ARTIGOS

De lordes e sanduíches


Edgard Steffen
O incidente me fez lembrar do professor Demóstenes Orsini, contratado para ministrar o curso de Fisiologia na Faculdade de Medicina de Sorocaba (1952). Era organizado, detalhista, rigoroso na avaliação das provas e trabalhos práticos que propunha. Nas aulas teóricas, começava a explanação com noções gerais e alguma curiosidade histórica antes de entrar propriamente no tema. No capítulo Nutrição contou-nos sobre um tal Lord Sandwich (John Montagu, 1718-1792), jogador inveterado que, para não se levantar da mesa do carteado nem para comer, pedira que trouxessem um bife entre duas fatias de pão. Teria, com o gesto, inventado o sanduíche.

Na verdade inventou um jeito de almoçar e jantar sem tirar os olhos do baralho e adversários. Acabou emprestando seu nome aquele fast-food, hoje vulgarizado, responsável ao lado dos refrigerantes pela epidemia de obesidade entre crianças e jovens do mundo ocidental.

O professor Orsini chamava nossa atenção para a proporcionalidade entre as substâncias nutrientes que compunham o pedido do inveterado jogador: proteína (da carne), hidrato de carbono (do pão) e lipídios (gordura da própria carne e a usada na preparação). Era quase ração balanceada. Acréscimo de verdura ou legumes poderia incluir os oligoelementos necessários ao bicho-homem.

Como prova prática nos mandava montar refeição diária, equilibrada em nutrientes e calorias, para pacientes de várias idades, pesos e atividades físicas. Aprendíamos a consultar tabelas de consumo e tabelas de valor calórico dos alimentos mais comuns no Brasil.

Com esses princípios de Fisiologia Humana, aprendemos que se alimenta bem quem usa proporções adequadas de proteínas (carnes, leite, ovos), hidratos de carbono (farinhas e açúcares) e lipídios (óleos e gorduras). Para evitar a desnutrição, vedado consumir só um gênero de comida*.

Inferimos também que não existem milagres em dietas. O raciocínio é muito simples: calorias ingeridas a maior que as necessidades diárias, engordam; ingeridas a menor, emagrecem. Na vida prática: ou se ingere menos ou se gasta mais. Daí a importância da atividade física.

Anos mais tarde, no exercício da Puericultura, cansei de lidar com gente que entendia muito claramente as necessidades nutricionais de seus pets domésticos ou do plantel rural. Escolhiam a ração adequada, de acordo com o objetivo de seu criatório, mas se comportavam como analfabetos funcionais na escolha do cardápio pessoal ou familiar.

Voltemos ao Conde de Sandwich. Era Primeiro Lorde da Marinha Real Britânica, quando a Inglaterra dominava os mares. Nessa condição, era patrão do navegador James Cook, descobridor (18/01/1778) de importante arquipélago com numerosas ilhas. Em homenagem a seu chefe, Cook as chamou Ilhas Sandwich. Você pode não conhecê-las por esse nome. Mas, se eu mencionar ondas gigantes e surfistas, Pearl Harbour e Barak Obama, você saberá que me refiro ao Havaí.

Um sanduíche teria evitado o desmaio descrito no início desta crônica. Pena que nosso país, mais se pareça com o Haiti que com o Havaí. O garoto que desmaiou de fome mora próximo donde se usam milhões para comprar votos e adesões. O episódio pode ser pontual, mas exibe a iniquidade de nossa distribuição de renda. No país que mais exporta proteína animal, ainda tem gente que sobrevive com mingau ralo de hidrato de carbono e, para chegar à escola mais perto de sua casa, viaja 30 km.

Só para acrescentar pimenta a esta salada de informes: o lorde criador do sanduba também andou usando o patrimônio do almirantado em subornos de caráter político...

(*) Uso desnutrição no sentido "distúrbio do intercâmbio nutritivo". Neste sentido, obesidade também é desnutrição.

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço - edgard.steffen@gmail.com



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