Giro Regional


Satélite acompanha passos de duas onças entre Juquiá e Tapiraí




Sossego, uma onça pintada com menos de dois anos de idade, andou mais de 200 km entre Juquiá, Tapiraí e São Miguel Arcanjo e no caminho inverso desde o dia 23 de setembro do ano passado e até 12 de março deste ano. Neste mesmo período, Juçara, uma onça parda, ficou ziguezagueando pelas bordas da floresta sem se afastar do município de Juquiá.
 
Estes são os primeiros passos das onças que foram divulgados após sua captura, em 22 de setembro, por pesquisadores do Instituto Para a Conservação dos Carnívoros Neotropicais – Pró-Carnívoros (IPC).
 
As imagens do satélite mostram que Sossego caminhou por um corredor de matas entre as reservas Legado das Águas, que abrange os municípios de Juquiá, Tapiraí e Miracatu e a Reserva do Zizo, em São Miguel Arcanjo. Juçara permaneceu em um pequeno território ao redor do local de sua captura, quase na zona urbana de Juquiá.
 
De acordo com a pesquisadora Sandra Cavalcanti, presidente do IPC, a onça pintada andou mais por ser macho e jovem, praticamente adolescente e a parda, além de ser fêmea, já é adulta e está familiarizada com o seu território.
 
As onças foram pegas numa armadilha na noite de 22 de setembro e, depois de examinadas, receberam um rádio-colar equipado com GPS.  No dia seguinte foram soltas no mesmo local da captura e passaram a ser vigiadas diuturnamente.
 
De acordo com a presidente do IPC, Sandra Cavalcanti, é a primeira vez que uma onça-parda é monitorada em ambiente de Mata Atlântica apesar de se adaptar com mais facilidade aos diversos ambientes e ter uma distribuição territorial maior. Até então as pesquisas limitavam-se a registros fotográficos feitos através de dispositivos com sensores de movimento.
 
“Agora poderemos acompanhar intensivamente suas atividades, recebendo informações do rádio - colar a cada uma hora. Conseguiremos descobrir por onde ela caminha, como utiliza o habitat e, possivelmente, até estudar seus hábitos alimentares”, diz Sandra.
 
No caso da onça-pintada, a pesquisadora reforça a importância do monitoramento por ser uma espécie ameaçada de extinção. “Estima-se que restam apenas de 250 a 350 indivíduos na natureza. A captura e monitoramento desse animal representa mais do que estudar e entender seu comportamento. Representa a oportunidade de mostrar para a comunidade a importância da espécie e de sua preservação”, explica Sandra.
 
O monitoramento dos felinos é resultado de um trabalho de pesquisa realizada desde 2014 pelo Legado das Águas, maior reserva privada de Mata Atlântica do Brasil, pertencente ao Grupo Votorantim. O trabalho, intitulado Plano de Manejo da Fauna Silvestre, é realizado em parceria com o Instituto Pró-Carnívoros, com a Prefeitura de Juquiá e com os habitantes do entorno da floresta.
 
Rafael Guimarães, chefe da Divisão Agrícola e Ambiental da Prefeitura de Juquiá, informa que o trabalho incluiu uma estrutura de procedimentos a serem adotados em caso de aparições dos animais, de forma a evitar a sua caça. 
 
Os animais foram capturados na propriedade do produtor rural Adenir Torres Lima, que tornou -se em um dos colaboradores do projeto. “Antes eu não sabia nada sobre onças. Tinha muito medo. Com esse tempo em que a equipe do Pró-Carnívoros ficou aqui, aprendi bastante. Agora entendo qual é o papel das onças na natureza, e como eu posso me proteger e proteger a espécie. A principal lição que aprendi é que eu e elas podemos viver em harmonia tomando os devidos cuidados”, explicou Lima.
 
Considerada rainha das florestas brasileiras, a onça-parda está entre os principais símbolos de campanhas pela preservação da biodiversidade. A extinção do felino, que faz parte do topo da cadeia alimentar da Mata Atlântica, poderá causar um grande desequilíbrio ambiental.
 
