ARTIGOS

Passei!

José Milton Castan Jr.

--- Passei... Passei! - Lilinha saiu de seu quarto com o celular na mão, gritando toda eufórica. Na sala encontravam-se pai, mãe, irmã e D.

Querência, a avó materna de Lilinha (D. Querência, a mesma velhinha irada que relatei aqui há algumas semanas, que apareceu na televisão andando de tirolesa no Rock in Rio).

--- Consegui! Passei! - Lilinha falava cantarolando, rodopiando o celular e feliz na frente de todos, que olharam para ela com certo ar de surpresa e espanto.

Para entender a situação:

Lilinha estava pelo terceiro ano seguido prestando vestibular para medicina. Seu pai havia no começo deste ano declarado que, ou entrava, ou entrava na faculdade, e esta seria sua última chance. Para tanto alugou apartamento ao lado do cursinho em São Paulo, mobiliou até com máquina de lavar roupas, tudo para facilitar e propiciar ótimas condições de estudos.

E para, melhor, entender a situação:

A surpresa e espanto geral dizia respeito a uma velada descrença por parte de pai, mãe, irmã e D. Querência, que Lilinha conseguiria passar no vestibular. Por esses dias a tensão era geral e o assunto quase sempre eram as provas de vestibular, que Lilinha desconversava.
Para tornar preciso o momento, vamos ao que passou na cabeça de cada um de seus familiares no mesmo instante em que Lilinha anunciou haver passado:

A irmã de Lilinha pensou:

"Não é possível que tenha passado! Essa garota levou na brincadeira o cursinho. Eu sei que foi o ano que menos estudou, mais namorou, assistiu séries e dormiu até a hora do almoço. Avisei meu pai e minha mãe que ela não iria passar, e agora queimei a língua"
A mãe de Lilinha pensou:

"Deus é pai. Eu sabia que ela conseguiria. Alguma coisa me dizia que ela passaria no vestibular, mesmo que não tenha estudado como deveria, e não é pra menos, pois tanto tempo de cursinho ninguém é de ferro. Pensando bem foi até bom não ter cobrado tanto. Deu tudo certo!"

O pai de Lilinha pensou:

"Ufa! Finalmente. Eu mesmo não acreditava muito, não. Já estava me incomodando com a falta de dedicação dela. Quantas vezes mandei mensagem e ela não respondia, depois dizia que estava na aula, e com o tempo descobri que não ia todos os dias para o cursinho. Ainda bem que me segurei e não peguei tanto no pé"

D. Querência pensou:

"Estou surpresa, cada uma né? Eu tinha certeza que ela não passaria. No entanto continuo achando que tem pessoas que nascem médicos e outras estudam para ser médicos. Por mais que ame minha neta, mas Lilinha não se encaixa em nenhuma dessas categorias. Porém, quem sou eu para ficar julgando. Espero que agora ela se dedique à faculdade".

--- Parabéns! Precisamos comemorar - falou o pai empolgado.

Lilinha ficou espantada com a reação de seu pai:

--- Comemorar papai? - falou meio sem jeito.

--- Claro...uma vitória e tanto que merece comemoração!

Como é peculiar às pessoas de mais experiência, D. Querência assuntou melhor perguntando:

--- Lilinha: passou onde minha querida?

--- Como assim vovó?

--- Em qual faculdade você passou, Lilinha?

--- Ahhh...não é isso não! Passei de fase! - falou, toda orgulhosa.

--- Como assim, pra segunda fase do vestibular? - apertou D. Querência.

--- Não vovó!! Passei de fase no Candy Crush!

--- Não tô entendendo nada Lilinha! Passou no quê? - falou D. Querência.

--- Celular vovó! Passei de fase no joguinho do celular!


José Milton Castan Jr.é psicanalista e escritor - www.psicastan.com.br



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