Agenda econômica


Seria um problema de demanda?




Por Yan Cattani, economista do blog Agenda Econômica 
 
yancattani@gmail.com 
 
Nessa semana o Banco Central divulgou o indicador antecedente da atividade econômica (IBC-BR ), o qual avançou 0,50% na comparação de novembro contra outubro. Já a variação do acumulado em 12 meses passou de 0,2% para atuais 0,7%, o que indica que teremos um PIB superior a 1% para 2017.
 
Esse é um indicador bastante interessante para se acompanhar, pois sua tempestividade é muito maior que a divulgada pelo IBGE – seus dados são mensais, enquanto o indicador oficial do PIB é trimestral. Também é interessante para calibrarmos melhor as próprias expectativas do indicador agregado da atividade econômica. A metodologia não é a mesma, mas o resultado final, valor produzido na economia, tende a ser muito próxima em ambos indicadores.
 
No entanto, há outras aberturas do indicador do IBGE que não são aferidas pelo IBC-Br. O primeira é um índice que afere somente a oferta de fatores produtivos de nossa economia. Já o indicador de Contas Nacionais do IBGE mede também o valor produzido na economia através de outras óticas, o PIB, através da demanda e da renda. São meios idênticos de se mensurar a mesma coisa e nenhuma é mais importante, que pode ser simplificadamente resumida pela seguinte relação:
 
Y = C + G + I + X – M
 
Na qual Y é a renda agregada (PIB), C é o consumo das famílias, G é o consumo do governo, X são as exportações e M as importações.
 
No caso do IBC-BR estamos medindo Y através de um somatório da produção do setor agropecuário, industrial, serviços e arrecadação de impostos.
 
Ocorre que, no momento atual, acho mais interessante observar a composição da ótica da demanda, o lado direito da equação. Digo isso pela importância da retomada que necessitamos dos investimentos em nosso país e é nessa visão que conseguimos compreender alguns de nossos problemas econômicos. Com nível atual de 15% do PIB, o país fica bastante atrás de outras potências: EUA, Reino Unido e França possuem níveis próximos a 20% - China destoa como sempre, com 49%. Mas com relação aos demais emergentes, Índia e Rússia, os níveis são de 33% e 25%, respectivamente. Ou seja, estamos bastante atrás.
 
Tirando o consumo das famílias, cuja representatividade é parecida com a de outras nações, sobram assim outros 2 componentes, as chamadas exportações líquidas (diferença entre exportação e importação) e consumo do governo. Diferentemente do que se prega por aí, o Brasil não é um país predominantemente exportador: temos uma contribuição menor do que 1%, pois quase tudo que conseguimos exportando é consumido pelas importações de nossa economia. Resta-nos então o consumo do governo. Com cerca de 20%, destoa de seus pares mundiais: na Rússia é 18%, China é 14%, Índia é 12%. Dentre os desenvolvidos, como EUA e Suíça, por exemplo, o nível é de 14% e 11%, respectivamente.
 
Há outros países como França, Alemanha, Reino Unido e Canadá que possuem níveis iguais ou superiores ao brasileiro para o consumo do governo. A questão é que lá eles já passaram por um nível satisfatório de desenvolvimento social e o Estado virou um grande prestador de serviços públicos, predominantemente com qualidade. Aqui deixamos de investir para manter as contas do governo focada em gastos correntes (entre outros problemas que pretendo discutir no próximo post) e poucos serviços de qualidade.
 
Talvez seja por isso que a lógica de reformas econômicas tenha vindo de forma repentina, pois até o próprio governo começou a se dar conta sobre a sustentabilidade desses números. Quem sabe nos próximos anos, se essas reformas derem certo, consigamos utilizar um pouco mais desses recursos hoje utilizados em meros “pagamento de boleto” para os utilizar em investimentos. Mero devaneio... Por ora foquemos na torcida para que essa retomada econômica continue nos trilhos. Um passo por vez. 
 


Disputas do PIB - Pixabay / quicksandala





Belo serviço




Por Yan Cattani, economista do blog Agenda Econômica
yancattani@gmail.com
 
Segundo a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do IBGE divulgada na última sexta, o volume do setor de serviços avançou 1,0% em novembro contra o mês anterior (dados com ajuste sazonal). 
 
Mantida  a base de comparação, observando os grupos, com exceção de “outros serviços” que mostrou dados estáveis (0%), “serviços prestados às famílias” e “serviços de comunicação e informação” foram os destaques positivos do mês, ambos com desempenho de 0,9% em novembro. Em termos regionais, os melhores desempenhos foram no Acre (6,6%), Rondônia (5,8%) e Mato Grosso (5,0%), ao passo que as maiores quedas ocorreram no Maranhão (-3,6%), Amapá (-3,3%) e Bahia (-2,9%).
 