Símbolo da fauna brasileira, a onça-pintada, é um mamífero que pode atingir até 2,41 metros e pesar 158 quilos, está ameaçada de desaparecer da Mata Atlântica devido à caça predatória e à perda e degradação de seu habitat. A gestação varia de 90 a 112 dias, podendo nascer até quatro filhotes, mas a média é de dois filhotes por gestação.
 
O legado
 
O Legado das Águas, maior reserva privada de Mata Atlântica do país, com extensão aproximada à cidade de Curitiba (PR), é um dos ativos ambientais da Votorantim. Localizada na região do Vale do Ribeira, no sul do Estado de São Paulo, a área com sua floresta e rica biodiversidade local vem sendo conservada pela empresa há mais de 50 anos, com o objetivo de contribuir para a manutenção da bacia hídrica do Rio Juquiá, onde a companhia possui sete usinas hidrelétricas.
 
Desde 2012, o Legado das Águas foi transformado em um polo de pesquisas científicas, estudos acadêmicas e desenvolvimento de projetos de valorização da biodiversidade, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo.
 
O Legado das Águas é administrado pela empresa Reservas Votorantim, criada para estabelecer um novo modelo de área protegida privada, cujas atividades geram benefícios sociais, ambientais e econômicos de maneira sustentável.
 





Colônia Pinhal busca título mundial de Taiko no Japão




 
No próximo domingo, 25, a Colônia Pinhal disputa no Japão o título do Campeonato Mundial Júnior de Taiko que será realizado em Ishikawa. 
 
O time já conquistou três títulos brasileiros, o último deles em 2017, o que lhe garantiu a vaga para representar o Brasil no mundial, já em sua 20ª edição, que também terá participantes de Taiwan e da Argentina.
 
Em 2016 a Colônia Pinhal, chamada oficialmente de Hisho Daiko, obteve o melhor desempenho de uma equipe brasileira no Japão, conseguindo a terceira colocação no 18º Campeonato Júnior. Veja a apresentação de 2016 neste vídeo.
 





 
O taiko é um instrumento de percussão japonês utilizado há mais de 1500 anos em rituais religiosos. Atualmente tornou-se popular e é empregado para enriquecer o ritmo de diversos conjuntos musicais do Japão. 
 
Os jurados avaliam a disciplina e o traje; a postura, a técnica, a interpretação da música e o trabalho em equipe. Mas o tempo também vale nota, podendo desclassificar o concorrente que ultrapassar o máximo ou ficar abaixo dele. 
 
No caso da categoria júnior, cada apresentação deve durar até 300 segundos (5 minutos) e, no mínimo, 270 segundos. Se não alcançar o mínimo, a equipe perde 5 pontos e se ultrapassar é eliminada. 
 
A Colônia Pinhal é um assentamento agrícola inaugurado em 1962 entre os municípios de Pilar do Sul e São Miguel Arcanjo. O projeto foi patrocinado pela Jica (Agência de Cooperação Internacional do Japão) beneficiando 54 famílias de diversas províncias japonesas. Os agricultores são os principais produtores de uva itália no município e possuem a maior bibloteca japonesa fora do Japão.
 
 
 
 





As francas impressões de um Nobel sobre a região em 1949





O escritor franco-argelino, Albert Camus, Prêmio Nobel de Literatura de 1957, notou que havia certa proximidade entre o escritor brasileiro Oswald de Andrade e dona Anésia, proprietária da pensão onde almoçaram em Piedade, em 5 de agosto de 1949, por volta das 13 horas de um dia claro e quente.  Piedade era uma “cidadezinha sem graça” e a refeição só “passou graças à pinga", anotou.


Logo após o almoço a dupla retomou a viagem para a grande festa de Bom Jesus de Iguape, ponto final da aventura, mas o motorista errou o caminho e foi parar em Pilar, às 15 horas, um equívoco que significa mais três horas de estrada, solavancos e poeira.


