Cultebook

Lições para um mundo que não para de mudar

Estamos inundados de informações. Não há um dia que a gente não receba uma quantidade maior de dados que podemos processar e armazenar em nossas limitadas mentes humanas.

Pior, o excesso de informação se tornou uma ferramenta para a desinformação. Atordoados em meio a tanto conteúdo, poucos conseguem priorizar o que importa. Para se sobressair ao barulho endêmico, políticos já utilizam táticas para criar uma linha de produção de factóides em torno de declarações “polêmicas”, bravatas e frases de efeito, mesmo que sem pé nem cabeça na realidade.

Organizar um pouco o caos é um dos méritos de  “21 Lições para o Século 21”, do historiador israelense Yuval Noah Harari. O mesmo autor do best-seller Homo Sapiens (que arrebatou leitores ilustres como Bill Gates), faz nesse seu livro mais recente um apanhado de questões que  importam hoje e que ele considera decisivas para o futuro: tecnologia, política, desespero e esperança, verdade e resiliência.

Apesar de ser embalado com jeitão de autoajuda ou dos tradicionais “livros de guru”, os textos são compilados a partir de colunas e breves ensaios que o autor publicou em diversos veículos. Harari se sai bem ao não entregar conclusões sob demanda ou verdades definitivas para os temas que aborda. É sempre grande a  tentação de trazer respostas simples para dilemas complexos quando tanta gente busca por receitas mágicas para qualquer problema: seja para emagrecer, seja para ser feliz.

Sentir-se confuso é um bom sinal

Dentre alguns temas que fazem parte de um mundo novo nem tão admirável, o autor explica como o ser humano tem sempre uma tendência a se fiar em narrativas mais simples. Com o fim da disputa entre as narrativas capitalista e comunista, a democracia liberal não conseguiu satisfazer a todos (não há fim da história viu, Fukuyama!) e nem ter respostas para todos os dilemas contemporâneos. Portanto, vivemos nesse instante um vácuo narrativo, um cenário perfeito para que realidades alternativas surjam como novas narrativas e também como soluções milagrosas. Nesse cenário distópico, sentir-se confuso é um bom sinal, indica Harari.

Crédito: https://www.ynharari.com

Acredito que o melhor das análises de Harari é que ele faz um contraponto ao otimismo quase nunca desprovido de interesses financeiros de engenheiros, empresários e entusiastas das disrupções tecnológicas. Ao mesmo tempo, ele não carrega uma visão apocalíptica das mudanças. Seus questionamentos são feitos com ajuda de uma lupa histórica que nos dá a perspectiva de que o mundo está bem melhor, ainda que seja necessário inteligência e sangue frio para lidar com os desafios que já aportam à praia.

Leia mais  Inep divulga os gabaritos do Enem nesta quarta (14)

Se Harari não se aprofunda tanto o quanto gostaríamos em vários desses tópicos, ao menos ele coloca luz em temas que podemos e devemos nos informar melhor. Foi o que tentei fazer abaixo, de maneira ainda mais resumida.

Big Data

Do que você gosta? O que você compra? Aonde você vai? Com quem? Harari defende que o principal poder econômico não está mais no petróleo, em ouro ou em terras, mas nos servidores das empresas que possuem a maior quantidade de nossos dados: Google, Amazon, Facebook e por aí vai. Uma das soluções propostas pelo autor é que caberá ao Estado regular cada vez mais o uso desses dados, inclusive ao cobrar tributos específicos para esse tipo de propriedade. É mais ou menos como a máxima do Tio Ben, aquele do Homem-Aranha: “grandes poderes trazem grandes responsabilidades” e, a julgar pelo que já vimos nos casos Facebook, Cambridge Analitica e eleições americanas ou no WhatsApp e eleições brasileiras, as responsabilidades das empresas detentoras de grandes volumes de dados é gigantesca.

Inteligência Artificial 

É fácil ficar animado com a Inteligência Artificial enquanto ela resolve cada vez mais rápido os problemas do dia a dia. Mas o que você vai achar dela quando o avanço dessa tecnologia extinguir o seu trabalho? Harari aponta que, se o problema do trabalhador pós-Revolução Industrial era ser explorado, a questão agora é ele se tornar irrelevante. Não será mais preciso pagar menos ou dar menos direitos para o trabalhador simplesmente porque em algum tempo não será necessário ter alguém para trabalhar em muitas funções.  Uma década é tempo suficiente para eliminar empregos e não há como garantir que outros surjam em quantidade suficiente para suprir o déficit daqueles que foram perdidos. Capacidade de se transformar, de aprender sempre e de ter resistência emocional para enfrentar mudanças contínuas são cada vez mais importantes. Mas o que fazer se tivermos uma enorme legião de desempregados no mundo todo? Harari propõe algumas saídas e, entre elas, novamente volta ao papel do Estado em oferecer programas como Renda Mínima para que todo cidadão consiga ter o mínimo suficiente para sobreviver. Inclusive ele cita o sucesso desses projetos que já acontecem em alguns países. Nesse caso, há também a discussão do que será o básico para alguém sobreviver nesse futuro próximo e como definir essa espécie de cesta básica do século XXI.

