Blog do Simões


Reunião entre artistas do teatro e circo : associação ou cooperativa de teatro?




Reunião entre artistas do teatro e circo: associação ou cooperativa de teatro?

Um breve relato


Vinte e quatro artistas do teatro e circo estiveram reunidos (06/08/2018) nas dependências do SENAC,  para conversar acerca da possibilidade da criação de uma cooperativa de teatro e circo, na Região Metropolitana de Sorocaba.

A convocatória da reunião aconteceu mediante um chamamento nas redes sociais. Um boca-a-boca provocado pelo Guto do grupo Escarafunchar, a partir da leitura de um post do blog do Simões, do mês de janeiro. Na sequência, entre as trocas de mensagens, Hamilton Sbrana sugeriu o espaço para a acolher a reunião e trouxe consigo a possibilidade do apoio institucional da equipe de Economia Criativa do SENAC. Foi assim. Um ponto liga o outro, que junta outro e lá estávamos nós reunidos.

A reunião tinha como objetivo principal sensibilizar os artistas para o tema.  A proposta era a de conversar sobre a criação de cooperativa de teatro - prós e contra. Cada um dos presentes se apresentou e, ao mesmo tempo, foram feitos questionamentos iniciais. Nada efetivamente conclusivo. Apenas a certeza que não será fácil, que se conhece pouco do processo e é preciso estudar o tema. Num dado momento a memória do teatro de Sorocaba transbordou e invadiu a sala. A experiência e não-experiência de cada um se transformou em solidariedade, generosidade e vontade de dialogar, trocar e fazer teatro. Teatro é mesmo resistência. O artista e o feijão e o sonho (Origenes Lessa)

Os artistas, ao final, decidiram que desejam continuar a discutir conjuntamente o tema. Assim foi agendado, para o dia 03 de setembro,  outro encontro para discutir as diferenças entre modelos de associação x cooperativa; a orientação de planos de negócios e a sua inserção na economia da criação (prefiro este adjetivo à criativa).

Talvez sejamos feitos da mesma matéria que os sonhos (Shakespeare) e a vida seja sonho (Calderon de La Barca) numa eterna espera de Godot (Beckett). Seja lá qual for esta matéria que nos distingue das outras profissões, que ela nos mobilize a nos encontrarmos mais vezes, vermos o outro em cena com regularidade, nos reconhecermos como profissionais da cena de um teatro vigoroso, potente e luminar produzido na Região Metropolitana de Sorocaba.

Encontrar, conversar, discutir, contrariar, mediar, juntar, calar, falar, opor, pedir, sonhar, acreditar e tudo mais.

Obrigado a todos que compareceram. Evoé!

Por fim, aproveito para comunicar aos leitores e leitoras que este é o ultimo post do BLOG DO SIMOES no Jornal Cruzeiro do Sul. Foram oito meses intensos de produção textual, com mais de 400 mil acessos. Agradeço imensamente ao Fineis pela abertura que proporcionou a crítica teatral e, também, a direção do Jornal Cruzeiro do Sul pela oportunidade de integrar equipe pioneira do projeto - blogueiros.





Crítica teatro - A paixão no circo




Crítica teatro - A paixão no circo

O novo espetáculo do Coletivo Cê em parceria com o Circo-teatro Guaraciaba “A paixão no circo”  traz no título a ambiguidade que a montagem se propõe mostrar em cena. De um lado, a apresentação da Paixão de Cristo (a partir do texto Mártir do Calvário) e, do outro lado, a paixão dos artistas pelo teatro. 

O texto de Rogério Guarapiran dialoga com o clássico do circo-teatro “Mártir do Calvário”, conhecido também como “Paixão de Cristo”, baseado no drama sacro-espanhol e escrita pelo autor português Eduardo Garrido, apresentada no Rio Janeiro, em 1901. Um dos maiores sucessos do circo-teatro da primeira metade do século XX. Tamanho o sucesso do texto que era comum, numa cidade de médio ou grande porte, quatro ou cinco companhias de teatro o apresentarem  simultaneamente. As apresentações aconteciam logo após o carnaval (e antes do natal) e sempre lotadas. Teatro popular lotado e em alta no Brasil.
 
Nessa história de sucesso do "Mártir do calvário" não faltam depoimentos engraçados e “causos” envolvendo a montagem. Tal como na apresentação que um menino gritou da plateia: Mãe, Jesus é palhaço. Jesus é o palhaço! Afinal os atores eram os mesmos do espetáculo de circo da outra semana.  Com o passar dos anos a montagem foi ganhando improvisos, cacos e risos, apesar do tema sisudo. O texto de Eduardo Garrido já foi contemporaneamente adaptado outras vezes na cena brasileira. Dentre elas se destaca a montagem do grupo Galpão – Rua da Amargura – feita por Arialdo de Barros e direção de Gabriel Villela.  Um marco na trajetória cênica do grupo mineiro.

