1 gole, 1 garfada, 1 viagem

Previsão de mau tempo e memória afetiva são pretextos perfeitos para fazer bolinhos de chuva e se deliciar


POR MARCO MERGUIZZO


Alguém já disse por aí, com boa dose de razão, que comida é sobretudo emoção. Por vezes, um prato ou um vinho, mesmo não sendo elaborados com as melhores matérias-primas e tecnicamente serem os mais perfeitos, costumam dar um "clique" em nossas cabeças, brindando não só o paladar mas o nosso espírito e nos fazendo lembrar da infância e daqueles momentos felizes que tivemos à mesa junto de nossas mães, tias e avós, e cujos sabores "celestiais" e temperos "inigualáveis" - pelo menos para nós! - são missão impossível de serem reproduzidos até peloo mais famoso e estrelado dos chefs de cozinhha (#sqn, né?)
 
Essas referências preciosas, inesquecíveis e ternas da nossa memória gustativa ou como esse estilo de linha culinária é classificada mais modernamente - a chamada "cozinha comfort" (ou cozinha confortável, em bom português), "affective cooking" (culinária afetiva), umami (termo de origem japonesa intraduzível que significa "gosto delicioso e agradável") ou, enfim, aquela que satisfaz o paladar e a alma - são valiosíssimas para a formação de nossos gostos e predileções à mesa, sendo a base da construção do nosso paladar, o qual ao longo da vida, servirá de bússola e epígrafe permanentes para outras experiências gastronômicas, sejam elas boas ou más.
 
Algumas receitas passadas de geração em geração, caso dos irresistíveis e afetivos bolinhos de chuva, figuram nessa categoria. Fórmula antiga da culinária caseira, sem ser um bolo, é carinhosamente definido como bolinho. E, embora o nome os restrinjam aos dias de chuva, todo mundo sabe que essas delícias têm passe livre para serem apreciados em qualquer tempo, independente das condições meteorológicas.
 
O quitute também não escolhe idade. Alegra na infância e faz os adultos regressarem a ela em apenas uma mordida. Quando os pingos de massa chiam no óleo quente da panela, todos se aproximam do fogão. Depois de dourados e escorridos, a brincadeira é empanar todos eles em açúcar e canela perfumada.
 
Feitos de forma descomplicada e singela com ingredientes simples e básicos, como farinha, ovo, fermento, açúcar e canela - os bolinhos de chuva, além de satisfazer e saciar o apetite, costumam confortar o paladar e o corpo e, de quebra, acariciam e presenteiam o espírito, quando acompanhados de um café fresquinho coado na hora.
 
PINGOS DE HISTÓRIA: TRADIÇÃO PORTUGUESA ADAPTADA AOS LARES BRASILEIROS


Típica e originária de Portugal, a receita de bolinho de chuva em sua versão original, e cujos registros históricos datam do final do século XVIII, era feita com mandioca ou cará. O trigo era raro e caro, pois era importado de Portugal, e poucas eram as receitas feitas com a "farinha do Reino". A massa apresentava certa semelhança com a do sonho, tradicional na doçaria portuguesa.
 
O folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) faz menção a essa herança culinária em sua célebre obra "História da Alimentação no Brasil". Ele descreve com boa dose de lirismo e de modo poético que "os sonhos ficavam na bandeja cercados pelas ondas de açúcar fino e de canela em pó". A diferença é que tinha recheio.
 
Em compensação, essa delícia dos tempos do Brasil Colônia era elaborada com muitos ovos, açúcar, leite e frita em gordura de porco. Ou seja, o bolinho de chuva, tal qual o conhecemos hoje, só veio décadas mais tarde, com a popularização do trigo em meados do século XIX.
 
Antes disso, tinha muitos nomes para lá de curiosos, como Quero-Mais, Quero-Quero e Desmamados. Porém, a receita jamais teve a pretensão de ser "doce de Sinhá", das senhoras da Casa Grande, nem ter a delicadeza dos complicados pontos de caldas, das massas moldadas durante horas por mãos finas e delicadas.


Ao lado de uma xícara perfumada de chá, o cafezinho tirado na hora é o par perfeito para acompanhar  - Arquivo Ao lado de uma xícara perfumada de chá, o cafezinho tirado na hora é o par perfeito para acompanhar - Arquivo

A vocação do bolinho de chuva sempre foi, portanto, o sabor e o encanto dos olhos das crianças, que ansiavam pela hora em que eles saíam dos tachos dos fogões de lenha, quando eram generosamente polvilhados com açúcar e a canela perfumada.
 
Descontraídos, afetivos, leves, por muito tempo se destinavam a ser um dentre os variados acepipes do "entrudo", ou o carnaval do Brasil Colônia. Eram chamados de "filós de Carnaval", assim, com sotaque português. Historicamente, portanto, os bolinhos de chuva levavam o sabor de mãos escravas nos seus primórdios e, talvez por isso, alguma sinhazinha ciumenta tenha lhes apelidado de forma pejorativa de "bolinhos de negra". 
 