“O melhor conselho que eu poderia dar a um jovem de quinze anos é: não confie demais nos adultos. A maioria deles tem boas intenções, mas eles não compreendem o mundo”

Educação 

o que realmente devemos ensinar às crianças? “O melhor conselho que eu poderia dar a um jovem de quinze anos é: não confie demais nos adultos. A maioria deles tem boas intenções, mas eles não compreendem o mundo”. Eis uma frase de Harari ideal para ser muito compartilhada em rede social, mas pouco analisada em seus desdobramentos. Despejar conteúdo em sala de aula esperando que um jovem absorva informações sem entender como usá-las na prática não faz sentido para estudantes. O modelo de ensino sobre o qual estamos acostumados já não para em pé. Isso não quer não quer dizer que professores sejam dispensáveis nem que a gente precise patrulhar os mestres em salas de aula. Mas o papel do profissional de educação precisa ser revisto, assim como o currículo escolar. Para fazer diferença, o papel do ensino precisa ser mais voltado sobre como buscar, como confiar e o que fazer com as informações que dispomos. Estimular o senso crítico e não apenas reter conteúdo (isso os computadores fazem muito melhor do que todos nós). Em outras palavras, em vez de descarregar todas as datas e os nomes importantes da Revolução Francesa, o ideal é mostrar para os alunos por que entender o que aconteceu na França em 1789 pode ajudá-los a compreender melhor o mundo em que vivemos hoje.

“Quando mil pessoas acreditam durante um mês numa história inventada – isso é fake news. Quando um bilhão de pessoas acreditam durante milhares de anos – isto é uma religião.”

Pós-verdade 

Mesmo com 99% dos cientistas sérios do mundo apontando para o perigo do aquecimento global, há uma legião de cidadãos, políticos e empresários que rejeitam a tese de que precisamos fazer alguma coisa para evitar uma catástrofe ambiental baseados na maioria das vezes em teorias da conspiração descoladas e até personalizadas para os diferentes públicos-alvos. Mas não é de hoje que essas narrativas carregam contradições. Harari faz uma definição bem-humorada sobre a pós-verdade: “Quando mil pessoas acreditam durante um mês numa história inventada – isso é fake news. Quando um bilhão de pessoas acreditam durante milhares de anos – isto é uma religião.”. A provocação contida na afirmação ajuda a ilustrar como fatos distorcidos ou criados para sustentar os mais diferentes discursos existem há muito tempo e não surgiram com as redes sociais (assim como o conceito de storytelling). Harari destaca a importância vital das narrativas para qualquer ser humano e como muitas vezes elas são usadas para justificar desde a eleição de políticos à manutenção de sistemas econômicos mais abrangentes. Com certa dose de ironia, Harari exemplifica um pouco sobre o que o ser humano é capaz de fazer quando se envolve por uma narrativa bem construída:“Décadas antes de os Estados Unidos operacionalizarem a bomba inteligente, e numa época em que a Alemanha nazista estava começando a utilizar os foguetes V-2, o Japão afundou dezenas de navios aliados com mísseis de precisão. Conhecemos esse mísseis como ‘kamikazes’”.

Nacionalismo 

O Brexit e a ascensão de populistas nacionalistas em diversas partes do mundo é tendência global (não estamos sós, Brasil). É como se o projeto de globalização houvesse fracassado e o que nos resta é nos virarmos para nossos países ou nosso grupo e repudiar aquilo com o que não nos identificamos: a crise imigratória certamente está entre os temas mais sensíveis dessa “nova ordem mundial”. Mas não parece que construir muros seja a melhor alternativa. Para Harari, dificilmente a saída está nesses movimentos nacionalistas (e em breve a realidade baterá à porta). O mundo se tornou praticamente uma única civilização e, mesmo com todas as diferenças, não há saída melhor do que a democracia liberal e o intercâmbio entre as nações. O que deveríamos estar fazendo era discutir de que maneira problemas como os fluxos imigratórios poderiam ser tratados de melhor forma para a maioria das pessoas. No entanto, ainda perderemos algum tempo do nosso futuro incerto tentando mostrar que “para solucionar problemas complexos não adianta fingir que eles não existem” ou que podem ser resolvidos à base de grito. Ideias velhas como o “nós contra eles” ou o “Ame-o ou deixe-o” que já não funcionaram na Idade Média e em nenhuma outra época podem até fazer sucesso no século XXI, mas continuarão ineficazes: “Quer você viva no Congo ou na Mongólia, na Nova Zelândia ou na Bolívia, suas rotinas diárias e fortunas econômicas dependem das mesmas teorias econômicas, das mesmas corporações e dos mesmos bancos, e das mesmas correntes de capital.”

O livro “21 lições para o século 21” foi uma cortesia da Companhia das Letras para o autor do texto.

 

Leia mais  Estudantes poderão renovar o Fies até o dia 23

Como você gosta de ler, conheça também meu canal sobre livros e cultura no YouTube

Comentários

Sobre o Autor

Rodrigo Focaccio

Alguns passos pra você conhecer um pouco mais sobre o Cultebook:

1. É um canal para falar muito de literatura. Portanto, podemos falar de cultura, arte, ciências, história, política, religião. Enfim, sem preguiça de pensar.

2. Não há vídeos patrocinados. Isso não faz bem para a nossa relação.

3. Sou Rodrigo Focaccio, criador, roteirista e editor do canal. Formado em jornalismo trabalho como consultor de comunicação e nas horas vagas faço conteúdo. Vivo em São Paulo há 15 anos.

4. Muitos dos livros e personagens citados, análises ou comentários ou até mesmo questões políticas passarão pela minha forma de pensar, com minhas inclinações, convicções e, claro, nas fontes que pesquiso para fazer os vídeos. Todos que pensem diferentes são bem-vindos para opinar, criticar e sugerir. Aqueles que apenas xingam ou tentam ofender quem pensa diferente, podem visitar outros canais.

5. Sou corinthiano. Não sei de que forma isso pode influenciar no conteúdo do canal. Mas certamente irá.