SOROCABA E REGIÃO

Decisão de deixar a maquiagem de lado é cada vez mais comum


Enfrentar o mundo de cara limpa é um desafio a que cada vez mais mulheres se propõem. A decisão de deixar a maquiagem de lado -- e a cobertura literal e figurativa que ela fornece -- pode ser provocada pelo desejo de uma vida mais simples, de autoaceitação e até pela busca de uma pele mais saudável. Para a psicóloga e professora doutora -- coordenadora do curso de psicologia da Universidade de Sorocaba (Uniso), Sylvia Labrunetti, "a maquiagem tem várias faces". Para ela, o impacto dos cosméticos na vida das pessoas depende do significado que eles possuem para cada um.


Miriam usa apenas produtos naturais, como o urucum, para se maquiar - EMIDIO MARQUES Miriam usa apenas produtos naturais, como o urucum, para se maquiar - EMIDIO MARQUES


"Foi um processo de libertação e de aceitação", relata a terapeuta e instrutora de ioga, Míriam Bonora dos Santos, de 28 anos, que não usa maquiagem. Ela conta que na infância usava de forma lúdica e na pré-adolescência como uma forma de se afirmar como mais "adulta". Na juventude, passou a se valer dos cosméticos para sair. As olheiras e outros "defeitos" eram alguns dos motivadores. "Usava maquiagem para esconder o que não gostava em mim", conta. Ainda assim, recorda que não era um uso exagerado, o que chegou até a motivar comentários. "Uma amiga do trabalho, me falou "você precisa se arrumar mais" ."

Há cerca de dois anos, passou por um processo de mudanças em sua vida, entre elas o desejo de interromper o consumo de medicamentos, inclusive a pílula anticoncepcional. Durante o processo de ajuste hormonal do organismo, no entanto, espinhas apareceram em seu rosto e passou a usar mais maquiagem para sair. Estudando a ayurveda -- medicina milenar de origem indiana -- passou a encarar a maquiagem de forma diferente. Na ayurveda, recomenda-se passar na pele apenas aquilo que se consome como alimento, uma vez que tudo é absorvido pela derme. Com isso, passou a reduzir o uso da maquiagem e buscar alternativas mais naturais, como opções veganas (não testadas e sem ingredientes de origem animal) e até caseiras.

Ela conta que tentou não se pressionar a uma mudança radical e se permitiu usar o recurso da maquiagem em momentos em que sentia necessário. "Ainda não me sentia confortável no começo em não usar em nenhuma ocasião", recorda. Durante o processo, passou a cuidar mais da beleza de "dentro para fora". "Fui fazendo outros tratamentos, cuidado mais da alimentação, exercícios físicos e fazendo coisas que amava", explica, ressaltando que um dos fatores para a saúde da pele é a saúde emocional. "Percebi que usava muito mais por uma pressão social e que não fazia bem para meu corpo", diz.

Desde março, não usa mais maquiagens e já se desfez de todos os produtos que possuía. O único recurso que ainda usa eventualmente é o urucum, uma semente utilizada pelos indígenas como corante vermelho. Quando encontra um pé e sente-se disposta passa um pouco nos lábios. "Não é mais uma coisa condicionada a uma situação." Hoje, busca a beleza na alegria. "Sinto que para me libertar da maquiagem foi um processo de autoaceitação. De olhar no espelho e falar: eu me amo, me acho bonita assim e não importa se as pessoas queiram que eu seja diferente."


Ana Paula considera maquiagem uma coadjuvante - EMIDIO MARQUES Ana Paula considera maquiagem uma coadjuvante - EMIDIO MARQUES


Para Ana Paula Lopes, de 35 anos, a maquiagem sempre foi uma coadjuvante, usada apenas em alguns momentos. "Não é uma coisa que eu sinta necessidade", conta. A fotógrafa relata que utiliza o recurso em algumas ocasiões, à noite ou em situações formais, mas apenas umas duas vezes por mês. Para ela, os cosméticos -- quando usados -- deveriam apenas valorizar a beleza natural e a essência de cada um. "A maquiagem é para realçar, não para te transformar em outra pessoa", opina.

Ana conta que recentemente se deparou com um vídeo na internet em que uma moça encobria completamente as sardas do rosto, com uma grossa camada de base. Para a fotógrafa, esse tipo de maquiagem não valoriza a essência da pessoa. "Acho tão estranho esconder uma coisa que é tão linda", diz. Outra preocupação de Ana é com a saúde, diante das químicas presentes nos cosméticos, e como as consequências de seu uso frequente. "Normalmente quando uso, tiro para dormir", conta. Ela também dá preferência para marcas de confiança.


Liliam: parece que tira minha identidade - ERICK PINHEIRO Liliam: parece que tira minha identidade - ERICK PINHEIRO


A cuidadora de animais, Liliam Fernanda Gonçalves, 49 anos, relata que não se enxerga com o rosto pintado. "Parece que tira a minha identidade", explica. Ela é adepta apenas de um batom para sair e da proteção solar. Nos raros eventos em que passou maquiagens mais elaboradas conta que não sentiu à vontade ou natural. Ela diz admirar pessoas que sabem fazer belas maquiagens, mas não tem interesse em ter a mesma dedicação. E a opção pela cara limpa não diminui a sua vaidade. "Posso não ser vaidosa na maquiagem, mas posso usar um acessório ou cuidar do cabelo", opina.