A expedição só alcança o topo da Serra de Paranapiacaba, em Tapiraí, no fim do dia, mas ainda “tenho tempo de ver os primeiros quilômetros de floresta virgem, a espessura deste mar vegetal; de imaginar a solidão no meio deste mundo inexplorado. E a noite cai enquanto nos embrenhamos nesta floresta”.

 
Sentindo a volta dos sintomas de uma tuberculose mal curada e, portanto, de péssimo humor, Albert Camus faz um relatório amargo de sua passagem pela região em sua malfadada expedição pela América do Sul.

 
As minúcias das visitas estão narradas no livro “Diário de Viagem”, que inclui impressões de sua passagem pela América do Norte, em 1946, e que só foi publicado na França em 1978, dezoito anos após a morte do escritor em um acidente de automóvel. 


Camus ainda não conquistara o Nobel, mas já publicara dois de seus romances mais conhecidos – “A Peste” e “O Estrangeiro” – e ganhara notoriedade na Europa tanto pelas suas ideias – “se quer filosofar, escreva romances” – como pelo seu engajamento na resistência francesa contra o nazismo. 


Por sua popularidade na Europa e já conhecido no resto do mundo, foi contratado pelo governo da França para atuar como uma espécie de embaixador da cultura francesa nas Américas. 


Foi neste contexto oficial que visitou o Brasil, com uma agenda de palestras no Rio, Recife, Salvador, São Paulo e Porto Alegre. Conhecido como filósofo do absurdo, Camus era atraído pela cultura e pelas religiões de matriz africana do Brasil. Por isso, seu anfitrião paulista, Oswald de Andrade, incluiu a cidade no roteiro de visitas. 


- Saímos de São Paulo e começamos a rodar em direção ao Sul. A estrada, de terra ou de pedra, está sempre coberta por uma poeira vermelha, que recobre toda a vegetação por uma camada de lama seca na extensão de até um quilômetro de cada lado da estrada. Ao fim de alguns quilômetros, nós mesmos ficamos cobertos com a mesma poeira. Ela infiltra-se por todos os interstícios da grande caminhonete Ford em que nos encontramos e pouco a pouco enche-nos a boca e o nariz. Lá em cima, um sol feroz que torra a terra e para qualquer vida.


O único caminho para Iguape naquele ano, além de dois voos semanais ou embarcações eventuais pelo Oceano,, era pela Estrada Velha São Paulo – Curitiba. A rodovia BR-116 ainda era um traçado longitudinal ligando o Nordeste ao Sul.


A velha estrada para Curitiba atualmente atende pelo número SP-250 e tem um nome de gente em cada trecho entre as cidades que vai cortando e que ajudou a expandir. Seu traçado hoje é confundido com ruas nos centros das cidades de Ibiúna, Piedade, Pilar do Sul, São Miguel Arcanjo e Capão Bonito, na região de Sorocaba.


Em Pilar do Sul, até o fim dos anos 70, as correspondências enviadas para a rua Dom Lúcio Antunes de Souza eram endereçadas à Estrada Velha São Paulo – Curitiba km 144.  Quando Albert Camus e Oswald de Andrade chegaram a este endereço em 1949, Pilar era uma espécie de shopping de conveniência para caminhoneiros.


O km 144 contava com dois postos de combustíveis, uma oficina mecânica e uma de carrocerias e dois hotéis-restaurantes, fora três cooperativas agrícolas de japoneses e seus armazéns de carga e descarga. 


Tinha 8 mil habitantes e as casas eram cor de poeira e de lama atiradas pelo intenso trânsito Norte-Sul que fomentava a economia dos municípios e que resultou em sua estagnação após a inauguração da BR-116, atualmente chamada Regis Bittencourt. 


Só quem tem mais de 50 anos experimentou o enfado das viagens por esta estrada, exatamente como narra Albert Camus:


 -A 50 quilômetros um ruído sinistro. Paramos. Uma mola dianteira quebrou, escapando muito visivelmente do feixe de molas e raspando no aro da roda. O motorista coça a cabeça e declara que será consertada daqui a uns 20 km. Aconselho a retirar a peça imediatamente, antes que fique presa na roda. Mas ele está otimista. Cinco quilômetros adiante paramos; a mola estava presa na roda.

