneca/Oxford, já que “ao contrário dos outros estudos, esta equipe diagnosticou semana a semana todos os participantes para detectar infecções assintomáticas”, segundo a médica Eleanor Riley, da Universidade de Edimburgo, citada pela organização britânica Science Media Centre.

Uma das principais questões é saber se a vacina impede a transmissão do vírus, além de reduzir a gravidade da doença entre os que foram vacinados.

“Há evidências de que a vacina pode reduzir a transmissão do vírus, pois observamos uma diminuição das infecções assintomáticas”, apontou a Universidade de Oxford. Entretanto, esses dados são preliminares.

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“As diferenças de eficácia são baseadas em uma análise de 100 a 200 pacientes de um total de 30.000 a 50.000 voluntários para cada vacina, portanto, esses números podem variar substancialmente mais tarde”, alertou outro especialista, o médico Julian Tang, da Universidade de Leicester, citado pelo Science Media Centre.

Eficaz para quem?

Entre outras dúvidas a serem resolvidas, vale saber por quanto tempo essas vacinas protegem, bem como se sua ação é a mesma entre os grupos mais vulneráveis, como os idosos, que são muito mais suscetíveis a adoecer gravemente pela covid-19.

A parceria Pfizer/BioNTech afirmou que a eficácia de sua vacina é “superior a 94% entre os maiores de 65 anos”, sem que se saiba por enquanto os detalhes científicos que sustentam esta alegação.

Enquanto isso, a AstraZeneca e Oxford publicaram seus resultados na prestigiosa revista médica The Lancet em 19 de novembro: mostram que sua vacina provoca a mesma resposta em pessoas acima de 56 anos de idade que entre os mais jovens (18-55 anos). No entanto, trata-se de descobertas da fase 2, com um número muito menor de voluntários (560) e não representativos da população geral. (AFP)

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