A Argentina em busca de um salvador

Dois terços da população optaram pela volta da direita ao poder

Por Cruzeiro do Sul

Os resultados das primárias surpreenderam os analistas políticos e deixaram à mostra toda a insatisfação do povo

O futuro da nossa vizinha, Argentina, começou a ser definido no último domingo (13), com a realização das eleições primárias. Como o atual presidente está fora do páreo, depois de liderar um governo que fez a inflação explodir, fica difícil saber os rumos que o país vai tomar.

Os resultados das primárias surpreenderam os analistas políticos e deixaram à mostra toda a insatisfação do povo que gerou personalidades como o papa Francisco, Astor Piazzolla, Diego Maradona e Lionel Messi.

As urnas mostraram que o economista libertário de extrema direita Javier Milei obteve a maior votação das primárias argentinas. Ele vai disputar a Presidência contra a ex-ministra de Segurança, Patricia Bullrich, que encabeça uma coalizão de centro direita, e contra o ministro da Economia do atual governo, Sergio Massa. Pelo perfil dos candidatos consegue-se perceber como está difícil a situação dos nossos vizinhos. O recado foi dado. Resta saber como será interpretado pelas campanhas até o dia da votação definitiva, marcada para 22 de outubro. Um eventual segundo turno está previsto para 19 de novembro.

Nos últimos anos, a Argentina tem sido um país marcado pela crise econômica. A inflação está na casa de 115%, considerando-se os últimos 12 meses. Quatro em cada 10 argentinos vivem na pobreza. E foi esse argumento que Javier Milei usou para conquistar os eleitores. O discurso dele focou no combate à “casta política” que domina o país. Milei prega mudanças profundas, para resgatar o país. Sua retórica acertou em cheio no sentimento de descontentamento do povo e fez com ele recebesse cerca de 30% dos votos.

Os resultados mostram que o eleitorado argentino está muito dividido e o resultado final será uma incógnita. Em seu primeiro discurso após o resultado das primárias, Milei desse que foi possível “construir esta alternativa competitiva que dará fim à casta política parasitária, que rouba, inútil”. “Estamos em condições de vencer a casta no primeiro turno”, acrescentou o político.

Com cerca de 27% dos votos, a aliança governista Unión por la Patria (União pela Pátria), ligada ao peronismo e à família Kirchner, disputará a Presidência com Sergio Massa, um advogado de 51 anos que tem boas relações com diversos atores do poder, sejam empresários, sindicatos, ou com o Fundo Monetário Internacional (FMI). É ele que tem tentado renegociar as dívidas do País, mas, na verdade, só tem trocado o credor. A dívida do país só cresce, e o débito está sendo empurrado para as novas gerações.

Já Patrícia Bullrich, de 67 anos, presidente do Partido Republicano (PRO), de centro-direita, foi a escolhida por 28% dos eleitores. Ela se destacou no embate interno do partido, derrotando o prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, que se comprometeu em apoiá-la.

As eleições de domingo, tiveram a participação de 69% dos mais de 35 milhões de eleitores argentinos. O resultado deixou clara uma forte divisão, com o eleitorado fragmentado em três partes de peso similar. O que se percebe, no entanto, é um forte indicativo de condenar os partidos de esquerda, que governam o país atualmente. Dois terços da população optaram pela volta da direita ao poder.

A voz das urnas mexeu, imediatamente, com a economia argentina. O peso, que há tempos não vive bons momentos, se desvalorizou mais de 18% nas primeiras horas de segunda-feira. Isso é reflexo da principal bandeira do candidato que saiu na frente. Milei defende a extinção da moeda nacional e a dolarização, por completo, da economia do país.

Javier Milei surgiu nesta eleição como um fenômeno inovador, que soube captar a frustração dos eleitores argentinos com o governo, um país à beira de uma convulsão social.

Embora a Argentina seja a terceira maior economia da América Latina e um importante exportador mundial de alimentos, o país sofre com a desorganização e as incertezas criadas pelo governo atual. Sem ter como cumprir um acordo com o FMI para o pagamento de 44 bilhões de dólares (cerca de R$ 216 bilhões, pela cotação atual) a Argentina vive à mingua, torcendo para que surja um salvador que resgate o país do lodo em que se meteu. Para saber o fim dessa história, vamos ter que aguardar as eleições gerais, marcadas para outubro.