NA MENTE E NO CORAÇÃO DOS PERSONAGENS E DOS FÃS DO SÍTIO DO PICAPAU AMARELO 
 
Da cozinha eles foram parar nos tabuleiros, quentinhos e embalados em folhas de bananeira. Com o tempo, viraram receita popular, com ingredientes sempre à mão. Muitas escravas, inclusive, saíram do anonimato para ligar os seus nomes a essa iguaria caseira, homenagem que atravessou os séculos. Ainda hoje, por sinal, se encontram cadernos de receitas onde eles são chamados de Bolinhos da Negra Ambrósia ou da Negra Marcionila.
 
Eternizada na literatura infanto-juvenil brasileira, a mais famosa "fazedora" e divulgadora dos bolinhos de chuva é certamente a personagem criada pelo escritor - e também um fã declarado da iguaria -, o genial José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948), a bonachona e afetuosa Tia Nastácia. Não há sequer um episódio entre as histórias do Sítio do Picapau Amarelo que não termine com Narizinho, Pedrinho e Emília - a impagável e tagarela boneca de pano - se refestelando com os bolinhos feitos pela cozinheira anciã de mãos de fada e coração e alma de anjo.
 
"Pegou outro, e outro e outro, e comeu a peneirada inteira. Depois me apontou para o fogão num gesto que entendi que era pra fazer mais (...). Acabou completamente manso, esqueceu até a mania de comer gente (...). Pois é, foi o bolinho que me salvou", suspirou a cozinheira depois de ser libertada do labirinto do monstro. Quando lhe pediam para contar o segredo, Tia Nastácia avisava: "Receita, dou; mas a questão não está na receita ¿ está no jeitinho de fazer" (trechos extraídos do livro "À Mesa com Monteiro Lobato", de Márcia Camargos e Vladimir Sacchetta (Editora Senac, 2008).


Tia Nastácia: cozinheira de mão cheia e a mais famosa Tia Nastácia: cozinheira de mão cheia e a mais famosa "fazedora" de bolinhos de chuva da literatura brasileira - Arquivo

Com todas essas saborosas referências somadas à previsão de pancadas de chuva contínuas durante os 31 dias de janeiro (veja o tempo que vai fazer em Sorocaba e região, clicando agora mesmo aqui), aproveite essa deixa para se deliciar com o quitute nestes primeiros dias e semanas chuvosos do ano. E que, oxalá, as águas de janeiro possam "lavar" os espíritos, o duro ano de 2017 e as incertezas destes novos tempos que acabam de ter início.
 
Além da versão original, confira, a seguir, as receitas da Tia Nastácia, eternizada por Monteiro Lobato em O Sítio do Picapau Amarelo, e uma mais atual e contemporânea que leva recheio de doce de leite. Agora, é só torcer para chover logo, reviver boas lembranças e o gosto da infância, fazendo e devorando uma leva irresistível de bolinhos. Como diz a canção de Jorge Ben Jor, "chove chuva, chove sem parar!"
 
BOLINHOS DE CHUVA DA TIA NASTÁCIA 
 
 INGREDIENTES
 
2 xícaras (chá) de farinha de trigo. 3 colheres (sopa) de açúcar. 1 pitada de sal. 1 colher (sopa) de fermento em pó. 2 colheres (sopa) de leite. 1 colher (sopa) de manteiga. 3 ovos. 1 colher (sopa) de queijo parmesão ralado. Erva-doce a gosto. Óleo para fritar. Açúcar e canela em pó para polvilhar.
 
PREPARO
 
1. Misture a manteiga, o açúcar e acrescente os ovos um a um. 2. A seguir, coloque aos poucos o trigo já peneirado com o fermento e misture. 3. Acrescente o sal, a erva-doce, o queijo ralado e mexa mais um pouco. 4. Frite em fogo baixo (mas com o óleo já bem quente), pingando aos poucos com colher (chá). 5. Retire-os e disponha-os sobre papel absorvente. 6. Salpique com açúcar e canela e sirva com um café coado na hora ou uma xícara de chá de sua preferência. 
 
BOLINHOS DE CHUVA (RECEITA TRADICIONAL COM AÇÚCAR E CANELA) 
 
 INGREDIENTES 
 
 ½ xícara de farinha. 1 ovo. 1 colher de café de fermento em pó. ½ xícara de leite. ½ xícara de açúcar. Canela a gosto. 
 
PREPARO
 
Misture todos os ingredientes e frite os bolinhos no óleo em óleo bem quente. Dica: frite os bolinhos em fogo baixo, pois assim fritam por igual e não ficam crus por dentro. 
 
BOLINHOS DE CHUVA COM DOCE DE LEITE 
 
 Para o bolinho de chuva, faça o mesmo procedeimento como o descrito na receita acima.
 
Para o recheio de doce de leite
 
1 pote de doce de leite de boa qualidade. Aqueça o doce de leite no microondas ou em banho maria, se o doce não for cremoso, adicione ½ xícara de creme de leite e mexa bem. Depois de fritos, faça uma pequena cavidade em cada bolinho, recheie com o doce e salpique açúcar e canela. Sirva a seguir.
 
 
(*) MARCO MERGUIZZO é jornalista especializado em gastronomia, vinhos, turismo e estilo de vida. Confira outras novidades no Instagram, acessando @blog1gole1garfada1viagem ou clique aqui e vá dirteo para a página do blog no Facebook. 


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