OUTRO OLHAR

Assombrações assustadas

Carlos Araújo
carlos.araujo@jcruzeiro.com.br




Para frustração de uns e alívio de outros, nem sempre as almas penadas apareciam. Às vezes se manifestavam por meio de sinais: assobios, passos, trotes, sorrisos, galhos quebrados, chamados

Nas décadas de 1960 e 1970, época da minha infância e adolescência, eu ouvia muitas histórias de assombrações na família e esse clima de mistério me deixava impressionado. As almas do outro mundo faziam parte da minha galeria de medos.

Meus pais, os avós paternos e maternos, os tios, todos tinham histórias de fantasmas vividas ou apenas captadas de terceiros e usadas como recheio em rodas de conversas familiares.

Os cenários das histórias mal-assombradas eram sempre desertos. Localizavam-se habitualmente em áreas de matas. Alguns relatos descreviam casas de farinha sombreadas por grandes árvores. Quem passasse à distância podia deparar com vultos que espreitavam atrás de portas arruinadas pelos cupins.

Para frustração de uns e alívio de outros, nem sempre as almas penadas apareciam. Às vezes se manifestavam por meio de sinais: assobios, passos, trotes, sorrisos, galhos quebrados, chamados.

Houve um tempo em que eu vivi no bairro do Nobre, na cidade de Paulista, Pernambuco. Morei em duas casas e frequentava diariamente a residência de minha avó materna. Eram casas com espaços amplos, antigas. Tinham abrigado muita gente morta. Outras tinham sido palco de assassinatos. Os ambientes tinham o peso do clima sombrio das histórias. Quem contava os casos garantia que essas moradias eram mal-assombradas.

Numa dessas casas, eu tinha 10 anos e dormia numa rede instalada numa sala vazia, sem móveis. Acreditava-se que de madrugada uma alma penada podia se postar diante da rede e balançá-la. Só de imaginar essa possibilidade eu me comprimia na rede, como um ser petrificado, sem mexer o corpo. Atento à aproximação de qualquer coisa que pudesse parecer um vulto, eu demorava a dormir. Eram noites sofridas, marcadas por grande tensão.

Mais tarde, já na zona norte de São Paulo, morávamos de aluguel (eu, meus pais e minha irmã) numa casa que tinha sido o local de um assassinato. A vítima era o antigo proprietário. As roupas sujas de sangue eram guardadas num armário do banheiro, que ficava do lado de fora, no quintal.

Minha mãe jurava que algumas vezes se surpreendia com ruídos de tosses que vinham do banheiro e pareciam tomar a direção dos fundos da casa. Evangélica, nessas horas ela fazia orações e entoava hinos ensaiados nos cultos, como forma de solicitar a proteção divina e exorcizar os medos.

Meu pai tinha know-how de assombrações. Ele morava em Pernambuco na década de 1950. Tinha o hábito de andar muito a pé e fazia longos percursos à noite, movido por compromissos de trabalho ou pelo encanto de namoradas.

Uma noite, num local deserto, se deparou com o vulto de um homem na beira de uma estrada. A figura estava parada, de costas, olhando para o mato, para o nada. Meu pai, sem frear o passo, cumprimentou aquele ser com um "boa noite" e não houve resposta. Um calafrio o estremeceu e, sem olhar para trás, apressou o passo, quase correndo.

No início da década de 1970, desta vez na cidade de Jandira, na Grande São Paulo, outro vulto atravessou o caminho do meu pai. Também alta noite, ele vinha da estação de trem do Sagrado Coração e ia para casa, na Vila Analândia. De repente, o vulto de um velho de cabelos revoltos surgiu na sua frente. O incrível era que a figura tinha pernas curtas, desproporcionais em relação ao corpo e em comparação com a velocidade do deslocamento. Movimentava-se com rapidez incomum e desapareceu numa curva. Meu pai sentiu muito medo, embora tentasse disfarçar o desequilíbrio quando relatou o caso.

Por falar nisso, tantas histórias vividas o levaram a elaborar um receituário próprio para se relacionar com o mundo das assombrações nos momentos de grande tensão:

- Não olhe nunca para trás, porque senão você se assombra. Não responda se ouvir uma voz chamando o seu nome, mesmo que seja a voz de alguém conhecido. Não tenha dúvida do sobrenatural, se sentir cheiro de flores num local sem nenhuma vegetação.

Meus avós, meu pai e alguns tios já morreram. Eram outros tempos, outras histórias.

Agora, nesse mundo perigoso, as coisas mudaram totalmente. Nos últimos anos, as almas penadas desapareceram das histórias. Deve ser porque na atualidade, ao contrário de antigamente, são as assombrações que têm medo dos vivos.



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