ARTIGOS

No apagar das luzes


Edgard Steffen

Não se assuste com o título, meu caro leitor. Prometo não cometer o lugar-comum e escrever "no apagar das luzes deste velho ano" nem desejarei "o próspero Ano Novo" dos obsoletos cartões de boas festas. Preguiçoso e meio cansado pela azáfama das festas dezembrinas, ando ancorado na poltrona do papai controle remoto em riste a procura de shows que vençam a sonolência. Difícil encontrá-los. Porque não consigo ouvir beleza nem entender funk, rap, sertanejo, eletrônica, rock, hip-hop, gospel (para consumo e faturamento) nem aprecio interpretações rebuscadas de qualquer gênero nos videoclipes. Se você gosta, tudo bem. Gosto não se discute, eu diria (...) se a frase não fosse lugar-comum. Por idoso, confesso-me ultrapassado. Sou do tempo em que cantores e cantoras apresentavam-se em trajes de gala e cantavam sem rebolados frente aos microfones da época.

Para cumprir nosso sabatino encontro, procuro algum texto que escrevi há vários anos. Reedito-o.

"Eu tenho um sonho!" O grito de Martin Luther King Jr. ecoou da escadaria do Lincoln Memorial (Washington, DC) e ganhou o mundo. Mostrou que havia gente pacífica inconformada com a iniquidade do racismo. Num dos seus parágrafos mais contundentes, dizia: "Eu tenho um sonho que meus quatro filhos viverão um dia numa Nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter". Esse sonho de justiça sobreviveu ao tiro que viria matar o grande pastor negro. Detonou leis injustas que separavam homens pela cor. Se ainda existe racismo naquele país, você o encontrará no imperfeito ser humano, não nas leis que garantem direitos civis. O sonho desse grande pastor foi realizado.

"Às vezes é preciso sonhar!... Comparar nossos sonhos com a realidade para encontrarmos formas de realizá-los. (...) Sonhos! Acreditemos neles!". Essas palavras foram de Lenin perante o Politburo. O sonho dele era substituir a monarquia totalitária e corrupta por um governo comunista em nome da paz e da justiça social. Teve a luta interrompida por derrame cerebral, e a sucessão entregue ao sanguinário Joseph Stalin. Este consolidou o regime com matança de milhões de adversários e correligionários. Amigos, inclusive. Atingiu grande poder, mas negou ao povo cultuar o Poder Maior. Substituiu-o pelo materialismo dialético oficial. A liberdade de culto voltaria pelas mãos de um homem cuja mãe manteve sua fé cristã (católica ortodoxa). A criação familiar de Gorbatchev teve tanta influência quanto a debacle econômica que rasgaria a Cortina de Ferro e derrubaria o Muro de Berlin.

Bala da arma de psicopata, tirou a vida do jovem John Lennon. O beattle convidava o povo a sonhar com um mundo mais pacífico e menos injusto. "Imagine que não exista nenhum país (...) também nenhuma religião". (...) "Nada por que matar ou morrer (...) Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz". Por nenhuma religião entenda-se inexistência de estruturas, ritos e doutrinas a separar homens e gerar conflitos. A contundente frase pode ser entendida como moderna versão da promessa de "um só rebanho e um só pastor". A História é prenhe de sangrentos episódios e guerras que se fizeram em nome de Deus ou de Alá; se esquecêssemos as Cruzadas, a Inquisição ou a Noite de São Bartolomeu ainda teríamos exemplos recentíssimos do 11 de setembro, das bombas "inteligentes", dos atentados terroristas, do fratricídio sírio.

O profeta Joel predisse "Os velhos sonharão e os moços terão visões", afirmação que voltaria citada por Pedro no discurso do Pentecostes*. O importante é que sonhos como objetivo ou esperança devem ser sonhados.

Bons sonhos a todos neste 2018. Meus votos são de que nossos votos não elejam "salvadores da Pátria". Sonho que escorracemos de vez tanto os corruptos que andam pilhando nosso sofrido Brasil, como os espertalhões que dizem não ser donos de nada.

(*) Joel 2:28 e Atos 2: 1 a 36, respectivamente

Dezembro de 2017

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço - edgard.steffen@gmail.com



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