ARTIGOS

O uso indiscriminado de vitamina A

Mário Cândido de Oliveira Gomes

Se você é viciado em vitaminas, tome cuidado. O uso indiscriminado destas substâncias, aparentemente inócuas, pode trazer sérias complicações. Entre nós, apesar da ausência de dados objetivos sobre a utilização de suplementos vitamínicos, sabe-se que seu uso é generalizado, sendo utilizado na forma empírica de tratamento ou reposição. Nos países desenvolvidos, 25% da população fazem uso desses produtos. Em relação à vitamina A. somente nos EUA, 5% dos adultos utilizam o retinol.

As necessidades diárias de vitamina A foram estabelecidas em 1989, sendo expressas em microgramas (mcg) ou equivalentes de retinol (ER). Todavia, ainda é desconhecida a quantidade ideal de ingestão diária. Para os lactentes, os teores estão relacionados às quantidades existentes no leite materno, que são de 65 a 70UL (19 a 20 mcg/dl). Na mulher (800 a 2.600), no homem (1.000 a 3.300) e nas crianças (400 a 2.300). O nível de vitamina A no sangue é de 360 a 1.200 ug/L.

A mencionada vitamina é obtida dos carotenos, que são pigmentos encontrados na cenoura, tomate, etc. Dentro do organismo são transformados em retinol e ésteres de retinil. O B-caroteno é responsável pela pigmentação amarela das palmas das mãos e planta dos pés, podendo ser acompanhado de diabetes ou de disfunção da glândula tireóide. A toxicidade dos carotenóides é baixa, sendo o acúmulo na pele perfeitamente reversível após a suspensão.

A hipervitaminose A ocorre em pacientes portadores de insuficiência renal crônica, principalmente quando administrada de forma ininterrupta por meses. Em adultos provoca dores de cabeça, aumento da pressão craniana, cansaço, sonolência e náuseas. A superdosagem por longos períodos também causa fadiga, perda de apetite, descamação da pele, queda de cabelo, irritabilidade, coceira, aumento do fígado, inchaço da pupila dos olhos, visão dupla e dores intensas nos ossos e articulações.

Em crianças ocorre aumento da pressão dentro do crânio, calcificação e soldaduras precoces dos ossos longos, paralisando o crescimento. Todavia, o que mais preocupa são as malformações congênitas associadas à ingestão de doses diárias elevadas (20 mil unidades) pela gestante. Dentre as alterações do feto citam-se: deformidades do crânio, da face e do cérebro, defeitos do coração e do timo (queda da imunidade). Calcula-se que 1/57 malformações de recém-nascidos decorre de excesso dessa vitamina. Principalmente quando a gestante faz uso de altas doses (acima de 10 mil unidades/dia) antes da sétima semana. Portanto, os riscos são de 2.6 a 4.8 vezes maiores na dependência da dose. As altas concentrações também provocam aumentos na produção de colesterol, levando à aterosclerose, assim como hipercalcemia, principalmente, se associada ao uso de vitamina D.

Contudo, o excesso de vitamina E protege a hipervitaminose A. Por outro lado, a falta de vitamina A também provoca enfermidades. Assim, na criança levam aos distúrbios de crescimento e do esqueleto, alterações da parede do intestino, secura nos olhos e maior propensão para infecções respiratórias. Em adultos o sintoma mais comum é a deficiência de visão noturna. O organismo do homem é uma máquina perfeitamente ajustada e azeitada para receber os nutrientes necessários para seu funcionamento e manutenção. Mas existe um limite de aproveitamento. Os excessos são eliminados pelo fígado e rins sem provocar lesões ou enfermidades. Porém, em algumas circunstâncias, a intoxicação por doses altas acarreta problemas graves, mostrando ao consumidor que mesmo substâncias aparentemente inócuas, podem causar efeitos destruidores e até mortais. Por isso, como tudo na vida, é preciso sabedoria e moderação.

Artigo extraído do livro Doenças - Conhecer para prevenir (Ottoni Editora), de autoria do médico Mário Cândido de Oliveira Gomes, falecido aos 77 anos, no dia 6 de junho de 2013.



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