Nesta criação de  “ A Paixão no Circo” o dramaturgo Rogério Guarapiran lançou mão do recurso do metateatro, que pode ser definido (de modo ligeiro) como a “peça dentro da peça”.  O autor conta a história de uma companhia de circo-teatro, com atores jovens e velhos, que discutem e enfrentam os dilemas de se manter  em atividade uma companhia de circo-teatro. Estas e outras questões acerca do oficio das artistas são permeadas pela montagem do texto do “Mártir do Calvário”.  Assim, ao longo dessa história são inseridos fragmentos do texto de Eduardo Garrido. Esta construção textual não é fácil, afinal a carpintaria do melodrama tem especificidades e nem sempre o que funciona de um modo, numa dada estrutura, funciona noutro contexto. Esta é a maior dificuldade desta montagem.

A encenação de Fernando Neves busca deixar evidente ao espectador o metateatro. As costuras, entre uma e outra situação dramática, interferem diretamente no ritmo do espetáculo, especificamente, na passagem entre as situações dramáticas e as cômicas. Nalgumas cenas há ausência do exagero, característico do gênero, preenchida pela interpretação realista, resultando numa “fratura” ou “quebra” no ritmo e na própria  organicidade do texto. A encenação 'quase' linear"  não retira a potência da montagem. Propicia outro tipo de reflexão do tema e resulta, por exemplo, na ausência de um “grande final” para o espectador, que titubeia em aplaudir no apagar das luzes.

Porém, tudo se relativiza diante das interpretações vigorosas do elenco e, também, pela proposta do Coletivo Cê e Circo-Teatro Guaraciaba de trazer à cena o tema da paixão pelo teatro representado por duas gerações distintas de artistas de teatro. É emocionante ver em cena Alexandre Malhone, Alexandre Miranda, Bruna Moscatelli, Edimea Rocha, Eliane Ribeiro, Guaraciaba Malhone, Hércules Soares, Hudi Rocha e Júlio Mello. Duas ou três gerações de artistas. Há, aqui, a força do lugar.

Em cena estão o tempo vivido, a poeira de palco, os gestos precisos, os olhares de quem conhece o palco no formato arena e muito mais, em diálogo com o vigor dos jovens artistas. Eliane Ribeiro consegue trazer a leveza e o ar brejeiro à personagem; Edmea Rocha e Guaraciaba estão hilárias. São presenças fortes e marcantes. Assim como é bom ver  em cena a versatilidade de Alexandre Malhone numa interpretação mais contida, com gestos curtos e precisos; Hércules, Bruna e Alexandre Miranda oscilam entre os excessos dramáticos e o realismo propostos pela encenação. Julio Mello, carismático, consegue impor um ritmo crescente e diferenciado à personagem até o desfecho do espetáculo.

Ao final, destaco, a potente interpretação de Hudi Rocha. Hudi traz os cacos e improvisos do circo-teatro no texto de Garrido. O humor no limite. Impossível não rir. Contudo, é no prologo do Ébrio (que  faz parte de outro texto) que se tem a grandeza cênica de Hudi Rocha. A cena do ébrio é forte e ao mesmo tempo delicada. Emociona. Interpretação memorável. O aparte inserido no texto é uma joia. Os espectadores lhe agradecem por nos oferecer esta preciosidade que somente os artistas podem criar em cena. Obrigado Hudi.

Assim o espetáculo “A paixão no circo” cumpre aquilo que se propõe: colocar à mostra a paixão pelo teatro.  Saímos do teatro de algum modo ou outro sensibilizados pelo amor dos artistas pelo teatro. Pela resistência dos artistas que teimam em continuar fazendo teatro. Assim como a lona do circo, localizada nos fundos da Biblioteca Municipal Infantil,   teima em seguir sendo o espaço da resistencia da cena sorocabana. Uma cidade sem teatros, mas não sem artistas de teatro. Verga, mas não quebra.  "A paixão no circo" é teatro sorocabano de qualidade ímpar. Não deixe de assistir.


