Na Mochila

Por que a primeira hora após o nascimento é determinante para o resto da vida?


Quando fui convidada para integrar o time de blogueiros do Jornal Cruzeiro do Sul, fiquei pensando sobre qual tema teria grande importância para inaugurar este espaço. E já que estamos começando um novo projeto, nada melhor do que falar sobre o começo da vida: a “Golden Hour”, que é a primeira hora após o nascer – e a mais importante do resto das nossas vidas. 
 
Como jornalista, mãe e nessa minha jornada de aprimorar meus conhecimentos em Primeira Infância, que vai do nascimento até os seis anos de idade, confesso que aprender sobre a Golden Hour foi o que aconteceu de mais impactante nesta minha carreira. E quero compartilhar com você.
 
O que todo mundo precisa saber – e esse "todo mundo" não é uma figura de linguagem – é que a primeira hora de vida do bebê é um dos momentos mais determinantes para a construção de uma vida saudável. Isso quer dizer que tudo o que acontece nos primeiros 60 minutos após a criança sair do conforto do útero vai ser a base para todo o resto da sua vida.
 
Michel Odent, famoso obstetra francês e um dos nomes mais respeitados do mundo, afirma que a “descoberta científica mais importante da segunda parte do século XX, na década de 70, foi a de que o bebê necessita de sua mãe”. Ele explica que durante milhares de anos, mães e recém-nascidos foram separados, como efeito de crenças. Arrisco afirmar que 100% dos leitores dessa coluna passaram por isso. Ao nascer, cortaram imediatamente o seu cordão umbilical, te entregaram para uma enfermeira ou outra pessoa, te deram banho, vestiram e só depois de feitos todos os procedimentos “necessários” para o seu bem-estar, te devolveram para a sua mãe, que passou por outros procedimentos “adequados” para recuperar-se do parto normal ou da cesárea.
 
É óbvio que em algum momento da história humana a coisa não se dava desta forma, mas com a evolução da razão foram criados procedimentos para “melhor cuidar” da mãe e do bebê. O fato é que felizmente tudo está em um processo de eterna evolução, e a ciência acabou entendendo, por meio de experimentos e observações de mamíferos, que o bebê precisa ter o contato imediato com o corpo da mãe – e que todas as demais interferências podem esperar. Quando o bebê é separado da mãe e passa por procedimentos muitas vezes desnecessários e estressantes logo nos primeiros momentos da vida, ele já vivencia uma sensação de abandono, medo e violência.
 
Então, o que fazer para que esse novo ser vivencie a sua “Hora de Ouro”? Simples: deixá-lo em contato com a pele da mãe imediatamente ao nascer. Quais as vantagens disso? São muitas, mas vou citar quatro grandes benefícios:
 
O equilíbrio da temperatura é fundamental para mãe e filho.  Enquanto está no útero, o bebê está aquecido a aproximadamente 35 ou 36 graus. Ao nascer, ele sofre um choque ao se deparar com uma queda de temperatura abaixo de 26°C. É a mesma sensação desagradável que sentimos ao sair do banho quente e não nos enxugamos. Então, quando o bebê é imediatamente colocado no corpo da mãe, ocorre uma troca de calor e juntos eles vão equilibrar a temperatura. Com o esforço do parto, a mulher tem sua temperatura elevada, então essa troca beneficia a ambos.
 
O clampeamento tardio do cordão umbilical  foi a minha mais deliciosa descoberta. É até óbvia, mas ainda hoje a maioria dos bebês tem o cordão cortado imediatamente ao sair do útero, o que não é legal. Sabe por quê? Enquanto está no útero, o bebê recebe o oxigênio da placenta. Ao sair, ele precisa aprender a respirar pelos pulmões, mas isso não é imediato. Ele precisa de uma readaptação dos sistemas circulatório e pulmonar para começar a respirar. Então, é extremamente importante que o bebê receba o oxigênio da placenta, através do cordão umbilical. Se o corte for imediato, isso acaba privando o bebê de receber uma quantidade de sangue que poderia levar mais oxigênio para seus órgãos e tecidos, para reforçar os depósitos de ferros e na transição das células-tronco presentes no cordão. O ideal é que o bebê encontre aconchego no corpo da mãe e que o cordão só seja clampeado quando terminar de pulsar. Em bebês prematuros, esse procedimento reduz o risco de hemorragia cerebral.
 
A primeira mamada também tem que acontecer nessa primeira hora. Isso porque é um momento em que o bebê está ativo e prontinho para a sucção. Aquela onda de hormônios liberada pela mãe durante o parto, principalmente a alta produção da ocitocina (ou hormônio do amor), favorece o primeiro contato entre mãe e bebê e estimula a amamentação. A criança, em contato com a pele da mãe, tem o instinto de buscar sozinha pela mama. “É só ter calma e deixar que isso aconteça naturalmente. É um desfecho do parto”, afirma um dos melhores pediatras que eu já entrevistei, o Dr. Ricardo Chaves, professor da UERJ. Outro pediatra sensacional, e este é de Sorocaba (SP), diz que a amamentação nesses primeiros minutos vai além das necessidades nutricionais. “Traz proteção e segurança neste momento mais difícil e importante do ser humano, o nascimento”, afirma Rodrigo Zukauska.
 
A formação do sistema imunológico do bebê é outra informação que mudou minha forma de entender o nascimento. Ao nascer, o bebê é estéril e nesses primeiros minutos ele se “contamina” com as bactérias da mãe e assim forma a sua microbiota (lá no intestino – mas isso será tema de outro post). Por isso, o contato pele-a-pele é tão importante, mesmo que ele tenha nascido via cesárea. O colostro também é fundamental para a formação da microbiota. Se todo esse processo acontecer naturalmente, a criança será menos propensa a desenvolver diabetes tipo 2 ou obesidade, até mesmo na vida adulta.
 
Além desses benefícios que serão determinantes para o futuro do bebê, esses primeiros minutos de contato pele-a-pele entre mãe e filho constroem o vínculo afetivo, traz vantagens biológicas e fisiológicas para a mãe após o parto, diminui o sangramento, aumenta a produção do leite e da ocitocina, diminui a mortalidade materna, entre outros fatores.
 
Infelizmente, quando meus filhos nasceram (tenho uma menina de 15 anos e um menino de 12) eu não tinha o menor conhecimento sobre a importância da primeira infância, sobre esses cuidados tão essenciais, sobre esse começo ser tão determinante. Então, por que eu gosto de falar sobre isso? Para contribuir para que as futuras mamães, as futuras gerações, a minha filha e suas amigas possam exigir ou proporcionar um nascer melhor para seus filhos. Afinal, temos que evoluir sempre!  
 

“Não existe nada a perder, e muito a ganhar, ao deixarmos a mãe
e sua criança se descobrirem à sua vontade” (Michel Odent) 


 
Por Lucy De Miguel, jornalista especializada em primeira infância e autora do blog Na Mochila.
lu@namochila.com



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