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O motorista partira para uma arriscada viagem sem sequer levar uma chave inglesa. Sob um sol abrasante eles esperaram até finalmente chegar socorro de um caminhoneiro que tinha a ferramenta. Pela distância calculada por Camus estavam perto de Ibiúna que fica a 61 km da capital.


-Retirada a roda, desapertada a porca, tira-se, enfim, a peça. Tornamos a partir entre montanhas pálidas e ravinosas, encontrando, às vezes, um zebu famélico, e outras escoltados pelos tristes urubus.


Na chegada a Piedade, Camus mostra o quanto um francês pode ser franco, trocadilho inevitável em se tratando de comentar o seu relato:

 
-Às 13 horas chegamos a Piedade, uma cidadezinha sem graça, onde somos acolhidos calorosamente pela dona da pensão, Dona Anésia, a quem Andrade deve ter feito a corte em outros tempos. Servidos por uma índia mestiça, Maria, que, ao final, irá oferecer-me flores artificiais. Refeição brasileira que não acaba mais e que passa graças à pinga, nome da cachaça aqui.


O caminho até Pilar, com a mola consertada, é descrito como um total desolamento:


- Continuamos a subir e o ar torna-se muito seco. São áreas imensas sem habitação, sem cultura. A terrível solidão dessa natureza desmedida explica muitas coisas neste país.


As duas cidades são ligadas até hoje pela mesma estrada, mas totalmente pavimentada e muito bem conservada. Segundo o escritor, a chegada a Pilar se deu às 15 horas, ou seja, apenas duas horas depois da chegada para o almoço e conserto da mola em Piedade. 


Em sua descrição da descida da serra de Tapiraí, Albert Camus revela que fora o asfalto e as novas pontes, nada mudou na paisagem nem mesmo a famigerada neblina.


- Andamos durante horas e sacolejamos por uma estrada estreita, entre paredes altas de árvores, em meio a um cheiro úmido e adocicado. Na densidão da floresta correm de vez em quando pirilampos (moscas luminosas), e pássaros de olhos vermelhos vêm bater um segundo no para-brisa. A não ser isso, a imobilidade e o mutismo deste mundo apavorante são absolutos se bem que Andrade às vezes julgue ouvir uma onça. A estrada volteia e torna a voltear, passa por pontes de tábuas soltas que atravessam riachos. Depois vêm a bruma e uma chuva fina que dissolve a luz de nossos faróis. Não andamos mais, literalmente nos arrastamos. São quase sete horas da noite, estamos nisso desde as dez da manhã e o cansaço é tamanho que acolhemos com fatalismo a hipótese de enguiçar por falta de gasolina.


A chegada a Juquiá é narrada sem menção ao nome da cidade, citada apenas como “cidadezinha, onde um grande rio nos obriga a parar”.  A travessia do rio Juquiá é feita por uma barcaça do “mais antigo sistema possível, movida por meio de um cabo estendido entre as duas margens e conduzida por mulatos de chapéu de palha.


A viagem de ida e volta a Iguape vai de 5 a 7 de agosto. Além de Oswald e do motorista, a quem Camus chama pelo nome do filósofo francês Augusto Comte, viaja um filho do escritor brasileiro e o adido cultural francês no Brasil, chamado apenas como Sylvestre. 


Em Iguape, com os hotéis entupidos de fieis, como acontece até os dias atuais, a comitiva foi hospedada pelo prefeito da cidade no hospital. Todo o festejo e até um incidente que ocorre com um sujeito metido a autoridade vão inspirar Camus a escrever um conto – “A Pedra Que Cresce” – que será publicado no livro “O Exílio e o Reino”, em 1957. 


Camu se despede do Brasil em Porto Alegre com mais uma demonstração da franqueza francesa: “A luz é bela, mas a cidade é feia”. 
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