Diretor: Fernando Neves
Dramaturgo: Rogério Guarapiran

Direção Administrativa e Produtora Geral: Andressa Moreira
Assistente de Direção: Júlio Mello

Elenco: Alexandre Malhone, Alexandre Miranda, Bruna Moscatelli, Edimea Rocha, Eliane Ribeiro, Guaraciaba Malhone, Hércules Soares, Hudi Rocha e Júlio Mello

Músico: Evandro Furlan

Cenógrafo: Jaime Pinheiro
Figurinista/Maquiadora: Luciana Malhone
Aderecista: Felipe Cruz
Light Designer: Túlio Pezzoni

Art Designer: Pêu Ribeiro
Assessoria de Imprensa: Jf Gestão de Conteúdo
Contrarregra: Luciana Malhone
Técnico de Som e Luz: Maurício Matos Caetano
Fotógrafa: Cau Peracio
Videomaker: Gabriel Paixão e Thiago Roma (Corvinho Filmes)

Acompanharam este trabalho participando da criação:
Cenografia
Alessandra Rodrigues
Analigia Rodrigues Amorim dos Santos
Elisa Bianchin de Souza
Francine Trevizan Festa
Mariana Mercadante

Encenação
Dionísio Martins
Louize Mendes
Naiara Flora de Lima

Produção
Bruno Neves Viana
Fabiana Cirino
Fabiana Vieira Luz Nogueira





Teatro crítica: coletivizando o indivíduo




Teatro crítica: coletivizando o indivíduo


O espetáculo “Coletivizando o indivíduo” da companhia de teatro SEVASTRA, apresentado no espaço O COMPLEXO, tem como tema central a discussão do indivíduo e da construção da sociedade. Nele quatro indivíduos abordam questões acerca do coletivo e daquilo que se entende por indivíduo. O título da peça, nesse caso, é praticamente autoexplicativo.

A discussão proposta em cena, segundo os autores, remete algumas questões postas pelo existencialismo, na qual o homem (e somente ele) é o responsável pelos os seus atos. Não há desculpas e nem justificativas pelo que realiza ou faz.  Sartre, em relação ao homem, afirma que - “condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer.”  De tal modo, ao fim e ao cabo, o homem deve ser inventado todos os dias.

Em cena as quatro personagens travam discussões acaloradas e bem humoradas acerca do indivíduo e do coletivo. Provocam e jogam umas com as outras. Parece não existir consenso. Será? O jogo é visceral, assim como a interpretação dos jovens atores (Alana Manfrinatto, Douglas Pagangrizo, Eduardo Martins e Felipe Gadaian). Diálogos fortes e cortantes.

A encenação altera a tradicional relação lugar da cena e lugar da plateia fixos. Os interpretes percorrem e ocupam  os vários lugares do espaço, resultando em boas soluções cênicas. Destaca-se, ainda, a adequada emissão vocal dos atores e da atriz. O texto é compreendido na sua totalidade à despeito do espaço físico não colaborar. Afinal se trata de um espaço aberto, um bar, com muitas intervenções sonoras (da rua, do próprio bar, das pessoas, etc).

As cenas são permeadas de diálogos bem-humorados, quase debochados nalguns momentos. Nele você pode até perder o folego pela adrenalina emocional que os atores proporcionam. O único senão se encontra na parte final do texto que,  ao querer explicar e amarrar aquilo que já foi dito pelo próprio espetáculo, deixam o ritmo escapar. A dramaturgia de Felipe Gadaian e Tallison Santos, então, perde o folego.

As interpretações são corretas e vibrantes dos atores e da atriz. Ao mesmo tempo corajosas, isso porque atuam no limite de transformar as falas numa imensa bobagem ou numa situação enfadonha. A questão chave para o bom resultado cênico está no jogo que os interpretes estabelecem entre si, o texto, o público e o espaço. Destaque ao ator Douglas Pagangrizo pela forte presença cênica, resultado do conjunto da voz e gestos contidos, precisos e, ao mesmo tempo, emocionado nos contrapontos da discussão em defesa da tese da personagem.

A montagem do grupo SEVASTRA tem o viço da juventude. E como tal pode ir além das formalidades da caixa cênica. Porém, não é nada fácil, pois não permanecerão jovens para sempre. É preciso, no entanto, que no processo a coragem permaneça e o risco também. Num mundo de certezas quase ninguém gosta de fato do risco. A maioria finge que se arrisca imersos em traquitanas cênicas. No risco a dor é parceira.  Quase todo mundo prefere a segurança e da ausência de risco surge o teatro feito de aparências, que se revela metaforicamente no papel do embrulho, sob a denominação de alternativo. Na perfumaria do mau feito. Nele é difícil encontrar a diferença na repetição. Não obstante é imperativo não desistir ou cair na tentação do teatro fácil. O caminho para isso é conhecido: buscar referencias, ler, ensaiar, trabalhar, aprofundar, ensaiar e não se conformar.  O teatro se alimenta da inquietação, da repetição e da ligação com o este tempo, com o “zeitgeist”. Viva o teatro!


Elenco: Alana Manfrinatto, Douglas Pagangrizo, Eduardo Martins  e Felipe Gadaian
Texto: Felipe Gadaian e Tallison Santos
Direção: Felipe Gadaian