ARTIGOS

De reis que não eram reis nem estiveram lá


Edgard Steffen 

Prostrando-se o adoraram; e, abrindo seus tesouros,
entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra.
(Evangelho de Mateus 2:11)
 
Dia de Reis, dia de desmontar árvores de Natal e presépios. Encerra-se o período mágico em que muito se fala de amor, paz, compreensão, solidariedade. Ainda bem que existem os que traduzem suas mensagens em gestos humanitários voltados aos desfavorecidos, desabrigados e desempregados. Esse altruísmo, aliado à simbologia da árvore natalina e à didática do presépio, é grande trincheira a defender o verdadeiro espírito do Natal. Contra o consumismo desenfreado. Nada contra o velho de barba branca e roupa vermelha. Por trás da simpática figura, a necessidade de mover a máquina da produção e comercialização do que se produz. Nossa máquina andou meio emperrada por governos incompetentes e políticos mal intencionados, a serviço de empresários que acreditam no fim como justificativa para os meios. 

São Francisco de Assis (1223) baseado em Lucas (1), criou um presépio vivo como recurso didático para ensinar o povo simples de Greccio (Itália) entender a importância do nascimento de Jesus. Na descrição de Tomaz de Celeno (1229) "A manjedoura que o santo fez era cheia de feno e foram colocadas perto dela um boi e um asno. Acima da manjedoura foi improvisado um altar e nesse cenário ocorreu a missa da meia-noite".

A partir daí, as igrejas começaram a montar presépios e acrescentar figuras em palha, argila, madeira e outros materiais. Para exemplificar, o presépio da Duquesa de Amalfi (Espanha, 1567), contava 116 figuras. O excesso de figurantes contraria a descrição bíblica: o recém-nato, mãe, pai, poucos pastores e, talvez, alguns animais.

Quem introduziu os "reis", não leu ou não entendeu o que está escrito no Evangelho de Mateus (2). Eles não estiveram no presépio de Belém. Não eram reis nem se tem certeza de que fossem apenas três. O texto bíblico não cita números. Sábios (eruditos em astronomia, matemática, astrologia e religião), montados em dromedários, acompanharam uma estrela-guia (fenômeno astronômico?). Talvez tenham vindo da antiga Babilônia (Iraque, hoje). Percorreram mais de 800 km. Rendimento máximo: 25 a 30 km/dia. Tempo de percurso superior a 30 dias. Chegaram a Jerusalém. De lá para Belém (10 km). Da Belém Efrata, tiveram que guiar suas alimárias por mais 130 km até Nazaré da Galileia. "Entrando na casa viram o menino com Maria, sua mãe (3). Adentraram casa, não na estrebaria.

Herodes (da linhagem de Ismael) era tão cruel que um certo Augusto confessou: "Prefiro ser um porco de Herodes que seu filho". Alertado pelos astrólogos da corte, sobre a profecia de Miquéias (4), o rei tentou, mas não conseguiu precisar a data do nascimento do Messias (linhagem de Davi). Temeu perder seu trono. Era tão perverso que ordenou a matança dos inocentes nascidos em Belém, até dois anos.

Muito tempo depois os sábios do oriente, pela tradição, ganharam título de reis e até nomes (5) e lugar de origem.

É certo que não eram reis nem estavam na estrebaria por ocasião do Natal. Com os presentes ao nascituro, demonstraram que reconheceram o Ungido das profecias. Reconhecendo-o Rei dos Reis, presentearam-no com o metal próprio da realeza (ouro que serviu para custear a fuga da família para o Egito). Reconhecendo-o Deus, trouxeram incenso, aromático usado para louvar deuses. Reconhecendo-o homem ofertam-lhe mirra, unguento usado para aliviar feridas e embalsamar corpos.

Pela sabedoria, merecem continuar nos presépios.

1) 2:16 2) Mateus 2:1 a 12 3) Mateus, 2:11 4) Miquéias 5:2 5) Baltazar, Melchior e Gaspar

Fontes de consulta: A Bíblia, anotações de sermão natalino (Revdo. Wagner Bernardi) e de artigo escrito pelo Revdo. Russel N. Chamelin.

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço - edgard.steffen@gmail.com.br



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