OUTRO OLHAR

A prova de Milena


Carlos Araújo

Milena chegou ao local da prova com antecedência de duas horas. Ficava apavorada com a possibilidade de atraso num momento tão importante como o vestibular. Podia ocorrer um acidente no caminho. Não devia correr risco. O melhor mesmo era garantir uma chegada segura, tranquila.

Vencido o problema do tempo, tinha que administrar outras tensões. Havia a ansiedade, a dúvida quanto à chance de se sair bem na prova, a falta de confiança no volume de conhecimento acumulado em vários anos de estudo.

Sentia-se diante da hora da verdade. E via a prova como um julgamento: a aprovação significaria a liberdade de fazer o curso de medicina numa universidade pública. Haveria comemoração. Receberia os parabéns dos pais, dos irmãos, dos amigos, do namorado. Seria capaz de gritar de felicidade e faria muita gente feliz.

Tudo isso fazia crer que não estava sozinha. Havia uma grande torcida por ela. Não sabia dizer se isso era bom ou não. Havia ganhos, mas também podia haver perdas. Imaginava o tamanho da responsabilidade. Pessoas queridas compartilhavam a expectativa de fazer uma boa prova e passar para a próxima fase.

Como todo julgamento tem dois lados, havia a possibilidade da reprovação. O curso de medicina era super concorrido: 135 candidatos por vaga. Essa proporção elevava a prova à categoria de competição esportiva. O risco de fracasso era real. Pensava nas consequências de uma possível frustração e o medo a deixava travada. Ficaria amargurada e deixaria outras pessoas igualmente tristes.

E tinha só 17 anos. Era uma menina em termos emocionais. Embora sem a experiência de uma pessoa adulta, vivia nesse instante todas as tensões que seriam difíceis até para quem tivesse mais de 30 anos. Quanto mais ela, tão jovem, tão desprovida de defesas contra as forças exteriores.

Nada mais sofrido do que viver a iminência de cair no abismo da tristeza com a reprovação no vestibular, sem ter o preparo necessário para absorver o abalo do baque. Sentiria vergonha de si mesma em caso de reprovação. Amargaria uma culpa imensa. E teria que se levantar e seguir em frente.

Recordou um filme em que o protagonista dizia que uma criatura não é forte pela energia que tem, mas pela capacidade de se levantar e seguir em frente e repetir esse movimento tantas vezes quantas fossem necessárias. E um homem só amadurece, acrescentava o protagonista, quando vai além da habilidade em bater no adversário. Quando demonstra a capacidade de apanhar, aguentar a dor e mesmo assim não se deixar destruir.

Milena sorriu. O filme era uma interpretação da vida como uma viagem difícil, arriscada, quase sempre traiçoeira. E ela tinha consciência de que era por isso que as pessoas habitualmente valorizavam os bons momentos, como uma maneira de compensar as tristezas.

A existência era realmente um grande desafio, pensou Milena. Veja a sua situação: uma adolescente apenas, e tinha que tomar a decisão mais importante da vida até então. Equilibrava-se no limite entre a escolha da profissão e o seu destino. E não podia escapar disso, não podia fugir da obrigação de tomar uma atitude.

E ainda havia a pressão de acertar o caminho a seguir. Decisões erradas ou dúvidas nessa hora podiam trazer prejuízos incalculáveis com reflexos negativos para o futuro. Podiam significar tempo perdido, que não se recupera jamais. Podiam representar doses de sofrimento e perdição.

Milena tinha um tio que, por não saber o que queria como profissão, cursara três faculdades, prestara concursos públicos sem nunca ter sido aprovado e só encontrara uma definição profissional muitos anos depois, quando, por acaso, um dia começou a fazer pastéis e agora era o melhor pasteleiro da cidade. A sobrinha, ao contrário, tinha certeza quanto à vocação de ser médica.

Milena também observava os outros candidatos. Eram milhares. Conversavam, a maioria em grupos. Outros deixavam-se ficar num canto, como ela, curtindo os pensamentos mais delirantes. Muitos sorriam, sem disfarçar o nervosismo. Sorrir era um bom remédio contra as tensões do tempo, da concorrência, da falta de confiança, do imponderável.

Nesse instante, os portões se abriram. E Milena caminhou em direção ao seu destino.



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