Bons exemplos reforçam a importância do voto para o cidadão brasileiro

Alguns eleitores enfrentam desafios, mas não abrem mão de exercer a cidadania

Por Thaís Marcolino

Esse é a primeira vez que Bianca vai votar; ela participou da demonstração da urna para se preparar

Cerca de 1,270 milhão de eleitores brasileiros declararam à Justiça Eleitoral algum tipo de dificuldade para o exercício do voto ou relataram que possuem alguma deficiência. Eles fazem parte de um eleitorado que totalizou mais de 156 milhões de pessoas aptas a depositar o voto na urna amanhã. Apesar da dificuldade que podem enfrentar, a importância de colaborar com o futuro do país é maior e muitos deles fazem questão de comparecer às seções eleitorais.

Bianca Amorim de Camargo é portadora de Síndrome de Down e vai votar, este ano, pela primeira vez. Ela acredita que o voto é importante para que a voz do cidadão seja ouvida e assim, colocar as melhores pessoas para governar o país. Preparação e consciência não faltam para Bianca, que já sabe como funciona a urna eletrônica. Ela participou da demonstração que aconteceu, há algumas semanas, em um shopping da região central de Sorocaba. Ela também aproveitou o período que antecede a eleição para entender o regime de governo, as atribuições dos Três Poderes e o que é a Justiça Eleitoral. Ela conseguiu todas essas informações na Cartilha do Jovem Eleitor disponibilizada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Foi superlegal mexer na urna, é tranquilo. E a cartilha é muito boa e ajudou muito para entender em quem eu vou votar”, explicou Bianca.

E no dia da eleição, Bianca sabe o que não pode esquecer. “Vou levar a colinha com os números dos meus candidatos”, contou. “Todos precisam votar e conhecer de verdade as propostas dos candidatos”, disse Bianca ao demonstrar que compreende muito bem que esse é um dos principais exercícios da cidadania.

A jovem de 18 anos faz parte de um grupo de 8.922 eleitores que declararam ter necessidade de algum recurso de acessibilidade para exercer o direito do voto em Sorocaba. Entre eles estão deficientes visuais, de locomoção, auditiva e outros.

Na eleição anterior, em 2020, Magno Barbosa já possuía a deficiência visual, porém não sabia como funcionava e acabou tendo que votar com a ajuda da mãe, porque, apesar de saber braile, não tinha conhecimento dos seus direitos e da existência dos equipamentos de acessibilidade.

O estudante de mentoria judicial, de 33 anos, contou que a demonstração que teve na Associação Sorocabana de Atividades para Deficientes Visuais (ASAC) trouxe a certeza da autonomia na hora do voto. “Não dependerei de ninguém para ficar na cabine comigo e eu terei certeza de que meu voto está indo realmente para o candidato que eu quero”, explicou Magno.

Essa garantia que Magno espera ter assegurada tem relação com as atualizações que a Justiça Eleitoral promovidas para o pleito de domingo. De acordo com o TSE, a sintetização de voz foi aprimorada e, durante o voto, serão falados também os nomes dos suplentes para o cargo de senador e dos vices para os cargos executivos, além da possibilidade de cadastrar um nome fonético, tudo isso para facilitar para o eleitor que apresenta deficiência visual.

Para quem tem algum nível de surdez e necessita de um intérprete de libras, a urna eletrônica fará a apresentação do tradutor da Língua Brasileira de Sinais na tela para indicar os candidatos e respectivos cargos. Para as pessoas com mobilidade reduzida, como cadeirantes, o TSE também prepara escolas e seções eleitorais que possuam rampas e facilitadores para o votante acessar a sala.

Carlos Augusto é funcionário público aposentado e teve sua seção alterada após se tornar cadeirante. Mas o grande problema para ele não é a escola, mas sim o caminho até ela. Morador do Barcelona, a escola em que vota é bem perto de casa, o que possibilitaria ir de cadeira de rodas, porém ruas e calçadas não permitem que isso ocorra. Ele precisa fazer o trajeto de carro para exercer o seu direito de cidadão. “Mesmo com esse problema, jamais deixaria de votar porque acredito que os deveres e direitos andam juntos e se eu não colaboro no processo democrático não poderei cobrar depois”, analisa Carlos Augusto.

Posso entrar com acompanhante?

Mesmo com o aprimoramento da acessibilidade, os eleitores portadores de deficiência ou mobilidade reduzida que necessitarem de um acompanhante na hora da votação poderão ser auxiliados. De acordo com o TSE, para tal benefício será necessária a identificação deste acompanhante diante da mesa e o presidente da seção deverá avaliar a necessidade do auxílio antes de autorizar o ingresso conjunto na cabine de votação.

Sem a obrigatoriedade, mas com disposição

Eleitores de 16 e 17 anos e pessoas com 70 anos ou mais, assim como analfabetos, não tem a obrigatoriedade de votar, segundo a legislação. Contudo, é comum vermos pessoas nessas faixas etárias que acreditam tanto na democracia que não deixam de comparecer nas seções eleitorais durante as eleições para depositarem seus votos.

Em Sorocaba, 5.083 jovens de 16 e 17 anos emitiram o título de eleitor e tem a permissão para votar amanhã (2). Um deles é o estudante Samuel da Veiga e Souza que fará 18 anos em dezembro. Porém, por ter a consciência de ser um período decisivo para a nação, não quis esperar. “São pessoas que representam a nossa voz para o mundo e por isso devem ajudar o povo brasileiro para que possamos progredir e dar um futuro melhor a cada um.”, analisa. O estudante confessa estar ansioso para a experiência que terá amanhã. “Espero que não demore muito e que não faça nada errado porque analisei bem os candidatos desse ano”, comenta.

Por outro lado, Calixto Silva Neto tem 71 anos e faz parte dos 47.750 eleitores que podem optar por não votar mais, mas ele não deseja parar tão cedo de exercer o seu direito de cidadão. “Só tem direito de reclamar quem participar e eu quero deixar pros meus filhos e netos um futuro melhor, por isso eu participo do processo eleitoral sim”, pontua.

O professor universitário tirou o título de eleitor em 1969 e durante todos os anos faltou apenas uma vez em sua seção eleitoral por conta da contaminação da Covid-19, no ano retrasado. Calixto também já participou de outras funções do processo eleitoral, como mesário durante três eleições seguidas na década de 70. “Eu falo do assunto em casa e até em sala de aula. Eles são o presente e o futuro e precisam entender a relevância disso tudo”, finaliza. (Thaís Marcolino)