Pequenos Milagres

O Sagrado na louça da pia


 
Tive um "insight" que quero compartilhar aqui.
 
"Insights" costumam significar um vislumbre da “verdade”, ou da “Graça”, como quiserem, e que amadurecem a maneira que vemos e vivemos a vida. Pois bem. Depois de um papo com um amigo pelo Facebook, estava me preparando para ir deitar quando fui à cozinha para tomar um copo de água. A pia estava entupida da louça do final de semana todo. Como trabalho aos finais de semana, e como Arthur, meu filho de 4 anos,  não dá um minuto de sossego à Mônica, minha companheira – e quando dá, ela quer, precisa e merece descansar – não demos conta de lavar a louça desde sexta à noite.
 
Era uma imensa pirâmide faraônica de pratos, copos, talheres (como conseguimos usar todos os nossos talheres em dois dias e meio???) desafiando meu cansaço. Resolvi encarar antes de dormir. Até porque passei parte do dia pensando em como algumas pessoas fazem coisas realmente importantes para o mundo e outras, seres comuns como nós, fazemos nada ou muito pouco. Isso porque li que um cientista publicou em alguma revista de renome uma pesquisa que pode resolver o problema da água no mundo todo... Seria realmente maravilhoso.
 
Pensava nisso quando comecei a colocar detergente na esponja. Foi nesse momento que me veio o insight. Minha querida amiga Célia Prieto postou recentemente: “Todo mundo quer salvar o mundo, mas ninguém quer ajudar a mãe a lavar a louça depois do jantar”. Achei perfeito e ri. Mas agora, neste instante, percebi que lavar aquela louça de maneira completamente consciente, sem pressa, com todo meu corpo e minha intenção presente, utilizando a água de maneira racional, prestando a atenção nos detalhes para não deixar passar um sujinho aqui ou outro ali, sentindo a temperatura e a textura da água, lavar a louça assim é tão importante quanto qualquer ato salvador do planeta e da vida nele existente.
 
Porque estou fazendo isso por amor à Mônica, que se desgasta cuidando de nosso filho. Então estou fazendo isso também pelo Arthur, porque assim a Mônica pode se dedicar a ele como deve ser. E, claro, por mim também, porque quero minha amada e meu filho felizes. Mas não é só isso. Esse trabalho que parece banal é na verdade sagrado, porque me permite meditar (estar inteiramente presente) enquanto o executo. E assim me possibilita um lindo insight, que transforma e empresta sentido à minha vida, e, transformando a minha, transforma também a vida de tantos a mim ligados.
 
E percebi que é assim com tudo que fazemos. Não há absolutamente nenhuma ação sem sacralidade. Nós é que estamos distraídos (ou não completamente despertos) para perceber sua real importância. Varrer sua casa, fazer uma comidinha, dar atenção ao seu filho, ao seu neto, ao filho do vizinho, ao menino desconhecido na rua, ao velhinho no banco, não desperdiçar água, escolher o feijão, fazer uma neurocirurgia, governar um país, inventar a cura da Aids, lavar a louça.... Tudo tem a mesma importância e a mesma sacralidade. É assim que salvamos o mundo. O mundo real. De verdade.
 
Bom dia, Vida!



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