Olhando os dados de tendência, a variação do acumulado em 12 meses também apresentou evolução em sua curva, passando de uma queda de 3,7% em outubro para um recuo de 3,4% na leitura atual, mostrando uma evidente melhoria. 
 
Só para contextualizar: após a inevitável retração no período de crise, o setor atingiu o “fundo do poço” em abril de 2016, com queda de 4,6% nos valores acumulados em 12 meses. Por lá permaneceu por praticamente 16 meses, oscilando com alguns valores mais ou menos negativos, mas nada que destoasse muito desse marco.  Contudo, desde a aferição de setembro, os dados descolaram desses valores e vêm gradualmente mostrando resultados que agora podem ser considerados efetivamente como retomada. 
 
Pode não parecer grande coisa, uma vez que os dados gerais ainda encontram-se em território negativo. Contudo, devemos nos lembrar da importância do setor na composição dos segmentos produtivos da atividade econômica. Com cerca de 60% do PIB (incluindo também as atividades ligadas ao varejo), o setor de serviços foi o último a mostrar resposta no período pós-crise, uma vez que indústria, comércio já mostraram crescimento no ano. E agricultura não precisa nem mencionar, já que foi o ano em que mais se produziu na história. Caso a tendência permaneça, resultados mais robustos e positivos poderão emergir já no primeiro trimestre de 2018, algo que poderá ser motivo de comemoração em mais um campo de nossa economia. 





Credibilidade não é um momento




Em 2017 o IPCA mostrou considerável desaceleração, atingindo 2,95%, apresentando, portanto, seu menor nível nos últimos 20 anos. Com o resultado, a inflação ficou abaixo do piso da meta do Banco Central, de 3% em 2017, obrigando o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, a escrever uma carta ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, justificando as medidas adotadas e as tratativas para fazer os preços convergirem novamente para o centro da meta, que será no próximo ano de 4,5%. 
 
Só para situar, o sistema de metas de inflação foi implementado pela primeira vez em 1999, por um órgão chamado Conselho Monetário Nacional (CMN), composto pelo ministro da Fazenda, ministro do Planejamento e presidente do Banco Central, os quais definem um alvo para inflação de modo a preservar o poder de compra de nossa moeda, o Real. A meta em si é revista de tempos em tempos, sendo que a última definição foi que a inflação para 2017 deveria ser centrada em 4,5%, com tolerância de 1,5 p.p., para cima ou para baixo, ou seja, a inflação poderia oscilar em uma banda entre 3% até 6%.
 
Todas autoridades do triunvirato conselheiro possuem poder suficientemente capaz de ameaçar a estabilidade dos preços, seja através do reajuste fiscal e parafiscal (entre outras medidas), do descumprimento do Orçamento, ou da excessiva liquidez da moeda (ou excessiva austeridade). Mas somente o presidente do Banco Central possui a ferramenta mais poderosa de ajuste de preços, que é o controle dos juros básicos da economia, a Selic. 
 
Ocorre que essa é a quinta vez que se o descumprimento da regra do sistema de metas de inflação ocorre, mas pela primeira vez situa-se abaixo do piso. Mesmo na posse desse arsenal monetário, baixando a Selic para o menor nível desde sua criação, o presidente o BC não conseguiu cumprir a meta. E o que torna mais irônica a situação é que na definição do alvo de 2017 foi alterada a banda de tolerância, antes estipulada em 2%. Assim, caso tivesse sido mantida, a inflação estaria dentro da regra.
 
Como já mencionado no último post de 2017, contribuiu para esse resultado a forte retração dos preços de alimentos. Explicando melhor, devido à boa safra do ano (fim do efeito El Niño e recordes de produção) e à grande desaceleração dos preços de itens não-comercializáveis (serviços e produtos que só conseguem ser consumidos e localmente; você não corta cabelo em outro país, por exemplo) marcaram níveis de preços historicamente baixos para cesta de bens chamados "livres". Na contramão, o preço de itens administrados (controlados direta ou indiretamente pelo governo, ou seja, não-livres), como tarifas de energia, combustíveis, planos de saúde entre outros, subiu de forma a compensar algumas perdas passadas (ou de forma preventiva para o próximo ano), aproveitando-se da grande desaceleração dos itens livres.
 
Ainda assim, mesmo sendo um "infrator e meliante", a credibilidade do presidente da autoridade monetária dificilmente será questionada, pois o resultado surpreendeu positivamente as expectativas geradas no final de 2016. Ademais, a rápida desinflação citada também contribuiu para que a política monetária agisse de forma mais expansiva, trazendo os juros para baixo de forma mais célere e em maior escala, de 7%. Isso tudo sem citar outras medidas microeconômicas capitaneadas pelo BC que já foram implementadas ou que serão, e que deverão melhorar ainda mais o mercado de crédito, consumo e economia em geral. Credibilidade é comportamental e não um simples momento.