Relação depende do estado emocional da pessoa - DIVULGAÇÃO Relação depende do estado emocional da pessoa - DIVULGAÇÃO

Uso pode indicar autocuidado ou esconder carências
Presente em várias culturas, a maquiagem é uma atividade cultural, como explica a psicóloga Sylvia Labrunetti. Utilizada em diversos rituais, para enfeitar o corpo e ainda possui o aspecto lúdico, da expressão artística, da "brincadeira com as cores". Em nossa sociedade moderna, no entanto, serve com frequência para atender ao ideal de beleza ao qual as mulheres sentem pressão para se adequar: pele perfeita, sobrancelhas arqueadas, simulação de um estado de boa saúde, com a cobertura das olheiras e bochechas coradas.
Para a profissional, a maquiagem em si pode ser um recurso saudável ou uma mecanismo prejudicial, tudo depende da maneira como as pessoas se relacionam com ela. "Quando alguém diz que se libertou (da maquiagem), para ela a maquiagem tem uma simbologia de escravidão." Nesse sentido, parar de usar maquiagem seria positivo, deixar de depender de "algo que ela não era". "A gente não pode colocar nada como sendo ruim, sempre são recursos que podemos usar para nosso benefício ou nos tornarmos escravos", pondera a profissional.
A maquiagem como forma de expressão e de autocuidado pode, então, ser benéfica para a autoestima do indivíduo. Os sinais de alerta para uma relação doentia com os cosméticos seriam quando a pessoa deixa que isso atrapalhe compromissos e atividades. Por exemplo, se recusando a sair de casa antes de se maquiar completamente -- mesmo que isso signifique chegar atrasada ao trabalho. " Quando ela não tem uma flexibilidade de pensar "hoje não vai dar certo, não vai dar tempo de me maquiar" ", exemplifica.

A psicóloga ressalta que um comportamento inadequado ocorre não por causa da ferramenta, mas sim da estrutura do indivíduo. "É sinal de que essa pessoa já estava com alguma carência prévia, que ela colocou na maquiagem, mas que se não fosse na maquiagem colocaria em qualquer outra atividade."


Rosa e Karina dizem que a conexão com o próprio corpo é maior quando são usados produtos naturais - EMIDIO MARQUES Rosa e Karina dizem que a conexão com o próprio corpo é maior quando são usados produtos naturais - EMIDIO MARQUES

Produtos naturais podem ser alternativa para cosméticos

A palavra cosmético tem origem no termo "cosmos", que designa o universo e significa organização e beleza. Para a artista pesquisadora Rosa Piva, 23 anos, e a autônoma Karina Werneck, 23 anos, a essência do cosmético é justamente essa. A beleza, porém, é aquela que parte do autocuidado e promove uma conexão com o próprio corpo, elevando a autoestima e a saúde. Com esse princípio, as duas promovem oficinas de cosmetologia natural e criativa, ensinando a produzir as próprias maquiagens.

"A cosmetologia criativa é ter a possibilidade de com coisas do seu cotidiano criar a partir do que o seu corpo está pedindo", explica Karina. A base é a utilização de ingredientes naturais, alimentícios. "A cozinha será o seu principal laboratório", afirma. Com borra de café e argila surge um esfoliante, do urucum e da beterraba vem o batom e o blush avermelhado, e do cacau um bronzeador. Para ela, uma das principais vantagens é a economia, graças ao gasto reduzido dos cosméticos naturais. Outro ponto positivo são as trocas de informações com outras mulheres e estudar o assunto. Karina destaca especialmente "a conexão com o próprio corpo", obtida através do processo. As maquiagens naturais, entretanto, não podem ser guardadas por longos períodos e, em sua maioria, devem ser utilizadas imediatamente.


Cozinha é o principal laboratório para cosméticos naturais - EMIDIO MARQUES Cozinha é o principal laboratório para cosméticos naturais - EMIDIO MARQUES


Rosa acredita que a cosmética natural é uma alternativa para que as mulheres possam se sentir belas, descobrindo a própria beleza, sem precisar necessariamente sustentar a "indústria da beleza". "É usar os recursos que a natureza te oferece para se embelezar", opina. De acordo com elas, as mulheres que fazem as oficinas normalmente estão em busca de conhecimento e amor próprio. "Você ser alquimista da sua própria maquiagem tem muito a ver com autoestima", diz Karina.

As oficinas ocorrem por meio de uma rede chamada Comadrería, que promove oficinas, arte, expressão cultural e ginecologia natural, entre outros assuntos voltados para o resgate da ancestralidade. A página da rede é www.facebook.com/comadreria.

Uso de maquiagem deve ser consciente

As maquiagens podem ser utilizadas com segurança, mas é preciso ter cuidado com uma série de fatores, alerta a dermatologista Ana Paula Barcelos Muzeti Peres. "O uso regular tem que ser consciente", aponta. A profissional explica que o mais importante é pensar no cuidado com a pele, em termos de proteção contra a luz e os raios solares, uma vez que nem todas as maquiagem possuem fator de proteção solar. Outro ponto é utilizar produtos de boa qualidade, dentro do prazo de validade e manter a pele sempre limpa.

A remoção desses cosméticos após o uso, especialmente antes de dormir, seria essencial, já que os produtos vão fechando os poros. Para quem usa maquiagem com frequência descuidar dessa tarefa pode trazer problemas, sendo recomendada a realização de limpezas de pele. "Se não fizer uma boa hiegienização pode ter problemas de pele", afirma.

A atenção aos componentes dos produtos utilizados também deve ser constante, devendo-se evitar aqueles que contém metais pesados, como o chumbo. Há ainda contraindicações para pessoas com alergias. Ela também recomenda cuidado com o compartilhamento de maquiagens, uma vez que facilita a transmissão de bacterias. "O uso por vários pessoas do mesmo produto não é recomendado, pode ter transmissão de doenças como a conjuntivite", explica. Pincéis, rímeis e batons devem ser individuais, para a prevenção de doenças.



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