Agenda econômica


Impactos do mercado de trabalho na inadimplência




 

Por Yan Cattani, Economista do Blog Agenda Econômica

 

yancattani@gmail.com

 

De acordo com pesquisa recente elaborada pela Boa Vista SCPC, nos últimos 3 semestres o desemprego apresentou uma elevação de 13 pontos percentuais entre os principais motivos que levaram à restrição de crédito dos consumidores brasileiros, ou como é popularmente conhecido, consumidores que passaram a ter o nome "sujo na praça". A constatação é da Pesquisa Perfil do Consumidor, elaborada pela instituição no decorrer do 1º semestre de 2018, com cerca de 1.700 pessoas, em todo o país.

 

Com relação aos dados do primeiro semestre, cerca 45% dos entrevistados apresentaram o desemprego como principal causa da inadimplência de contas. Outro motivo que chama atenção na pesquisa é que 32% dos entrevistados alegaram que a falta de renda ocasionada pelo desemprego prejudicou o pagamento das contas e, consecutivamente, os levaram à inadimplência.

 

Dentre os itens que mais destacaram pesaram nas contas, o comprometimento com o pagamento de contas diversas (pagamento de boletos diversos, gastos com educação, saúde, compra de bens de consumo, tributos entre outros) e os gastos com itens de vestuário e calçados foram os mais representativos. O primeiro passou de 23% para os atuais 26%, e o segundo fator dos 15% para os 19%, respectivamente, na comparação entre o 1º semestre de 2018 e o 2º semestre de 2017.

 

Sobre o nível de endividamento ¿ lembrando que inadimplência é a dívida não paga somente - - dos consumidores que estão inadimplentes, 70% afirmaram estar muito endividados neste último semestre, sendo que 56% dos informantes afirmaram que estão com mais de 50% da renda mensal comprometida com o pagamento de dívidas (vencidas ou não). No mesmo período de 2017, eram 66%.

 

Em resumo, pode se dizer que a pesquisa da instituição mostra um sinal amarelo para mercado de crédito e consumo. Por mais que outros indicadores da economia (como os do Banco Central, por exemplo) venham mostrando certa estabilidade dos dados de inadimplência, em detrimento da piora das razões de inadimplência, pode-se dizer que acendeu-se uma luz amarela no sistema de crédito brasileiro. Uma vez que um não pagamento de contas é ocasionado pela falta de renda/emprego,  causa que é mais prejudicial que um simples descontrole de contas, o fluxo de para novas dívidas na economia poderá apresentar elevação das ocorrências de inadimplência, já que o mercado de trabalho vem se recuperando ainda de forma muito incipiente.

 

Para acessar a pesquisa completa da Boa Vista SCPC, clique aqui.

 

 
 





Entre um Copom e outro




 

Por Yan Cattani, Economista do Blog Agenda Econômica

yancattani@gmail.com


Hoje o Comitê de Política Monetária, o Copom, irá anunciar qual será o novo nível da taxa básica de juros (taxa Selic) da economia. Em sua última reunião, ocorrida em meados de maio, a autoridade monetária ocasionou certo desconforto, uma vez que acabou se contradizendo ao optar pela manutenção da Selic em 6,50%. Isso ocorreu pois houve sinalização de a possibilidade de redução de juros estava aberta. Foi várias entrevistas na mídia, não só dos membros da diretoria, mas também do próprio presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn.

 

Contudo, tal sinalização ocorrera algumas semanas antes da disparada do dólar e dos preços do petróleo no mercado internacional, fazendo com que na “hora H” o BC recuasse da flexibilização dos juros. Isso, obviamente, despertou sentimentos não muito antigos nos investidores, que passaram a ver com receio a atual administração.

 

Até aí, tudo bem, o BC é a autoridade e faz o que quer. Contudo, o mercado não é idiota. Ao contrário do que muitos acreditam, de que o BC é controlado indiretamente pelos agentes de mercado financista internacional (há muita verborragia sobre o presidente ser um ex-diretor do Itau Unibanco), o mercado financeiro exige, sim, ações do BC para controle macroeconômico, pois em tempos de crise poucos são aqueles que podem ganhar algo, enquanto em tempos de estabilidade, muito mais gente ganha (e isso não é só recursos).

 

As expectativas de mercado para hoje são de manutenção de taxa em 6,50% a.a. para o fim de ano, e indiretamente, atuação do BC no mercado cambial para conter a onda atual de aumento de preços dos itens importados. Esse racional ocorre pois, a pressão inflacionária desta vez vem pelo lado da oferta (greve dos caminhoneiros e aumento dos itens relacionados ao dólar) e, aumento de juros só serve para conter inflação gerada por consumo (lado da demanda), como ocorrido no período de 2010 até 2014 e que o BC vexaminoso no seu controle de metas. Ou seja, Além disso, aumento de juros significa encarecimento dos juros reais, que faz com que investidores optem por manutenção de aplicações financeiras em vez de investimentos em atividade produtiva – leia-se diminuição do crescimento econômico.

