Pequenos Milagres


Sobre convicções, formigas e urubus




Por Nilson Ribeiro
 
Não era intenção me manifestar sobre os últimos acontecimentos do nosso combalido país. Há muito que já percebi que não há espaço para convencimento em nenhum dos polos do jogo de cabo de guerra que se estabeleceu.
 
Mas ontem, no finalzinho da tarde, enquanto lia uns poemas de Drummond na minha varanda, reparei que um batalhão de árvores altas no limite do sítio formava uma barreira natural ao sol que já se despedia. Sob tal muro verde estendia-se uma grande sombra, onde facilmente se podia observar poucas saúvas recolhendo os últimos retalhos de algumas pétalas de flamboyant e se preparando para encerrar o expediente de sobrevivência. A noite chegara para tais formigas.
 
Porém, muito acima das árvores, alguns urubus ainda brincavam ao sol, circulando sem esforço o firmamento azul de outono. Para essas aves ainda era hora de aproveitar o ar tépido e o espaço sem dono sob a luz do astro. O dia ainda se derramava no horizonte.
 
Pensei: se alguma formiga tentar convencer aquele urubu que já se faz noite, vai passar por desinformada. Da mesma forma, se um urubu descer e tentar convencer uma formiga que ainda há tempo para aproveitar a luz do dia, passará por maluca ou coisa pior. Ou seja: não é quem somos, mas em que posição estamos e o que enxergamos – os limites de nossa visão – que formam nossas opiniões e convicções. Há que se saber do próprio limite (e aceitá-lo como parte do jogo) para não duvidarmos imperativamente dos argumentos alheios.
 
Chego a pensar que nossas convicções acabam formadas por algumas informações mínimas que confiamos e um universo de outras que não conhecemos. Ou seja, é o que não sabemos que dá corpo às nossas convicções, uma vez que aquilo que não nos é conhecido é sempre infinitamente maior do que aquilo que supomos saber. Taí nosso Inconsciente para não me deixar mentir!
 
De modo que, no limiar do dia, as formigas enxergam noite nas sombras, e os urubus estão certos de que ainda há muita luz a se aproveitar. Quem está completamente errado? Se ao menos pudessem mudar o ponto de vista, as formigas poderiam ver o sol batendo nas asas dos urubus. E as aves poderiam enxergar a sombra sobre os formigueiros e entender a conclusão das pequenas formigas.
 
Se não admitirmos nossos limites de compreensão ficaremos todos presos a uma verdade ilusória, que não respeita a totalidade da situação em que nos encontramos. E a verdade será sempre a verdade de cada um, sem possiblidade de diálogo. Quem está compeltamente certo?
 
Bom dia, Vida!
 
Nilson Ribeiro é jornalista, escritor, compositor, músico, professor e pesquisador
nilribeiro63@hotmail.com





Páscoa, passagem e amor incondicional como cura para o homem




Por Nilson Ribeiro

Era apenas um dia comum e eu me deslocava de algum lugar qualquer para outro, afim de não me atrasar para um certo compromisso que agora sequer me lembro qual. Dirigia distraído num bairro periférico, com suas casas simples, algum pequeno comércio e ruas um tanto estreitas. Ela estava num ponto de ônibus, sentada num banco sob uma sombra improvisada de uma árvore generosa. Era apenas uma menina. Talvez 16 ou 17 anos, com roupas simples, sandálias simples e uma bolsinha simples. Em uma das mãos, alguns envelopes e papéis. A outra mão acariciava a barriga imensa, onde preparava outro ser para esta vida. Meu olhar foi breve, uma vez que o sinal abriu e eu precisava seguir caminho pela rotina dos dias. Mas foi o suficiente para perceber o sorriso e o carinho da menina ao acariciar seu rebento ainda dentro da barriga. O bastante para realimentar minha esperança nesses dias tão sombrios.

Segui meu rumo carregando aquela cena, aquele sorriso, aquela inequívoca demonstração de amor. Não precisei perguntar nada à menina. Mas como havia uma unidade hiospitalar próxima do ponto de ônibus, pude imaginar que ela saía de algum exame pré-natal, tão importante para uma gestação tranquila. E como ela estava no ponto contrário ao meu destino, certamente tomaria uma condução para dentro do bairro, para alguma região mais periférica ainda. Era evidente que se tratava de uma moça simples, residente em alguma casa simples nesses cantos escondidos das cidades. Mas ela estava em estado de êxtase, num momento de amor em toda sua força e plenitude.

