ARTIGOS

A internet das coisas, até que ponto é das coisas?

Paulo Celso da Silva

A sigla em inglês IoT (Internet of Things) surge como uma realidade na qual conexão e objetos estão imbricados e indicam, cada vez mais, a importância da relação entre pessoas e objetos.

No cotidiano, os aparatos de comunicação (smartphones, tabletes, computadores) trazem uma gama de opções, por meio de aplicativos que oferecem possibilidades de controle e conhecimento do que nos rodeia, por exemplo: podemos controlar a pressão arterial e os batimentos cardíacos quando corremos; em outro momento podemos escolher a melhor rota no trânsito. Quando viajamos, câmeras de segurança enviam imagens de nossa casa para o smartphone.

Talvez seja estranho um eletrodoméstico estar conectado em rede. Porém, como já aconteceu com os telefones, hoje o smartphone é mais do que o aparelho revolucionário que Graham Bell inventou no século 19. Assim, também com os eletrodomésticos, em breve todos serão IoT. Também não serão apenas geladeiras, fogões ou liquidificadores, mas bases e bancos de dados nos quais nossas preferências, necessidades e discordâncias conectarão com outros na busca de soluções mais práticas e lógicas. Evidentemente, nem as soluções são mágicas e nem a lógica do programa é mais eficiente que nosso pensamento criativo e, algumas vezes, ilógico. Alguns problemas ainda nem sabemos que existirão...

Bancos de dados e conexões são importantes avanços e estão sempre em desenvolvimento. Cabe perguntar: até que momento a Internet das coisas pertence às coisas? Isto porque não somos coisas e, se máquinas conectam, humanos comunicam. Nesse sentido é que podemos falar e pensar e nomear como soluções inteligentes. É o caso dos telefones, cidades, cidadãos, governos, todos eles podem ser classificados como smartphones, smartcities, smartcitizens, smartgovern, respectivamente. Em todos esses processos, temos uma plataforma na qual participam pessoas, e dados e conhecimento são oferecidos com o objetivo de aprimorar e melhorar coletivamente o cotidiano e, assim, gerar, como consequência, possibilidades de melhoria da qualidade de vida.

O desafio humano da Internet das Coisas reside mais na forma coletiva e distribuída de fazer as coisas do que, necessariamente, do aprimoramento tecnológico. Dessa forma, passamos de uma educação para o trabalho e a vida que era -- ainda o é! -- individualista, competitiva e utilitária, visando resultados a curto prazo, para um outro paradigma -- também nada novo -- de uma educação que prioriza o coletivo, a não disputa (a cultura da paz, como muitas vezes é chamada) e não utilitarista, ou seja, as coisas não precisam servir para a vida prática como única forma de pensar e ver o mundo, o deleite estético com um pôr do sol, por exemplo, deve ser tão valorizado quanto uma descoberta científica ou tecnológica.

Será que, como uma sociedade urbana e pós-industrial, estaríamos retomando a possibilidade de nos dedicarmos a nós mesmos e aos valores da humanidade, ao invés de dedicarmos tanto de nosso tempo para a acumulação do capital? Não foi isso que Karl Marx sugeriu no século 19, quando analisou que as máquinas iriam fazer o trabalho braçal e nós poderíamos ficar com o trabalho criativo? A história urbana e industrial estaria nos brindando com outra chance de desenvolvimento e progresso não lineares e a qualquer preço?

Como o futuro sempre é projeto, a maneira como vamos compor socialmente tal projeto é que nos dará as respostas. As possibilidades estão postas, temos gerações mais velhas para nos basearmos, temos gerações mais novas para apostarmos e temos a geração atual para compactuar com as demais visando o aproveitamento do conhecimento de tantas pessoas, todas importantes para o projeto chamado futuro.

Paulo Celso da Silva é professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Uniso. Membro do grupo de pesquisa Mídias, Cidades e Práticas Socioculturais (MidCid). E-mail: paulo.silva@prof.uniso.br



comments powered by Disqus