EDITORIAL

Transporte em crise


O Brasil assistiu nos últimos anos a uma queda acentuada no uso do transporte coletivo. O fenômeno atinge desde cidades de grande porte até médias, como Sorocaba, e intriga muitas autoridades que esperavam o aumento do número de viagens no transporte público -- teoricamente mais barato -- em relação ao uso do transporte individual, muito mais dispendioso. A queda de usuários, entretanto, é uma realidade, como mostrou reportagem publicada pelo Cruzeiro do Sul no último domingo. De 2011 para cá houve uma queda no número de passageiros pagantes em Sorocaba da ordem de 19,5%. A menor procura pelo transporte público afetou a qualidade do serviço e hoje os usuários têm 462 horários a menos de viagens em relação a seis anos atrás. De 4.356 horários diários naquele ano, hoje temos 3.894. A queda no número de opções de horários leva aqueles que usam ônibus a reclamar pela espera nos pontos de ônibus. A queda na demanda também faz com que as autoridades pensem duas vezes antes de investir no sistema.

A queda de passageiros de ônibus não é um fenômeno local. De acordo com levantamento da Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano (NTU), os sistemas de transporte perderam, em média, 14,2 milhões de passageiros por mês entre 2014 e 2015, quando começou a crise econômica. Curitiba, considerada padrão para o transporte coletivo e inspiradora para vários municípios, foi a cidade mais afetada com a perda de passageiros. Além do fator crise, que provoca o desemprego, queda nas vendas do comércio e na atividade econômica em geral, produzindo menos deslocamentos de pessoas, há outros fatores importantes. A queda no investimento no transporte coletivo, o espaçamento maior de horários, a qualidade dos ônibus e o pouco conforto por eles oferecidos, levou muitos passageiros a migrarem para outro tipo de transporte. Desempregados e pessoas de baixa renda deixaram de ter dinheiro suficiente para o transporte e passaram a se locomover a pé ou por outros meios, como bicicletas. Quem tem um pouco de poder aquisitivo, principalmente entre os mais jovens, optou pela compra de uma moto de baixa cilindrada. Mesmo financiada e somando-se a isso o custo do combustível, o deslocamento de moto fica muito mais barato que de ônibus na maioria das situações. Mesmo o uso de um automóvel no deslocamento diário, dependendo do itinerário, também fica mais barato para o usuário. Recentemente tivemos a chegada dos aplicativos de transporte, como Uber e 99, que oferecem transporte individual de qualidade por preços mais baixos.

Um trabalho interessante, a 11ª edição da Pesquisa de Mobilidade Urbana, realizada há três meses pela Rede Nossa São Paulo, em parceria com o Ibope, constatou que 80% dos moradores de São Paulo que utilizam o automóvel em seus deslocamentos responderam "com certeza" e "muito provavelmente" quando perguntados se deixariam o carro em casa se tivessem melhor alternativa de transporte. A pesquisa revelou que embora o maior número de deslocamentos na cidade de São Paulo seja feita por ônibus, a adesão está longe de significar satisfação dos usuários. O principal problema é a lotação (23%), seguido pelo preço da tarifa (20%) e segurança com relação a furtos e roubos (11%).

O transporte coletivo precisa ser reavaliado, pois é um serviço social e eixo principal de toda mobilidade urbana. E não pode ser considerado como um negócio qualquer, destinado apenas a dar lucro. Há um papel social importante, como o transporte de passageiros não pagantes -- pessoas com mais de 60 anos e crianças. Está previsto na Constituição que o transporte coletivo é responsabilidade das prefeituras e cabe a elas oferecer transporte de boa qualidade aos cidadãos. Se a maioria da população optasse pelo transporte individual, não haveria espaço físico para os deslocamentos e estacionamento dos veículos e a poluição gerada, mantido o atual padrão de motores à combustão, levaria ao caos.



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