Sonhei por um momento que a força daquele amor transbordante poderia escorrer daquela menina pela calçada, descer a rua feito enxurrada, inundar as avenidas, a cidade toda, cair nos rios, chegar ao mar, atravessar a diferença oceânica entre os homens e enfim, como um tsuname do bem, derrubar toda ignorância e intolerância que deixam nossos tempos tão estranhos e sombrios. É desse amor que estamos precisando. Mesmo diante de todas as dificuldades, um amor gerado com carinho e potência suficiente para nos fazer enxergar de forma clara e inequívoca que somos a mesma matéria. Por traz das bandeiras defendidas a pedras e sangue estão seres humanos com um único e justificável desejo: ser feliz.

Em tempos de Páscoa precisamos nos lembrar que não se deve construir casas sobre pontes. Pois Páscoa é passagem. E é exatamente uma passagem que vivenciamos aqui neste nosso curto tempo de convivência. Mas queremos todos eternizar esse momento. Edificamos uma vida como se ela fosse eterna. E acabamos dominados pelo egoismo do desejo de criar nosso próprio mundo, dentro da nossa própria bolha. O fato é que, mais dias menos dia, esse mundo também vai ruir, essa bolha vai estourar, nossos corpos voltarão a ser pó e água e ar, elementos que serão devolvivos inequivocamente à natureza. Gastamos o tempo com tanta bobagem... E é desse egoismo que nasce primeiro a ignorância, depois a separatividade, em seguida a intolerância que se multiplica no ódio com a qual eventualmente pintamos essas nossas bandeiras.

Precisamos urgentemente gerar o amor ensinado por essa mamãe tão menina. É preciso que o amor supere todo tipo de diferenças ¿ sexo, raça, natividade, gênero, posição social, religião, escolaridade, natureza física e todas mais. Caso contrário, corremos o risco de nos tornar um "Pinóquio" às avessas: seres humanos que se tornam bonecos manipulados pelos seus desejos infantis e egoistas, para depois se transformarem num pedaço de madeira miserável que mal serve para ser queimado no fogo do esquecimento.
Bom dia, Vida!

Nilson Ribeiro é jornalista, escritor, compositor, músico, professor e pesquisador
nilribeiro63@hotmail.com





O infinito no agora. A eternidade no instante




Por Nilson Ribeiro
 
Aconteceu já há algum tempo. Mas a reflexão ficou para sempre.
 
Me recordo que era uma manã ensolarada. Mas particularmente difícil dentro do coração. Não havia sido um bom despertar. Um e-mail duro, desses de arranhar a ferida da alma sem anestesia. Mas como a vida não espera juntar os cacos, água no rosto, café pequeno e rua. Arthur - que ainda tinha menos de um ano - na cadeirinha de segurança, e lá fomos nós rumo à escolinha dele. Depois de vários dias sentindo o coração espremido, com ele chorando na hora de eu me retirar, já estava me acostumando com aquela sensação angustiante.
 
Então, o milagre. 
 
Entramos, penduramos a mochilinha verde no ganchinho e fomos até a sala de brinquedos. Então o abracei, beijei e avisei que estava indo embora e voltava mais tarde para busca-lo, como havia feito nos últimos dez dias. Virei as costas e fui saindo, esperando o choro costumeiro. Silêncio... Dei mais alguns passos. Silêncio... parei e olhei para trás. Arthur brincava feliz com o Toni e outras crianças na sala. Nenhum choro.
 
De um momento para o outro meu coração pesado, arranhado e dolorido se encheu de uma alegria e uma ternura indescritíveis. Pensei em ficar um pouco mais ali contemplando aquela tremenda vitória do Arthur. O empoderamento do espaço e das pessoas ao seu redor. A confiança adquirida. O destemor. Os meus olhos marejaram. Então resolvi seguir para o portão e sair logo, com medo de que Arthur me visse hesitando no meio do jardim da escola, onde a eternidade e o infinito me visitavam naquele instante e lugar.
 
Sabíamos desde sempre que ele ficaria bem uma hora ou outra. Mas toda vez que ele ficou chorando enquanto eu lhe virava as costas e saía, eu senti uma dor muito profunda. Como explicar que não era um abandono? Que era uma forma de amor para que ele superasse essa fase tão difícil. Não muito a fazer, senão confiar na sensibilidade das cuidadoras e na força do nosso menino. E, de repente, agora, ele me dizia, sem nada dizer... "Fica tranquilo, papai. Eu vou ficar bem! "
 
Eu olhei para outra criança, lá no fundo do meu peito, que também estava sofrendo, e repeti: "Fica tranquilo, coração meu. Isso também vai passar. Vamos ficar todos bem."
 
Bom Dia, Vida!
 
Nilson Ribeiro é jornalista, escritor, compositor, músico,m professor e pesquisador
nilribeiro63@hotmail.com