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Unicórnios realmente existiram


A cada ano a população de rinocerontes na natureza cai perigosamente, fenômeno que atinge todas as cinco espécies que ainda sobrevivem

"Acredito firmemente que a natureza pode trazer conforto a todos que sofrem" - Anne Frank, em seu famoso diário.

"Um país que é a sétima ou oitava economia do mundo e apenas o 75º em desenvolvimento humano não pode ser considerado normal" -

Clóvis Rossi - Folha de S.Paulo - 8 agosto/2010

Alexander Vicente Christianini

Caro leitor, não é piada. Evidências da paleontologia e registros históricos indicam que os unicórnios não são apenas um mito, fruto de nossa imaginação ou de algum desenho animado. Eles realmente existiram.

Selos de casas reais na Índia antiga com figuras que remontam a unicórnios indicavam famílias de alto status. Antigos mitos bíblicos dão conta de que apenas uma virgem seria capaz de domar a criatura. Há pinturas medievais ilustrando uma virgem com um unicórnio tranquilamente repousando a cabeça no colo da dama. Quando do retorno de uma viagem à Ásia, o veneziano Marco Polo (já no século 13) fez uma descrição do suposto bicho: "Tem pelos como o búfalo e pés de elefante. Um único chifre negro saindo da testa e cara de porco. Gosta de chafurdar na lama. São feios, brutos e não parecem passíveis de doma". Talvez nessa altura você já tenha uma pista.

As evidências indicam que os unicórnios não eram como cavalos brancos com um chifre espiralado e pontudo saindo da testa.

Provavelmente eram rinocerontes peludos do gênero Elasmotherium, brutamontes de quatro toneladas que perambulavam pela Europa e Ásia até cerca de 30 mil anos atrás. Portanto, conviveram com nossa espécie.

Ainda na Grécia antiga (quando estes rinocerontes já estavam extintos) acreditava-se que os unicórnios viviam em terras distantes e que seus chifres tinham poderes mágicos. Havia inclusive um lucrativo comércio de pó de chifre de unicórnio, mesmo que ninguém tivesse visto o bicho. Viajantes de terras longínquas se encarregavam de suprir as encomendas. Os vikings, grandes navegadores, enganavam compradores vendendo presas de marfim do narval como se fossem chifres de unicórnios. Um destes "chifres de unicórnio" presenteado à rainha Elizabeth I no século 16 foi adquirido por 10 mil libras à época (R$ 8,6 milhões em valores atuais). Acreditava-se que um copo feito do chifre era capaz de anular o efeito de qualquer veneno adicionado a uma bebida, o que claro, era só mais um mito. Mas, narvais não são unicórnios. Os narvais (Monodon monoceros) são baleias de pequeno porte que ocorrem nos mares gelados do Ártico e possuem um dente incisivo muito desenvolvido que se projeta à frente da boca, podendo chegar a 3 metros. Este dente é espiralado e pontudo, daí o mito de um chifre com estas características nos unicórnios.

Por que não temos os unicórnios originais hoje em dia? A tragédia que se abateu sobre os rinocerontes peludos tem nome e sobrenome. Chama-se Homo sapiens. Há muita evidência de que fomos responsáveis direta ou indiretamente pela extinção de várias espécies de mamíferos de grande porte bem antes de desenvolvermos armas de fogo ou máquinas. O "unicórnio" foi só uma delas. Uma trágica repetição deste fenômeno está em andamento. A cada ano a população de rinocerontes na natureza cai perigosamente, fenômeno que atinge todas as cinco espécies que ainda sobrevivem (duas na África e três na Ásia). Outras espécies e várias subespécies já foram extintas para sempre. Do rinoceronte de Java, o descrito por Marco Polo como um unicórnio, restam apenas 50 indivíduos na natureza e nenhum em cativeiro. Por que isso acontece? Assim como os vikings pensavam em lucros, caçadores ilegais matam os rinocerontes por seus chifres. No mercado negro o pó de chifre de rinoceronte é muito valorizado em países asiáticos, onde a medicina tradicional ainda credita poderes mágicos ao pó de chifre na cura de doenças ou em preparados afrodisíacos. A ascensão econômica da China só piorou este mercado negro. Se nada for feito, nossa geração será provavelmente uma das últimas a ver estes animais magníficos na natureza e eles se tornarão apenas mais uma ausência que alimenta nossa ignorância e tantos mitos por aí.

Alexander Vicente Christianini é professor na Universidade Federal de São Carlos - campus Sorocaba - avchristianini@yahoo.com.br



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