EDITORIAL

A fé e a paciência


De uma maneira crescente, assim como começou a trágica Primavera Árabe há sete anos, surgiu uma grande onda de protestos no Irã, o país dos aiatolás, um processo com grande potencial de crescimento e que deverá marcar com violência este início de ano. Não se sabe ao certo, mesmo porque o número cresce rapidamente, mas pelo menos 20 pessoas já foram mortas nos enfrentamentos de rua que começaram com grupos de homens jovens que pediam a derrubada do regime e engrossados nos últimos dias por mulheres e estudantes. Centenas de pessoas já foram presas. Os protestos começaram na cidade de Mashhad, a princípio contra o aumento de preços e corrupção no governo, mas agora já pedem o afastamento ou a morte do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei. O movimento foi se ampliando para cidades médias, se espalhou por comunidades menores e agora chegou à capital, Teerã, onde é forte a presença da Guarda Revolucionária Islâmica. Essa milícia, um braço do exército, foi criada logo após a revolução de 1979 para defender a República Islâmica recém-implantada no país e a partir de então tornou-se uma das principais forças da vida política, econômica e militar do Irã, assim como as forças armadas. A Guarda Revolucionária controla ainda uma milícia voluntária da qual fazem parte milhares de pessoas.

As manifestações, ao que parece, surgiram de maneira espontânea, fruto do descontentamento da população e não têm lideranças conhecidas, uma vez que as principais figuras oposicionistas do Irã foram silenciadas ou mandadas para o exílio. Sem identificar lideranças, o governo atribui a forças externas o incentivo à revolta.

De acordo com dados disponíveis, a crise econômica é bastante grave no país. Seus cidadãos ficaram 15% mais pobres nos últimos dez anos e as dificuldades econômicas só pioram. É senso comum que o sentimento da população é de descrédito com o regime, uma vez que a República Islâmica foi implantada há praticamente 40 anos e até agora a população passa por privações. Desde a Revolução dos Aiatolás, em 1979, o País passou por dificuldades em decorrência dos oito anos da guerra contra o Iraque, nos anos 1980, e as sanções internacionais contra a política de desenvolvimento nuclear do país, que só se abrandaram parcialmente a partir de 2015. A taxa oficial de desemprego é de 12,4%, mas supera os 60% em algumas partes do país segundo o próprio governo e os jovens são os principais atingidos.

As manifestações dos últimos dias já podem ser consideradas as maiores contra o regime desde 2009, quando foram realizados comícios pedindo reformas no país. Os manifestantes, de maneira geral, reclamam da queda no padrão de vida do país nos últimos anos. Eles estão nas ruas desde a última quinta-feira. O guia supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, que ainda não havia se manifestado sobre a situação, rompeu ontem seu silêncio sobre a onda de protestos e afirmou que os distúrbios são orquestrados pelos inimigos do país. O presidente Hassan Rouhani prometeu combater os "baderneiros e criminosos" e demais autoridades apontam grupos baseados no exterior, principalmente nos Estados Unidos e Arábia Saudita, como responsáveis pela tentativa de desestabilizar o regime.

Enquanto Donald Trump declara apoio aos manifestantes, a União Europeia e vários países isoladamente pedem cautela e menos violência para as autoridades iranianas. Se as manifestações continuarem a ganhar corpo, sem lideranças identificadas, é difícil saber onde poderão parar, mas uma coisa é certa, a repressão e a violência oficial serão proporcionais. O que vem chamando a atenção dos observadores internacionais é o fato de manifestações surgirem espontaneamente em um regime fechado e repressivo como o iraniano. É um indicativo importante do grau de descontentamento da população diante do aumento da pobreza.



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