 

Em resumo, a ideia é que o choque de preços do dólar deve ser tratada de forma imediata, para que a pressão não encareça os insumos importados em nossa economia. Dólar na economia é exercido no momento, enquanto juros levam creca de 6 a 8 meses para iniciar seus efeitos.

 

Por ora, minha visão é há uma pequena ameaça de inflação ainda nos preços do atacado (preços de produtores) e isso pode ser controlado via câmbio preponderantemente. De outro lado, porém, ainda não se sabe ao certo se o impacto da greve será persistente ou simplesmente um repique. Se for persistente, certamente a inflação será repassada ao consumo final, ainda que os consumidores estejam com baixa propensão de irem às compras. De toda forma, isso não virá ocorrer nesse ano, e como dito, aumento de juros não serão efetivos para este tipo de choque inflacionário.

 

Às 18 horas saberemos se a real intenção do BC, se é ser mais persuasivo na política cambial e assim combater a onda recente de preços, ou se vamos experimentar uma nova alta de juros e, daí ver o que ocorre com o andamento da atividade econômica.

 

 
 





Reféns do monopólio




 

Por Yan Cattani, Economista do Blog Agenda Econômica

yancattani@gmail.com

 

Não deu outra: o manda e desmanda protagonizado pela Presidência e a Fazenda, deixando a Petrobras como mera espectadora deu como resultante o anúncio de saída de seu presidente, realizada nesta última sexta-feira (01/06). A razão da saída não foi por menos: ao aceitar comandar a Petro, Pedro Parente saíra de uma grande empresa multinacional e teve carta-branca do governo para ajustar a empresa, pacto então quebrado pelas diversas concessões feitas pelo Governo aos caminhoneiros grevistas.

 

Em seu posto ficará Ivan Monteiro, nome de apoio do mercado financeiro, antigo diretor da área financeira da empresa, e que sob seu comando deliberou diversas medidas que promoveram prolongamento do prazo das dívidas e venda de ativos, contribuindo para uma rápida melhora da relação contábil, trazendo, inclusive, lucro à empresa, após anos de prejuízos acumulados.

 

O novo presidente da Petrobras deverá agora lidar com um cenário mais parecido com o da época deficitária da empresa, justamente quando os preços eram definidos esporadicamente. A diferença será de ajustes mensais para o preço do diesel e o governo pagará a diferença entre o valor de mercado e o que seria praticado pela estatal (este atrelado ao dólar e mercado internacional de petróleo). Haverá, portanto, além da renúncia fiscal, subsídio direto para o consumo deste bem. Dupla ineficiência e perda social.

 

Em termos econômicos, nos casos de monopólio a literatura afirma que o monopolista decide a quantidade e preço do bem que produzirá para sociedade, uma vez que sendo seu único produtor acabará por definir uma lógica de produção na qual a empresa objetivará maximizar seu lucro. Pois bem, se seu custo oscila de acordo com a dinâmica internacional, seu preço também deveria se alterar. Era mais ou menos o que a Petrobras estava tentando fazer. Contudo, na vida real, toda essa teorização é afetada pela prática, onde impostos, choques externos entre outros efeitos atuam de modo discricionário e acabam tirando em boa parte lucro da empresa, além de sobre onerar consumidores.

 

De todo modo, a empresa deveria atuar sempre desta forma? Confesso que não sei. Entendo que defender a política de preços atrelada ao cenário externo não é uma argumentação que poderá ser válida para sempre. Mas, neste momento, acredito que sim, justamente porque acho que a prioridade do governo é salvar a empresa (e o setor petrolífero, cerca de 20% da indústria total, se não me falha a memória) e dar ânimo à economia, aproveitando do momento que diversos outros preços estão em queda (alimentação tem 25% do peso no IPCA e está rodando abaixo de 3%). É uma questão circunstancial.

 

Por fim, acredito que toda a problemática leva à seguinte questão: queremos ou não queremos uma Petrobras estatal? Se sim, botamos no orçamento (mais um problemão, diga-se de passagem) e a questão da legitimidade da política de preços será resolvida. Se existir má gestão, sucessivos endividamentos por conta desta escolha, não tem problema, foi uma escolha. Agora se não, reparta-se o espólio entre empresas competentes e quem sabe vejamos uma mudança estrutural em nosso país. O que não podemos é ficar reféns de decisões aleatórias, ao bel prazer de quem está neste momento no Governo.



C'est ne pas un huile diesel - Skitterphoto - Pixabay